Debates marcam lançamento de plataforma para ter diversidade em empresas

Na semana de comemoração dos 130 anos da abolição da escravatura no Brasil, foi lançado a plataforma digital Brasil Diverso com duas mesas de debates.

Brasil-Diverso
Segunda mesa fala de gênero e raça. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Inclusão de afrodescendentes nas empresas foi o centro do debate para lançamento da plataforma Fórum Brasil Diverso e debates sobre a importância desse tema no mundo corporativo. Diferentes representantes da comunidade afro-brasileira se reuniram na quarta-feira à tarde (16/05) para conhecer o site, ver as experiências destes profissionais nas empresas e práticas de inclusão desse público no auditório do Museu da Imagem e do Som no Jardim Europa em São Paulo.

Maurício Pestana, diretor executivo do Fórum Brasil Diverso e publish da Revista Raça, esclareceu que a plataforma faz parte da fase preparatória do Fórum Brasil Diverso previsto para novembro deste ano em São Paulo. A iniciativa contou com patrocínio de Bayer e Itaú.
O jornalista compartilhou rapidamente sua experiência na gestão pública como secretário Municipal de Promoção de Igualdade Racial de São Paulo e defendeu: “Nós também temos que provocar o setor privado”. Depois de sair da secretaria, ele fez várias palestras em inúmeras cidades do país. “Consegui reunir informações soltas, dados, pesquisas sobre inclusão de pessoas e gênero. Hoje quando observo e olho o país. Penso que essa onda já virou e quem está querendo trabalhar pela inclusão pode ter a plataforma como um apoio para isso”. Terminou sua fala mostrando a equipe da seleção brasileira de futebol e disse: “O que mais nos orgulha é o nosso esporte e ele é respeitado pela genialidade. Existe na equipe uma diversidade”.

Primeira mesa focou sobre a importância da diversidade no mundo corporativo. Participaram: Théo van der Loo, CEO da Bayer, e Simone Gallo, gerente de relações institucionais.

A primeira pergunta feita pela jornalista e apresentadora da TV Cultura foi qual o passo para a mudança começar? Theo comenta que algo está errado no país. Para ele, falta tempo e prioridades para as empresas. “Ficou claro para mim que os negros não querem favores, mas oportunidades. Expandi as discussões da empresa para um grupo de 10 funcionários que são negros. Nossa missão é que metade da empresa seja formada por afrodescendentes”.

Já Simone confirmou que existe hoje uma pressão social para a diversidade, feita por organismos nacionais e internacionais. Em junho do ano passado a direção do banco assinou um compromisso pela diversidade. “Temos 90 mil colaboradores em todo país e temos o dever de trabalhar isso de forma estrutural”.

E as mudanças que perceberam? Simone explicou que lá eles trabalham com quatro pilares fundamentais com foco na inclusão de colaboradores, na sociedade e em entidades da sociedade civil. A ideia também é ajudar os coletivos de universidades para eles permanecerem. Por isso, uma parte da verba de patrocínio institucional está destinada à iniciativas de inclusão de jovens negros. Também esclarece que a área de diversidade tem metas para cumprir. “Possuímos 90 mil funcionários, sendo que 20 mil são negros. Temos ainda um gap muito grande para preencher e temos metas reais para todos os tipos de cargos da empresa”.

Na Bayer, segundo Theo, há vários grupos de diferentes temas, como: LBT, gênero, pessoas com deficiência, afrodescendentes e outros. Cada grupo tem suas próprias metas e vidas próprias. “Muitas pessoas acham boa ideia, mas poucas praticam. Sempre pensam que alguém vai resolver isso. É preciso mudar o pensamento na faculdade, lá aprendemos a ter lucro e os homens em geral têm dificuldade de mostrar sua sensibilidade”, confessou.

E o que diversidade traz aos negócios? Simone comentou uma pesquisa recente da consultoria MC Kinsey em que comprova que a diversidade traz mais lucros. Já Theo opina que o motivo principal tem que ser sempre do coração e não vai fazer mal aos negócios. Nas reuniões com diversidade de profissionais, pode sair sim decisões importantes. Ele ainda sugeriu conversar com acionistas. “Se você quiser atrair talentos jovens, precisa ser uma empresa mais interessante”. Ele comentou sobre e-social que dá para retirar dados e trouxe que no Censo de 2014 16% eram afrodescendentes e queremos atingir 35%. Nosso foco é estagiário que tem rotatividade alta. Nos cargos mais altos, apenas 2% são negros, e os desafios são mais altos ainda. “Temos que procurar candidatos negros”.

Já a segunda mesa debateu sobre gênero e raça. Participaram as executivas de empresas: Maria Ângela de Jesus e Rachel Maria. A mediação ficou com Maurício Pestana, diretor executivo do Fórum Brasil Diverso e Publisher da Revista Raça.

Em uma bate-papo descontraído, as duas compartilharam suas histórias em grandes empresas. A primeira a falar foi Maria Ângela, executiva do Netflix. Emocionada, ela afirmou: “A luta é grande”. Ela tem formação em jornalismo e sempre atuou com crítica de cinema e nesse segmento surgiu oportunidade de trabalhar em empresa de televisão, na HBO. Lá de supervisora de televisão passou para executiva. “Tive sorte, porque tive pessoas talentosas em meu caminho e sempre temos que mostrar que somos ótimos, porque já saímos atrás, temos que correr muito”. Atualmente ela trabalha na Netflix.
Ela ainda afirmou que é importante não desistir e ter consciência desse movimento. Nós temos 0,5% de mulheres negras em posição de poder. “Juntas somos melhores para compartilhar”.

Rachel Maia, ex CEO da Pandora, falou que sua experiência anterior foi na Tiffany. “Quando você constrói um business, emplaca um estilo”. Conta que construiu uma trajetória profissional dentro do universo do luxo. “Tem alguns que não sabem lidar com esse problema (inclusão da diversidade). Agora continuar na ignorância é um problema. Eu acredito que os recursos humanos têm o papel fundamental para a equidade. Temos 7,2% dos brasileiros ainda analfabetos. Temos que trazer essa realidade para as pessoas fazerem parte da empresa. A equidade faz parte. Ela está no nosso dia a dia. Quando você conversa com essas pessoas, a coisa muda de figura. São empresas motivacionais. Temos a ainda a população esmagadora nas periferias”.

Já Maria Angela defendeu que é preciso derrubar o mito no Brasil. “O preconceito não é social, mas racial”, conclui.

Plataforma

O site traz legislação, pesquisas, artigos, representantes da área em vídeos, entre outros. Os princípios norteadores são: justiça e direitos humanos, protagonismo de atores e foco de soluções práticas. Oferece ainda cartilha, palestras, pesquisas e consultoria. Esse último serviço analisa a cultura da empresa de forma mais detalhada.

Acesse aqui: http://forumbrasildiverso.org/