Debate com investidores sociais e pesquisa de cultura de doação

Percepção do impacto positivo das ONGs já estava aumentando antes da pandemia, segundo estudo Brasil Giving Report.

Ilustração com capa do estudo Brasil Giving 2020 com mapa do Brasil e textos: 1000 respondentes no Brasil, maiores de 18 anos, moradores de cidades e com acesso a internet e campo realizado entre 13 3 27 de agosto de 2019.
Estudo foi lançado durante o debate promovido pelo Idis e organizações parceiras no site da Folha de S. Paulo. (crédito da imagem: divulgação)

“Esta percepção positiva, este espírito comunitário, o brasileiro acordou e a doação teve ato de cidadania”, pontua Paula Fabiani, diretora-presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), em webinário Como Posso Ajudar? O movimento que faz diferença na pandemia para debater as motivações para doar e os caminhos para manter o envolvimento atingido nos últimos meses. O evento ainda apresentou a nova edição do Brasil Giving Report, um dos principais estudos sobre cultura de doação no país.

O debate contou na primeira parte abordando o tema Motivações para Doar com: Adriana Barbosa, CEO do Preta Hub; Eugênio Matter, CEO da Localiza; Márcia Woods, presidente do Conselho da ABCR; e Nathalia Arcuri, CEO da Me Poupe!. Na segunda parte sobre Caminhos e Escolhas, os participantes foram: Luiza Helena Trajano, presidente do conselho da Magazine Luiza; Paula Fabiani, do IDIS; e Rodrigo Pipponzi, diretor-executivo da Editora Mol.

Ilustração com dados da pesquisa: Engajamento em atividades solidárias - 78% dos brasileiros se envolveram com pelo menos uma atividade no último ano: 54% doação de dinheiro para uma igreja ou inst. religiosa; 53% doação de dinheiro para uma ONG e 52% doação de dinheiro diretamente para pessoas ou famílias necessitadas.
Um dos dados questionados foi que tipo de atividade solidária o entrevistado havia se envolvido. (crédito da imagem: divulgação)

Adriana reforça o trabalho das empreendedoras negras, um dos públicos mais atingidos na pandemia. Seu trabalho tem sido exatamente engajar o mercado para apoiar essas empreendedoras. “Não trabalhamos com empréstimos. Recebemos esse valor e repassamos”, resume. Ela ressalta como as doações estão destinadas para combater fome e, se fizer um corte de raça e gênero, mostra que as mulheres negras são as mais impactadas. Ela fala que sua organização também contribuiu com disseminação de conhecimento para usar as plataformas de captação de recursos.

Já Eugênio esclarece que sua empresa sempre teve uma preocupação de ser cidadã com ações de investimento social a projetos de tecnologia e de fortalecimento econômico. Na pandemia, o Instituto da empresa ofereceu uma frente para cuidar das populações mais vulneráveis e doações para unidades de saúde, além de pequenas e médias empresas. Também compartilha sobre a criação do Movimento Bem Maior, com ações de impacto a comunidades.

Márcia fala sobre a importância do engajamento do doador em tempos de pandemia. Ela reforça trabalho forte das organizações da sociedade civil para suas demandas serem disseminadas e sensibilizar a população. A mídia também se torna parceira nesse processo. “As pessoas estão refletindo mais e revendo visões”.

A idealizadora do Me Poupe! reflete como o ato de doar ajuda a construir sociedade melhor. Ela enfatiza que a prática financeira da pessoa está relacionada com seus valores pessoais. Até exemplifica como a religião da pessoa pode contribuir na sua visão sobre ato de doar. Também sugere que a doação não necessariamente é um recurso financeiro, mas também o tempo, o trabalho da pessoa.

Banner com texto e ícones dos dados:: Causas Preferiddas - Mantêm-se as mesmas desde 2017: organizações religiosas 49%, crianças ou jovens 39% e combate à pobreza 30%.
Desde edição anterior, maioria contribui majoritariamente a organizações religiosas. (crédito da imagem: divulgação)

Na segunda rodada, com o tema Caminhos e Escolhas, Rodrigo comenta sobre o ato de doar como uma ação simples e sempre esteve presente nos produtos da Editora Mol. “Entendo que as pessoas têm sua situação de consumo no dia a dia e criamos mecanismos para ela doar. Uma rede de varejo teve recorde de vendas na pandemia e isso mostra a solidariedade”. Ele também se lembra da campanha de arrecadação de recursos com resultado positivo feito pelo Instituto ACP: https://benfeitoria.com/canal/familias

Paula defende o fortalecimento da relação das organizações com a população. Em sua análise os brasileiros aumentaram seu interesse sobre doações, ele ainda está percorrendo sua trajetória filantrópica e precisa de maior maturidade nesse processo. “Nessa direção, temos a prática de mensuração e hoje em dia temos várias métricas e metodologias para fazer da maneira mais barata e confiável, usando a tecnologia. De toda a forma, já foi dada a largada”.

Luiza Trajano responde como as plataformas de denúncia de violência doméstica e o próprio tema ficou mais evidente em tempos de isolamento social. “As empresas têm que proteger as mulheres e umas ajudando as outras”.

Rodrigo compartilha para suprir seu modelo de negócio, já que algumas lojas onde vendem suas publicações estavam fechadas, fez novas parcerias com supermercados. Esses estabelecimentos avaliaram que esses produtos tinham apelo da filantropia e poderiam contribuir nesse movimento. Também fizeram lives de 12 horas no Festival Sorria.
“Tivemos grandes empresas nos procurando em apoiar e contribuir na construção de fundos de doações. O varejo no país tem potencial transformador e tínhamos a ferramenta”.

Luiza Trajano defende que as pessoas podem sair melhor após a pandemia. “As famílias estão convivendo mais e com ritmo menos acelerado”, observa e torce para elas também se envolverem em ser para ser e não ter para ser. Para ela, o momento pode contribuir para essa mudança de valores e quem consegue doar se sente melhor, faz bem para sua essência.

Paula chama atenção que o ato de doar faz bem para a saúde. Ela comenta sobre o movimento no mundo em que as pessoas doem 1% do seu tempo, do seu faturamento e produtos/serviços que você comercializa, como uma prática transversal. Ressalta a importância de pensar a cultura da doação a longo prazo e de forma estratégica para criar fundos patrimoniais que são mecanismos que ganham espaço no país. Também citou fundos que captam dentro da sociedade para a comunidade. “Somos nós que vamos mudar o Brasil e precisamos nos unir. Acredito muito nas alianças para enfrentar os problemas antigos e novos que surgirem na pandemia”.

Já a empresária Luiza Trajano defende a importância de políticas públicas, como a valorização e estruturação do SUS. “Estou no Grupo Mulheres do Brasil para enfatizar sim políticas públicas para redução das desigualdades sociais”.

Rodrigo finaliza sua fala reforçando a importância da simplificação da prestação de contas. As lives hoje em dia oferecem QR Code para doar para causas sociais. Também pontua uma prestação de contas didática, humana e constante. “Temos que saber contar as histórias. Elas tocam a gente e fazem entender o real valor das doações”.

Ilustração com texto: Eu doaria mais de.... 52% tivesse mais dinheiro, 43% soubesse com certeza como o dinheiro é gasto, 36% houvesse mais transparência por parte das ONGs e 32% soubesse mais sobre as ONGs e suas atividades.
Maioria se tivesse mais recursos doariam mais. (crédito da imagem: divulgação)

Pesquisa

O estudo Um Retrato da Doação no Brasil está em seu terceiro ano e mostra como os brasileiros praticaram doação, voluntariado e engajamento cívico no ano anterior. Os dados são referentes ao ano de 2019 e foi produzido pela Aliança Global da Charities Aid Foundation (CAF).

Oito em cada dez brasileiros afirmaram que as organizações sociais tiveram um impacto positivo no país como um todo (82% contra 73% em 2018) e em suas comunidades locais (80% contra 73% em 2018). Os mais jovens são os mais propensos a ter essa opinião positiva. Quase nove em cada dez pessoas (87%) com idade entre 25 e 34 anos reconhecem um impacto positivo na comunidade local.

Os brasileiros possuem uma visão positiva das ONGs em geral, com três quartos (74%) concordando que: “a maioria das organizações sociais trabalha arduamente para alcançar resultados positivos para aqueles que pretendem ajudar”.

Uma das novidades do relatório é a opinião dos brasileiros sobre a relação das empresas com as ONGs. 86% dos respondentes disseram que as empresas devem apoiar as comunidades em que atual, 81% são favoráveis a parcerias entre empresas e ONGs e 71% se declarou mais propenso a comprar um produto de uma empresa que ajuda a comunidade local ou investe na solução de questões sociais.

Duzentos reais é o valor típico doado pelos brasileiros que doaram nos últimos 12 meses, mesmo patamar registrado em 2018, mas inferior a 2017, quando o valor foi de R$250. Além disso, a proporção dos que doaram permaneceu estável, quando praticamente sete em cada dez brasileiros afirmaram ter feito doação em dinheiro nos últimos 12 meses (67% em 2019 contra 70% em 2018). Como nas pesquisas anteriores, os jovens com idade entre 25 e 34 anos são sempre os que se mostram mais propensos a doar.

Acesse aqui o estudo na íntegra: www.idis.org.br/publicacoes