Da impressão digital ao ambiente digital

Programa ensina a ler e escrever com ajuda de tecnologia a catadores.

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A primeira turma do programa concluiu a formação no final do mês de junho. (crédito da imagem: divulgação)

Conhecer as letras, unir as sílabas, formar palavras e expressões e assinar o próprio nome. Essas são algumas das experiências de adultos que voltaram à sala de aula após um dia de trabalho na separação de material reciclável. Em geral, as salas são ali em cooperativas de catadores de materiais recicláveis. Eles aprendem a ler, escrever e também discutem temas relevantes do dia a dia. As aulas fazem parte do Programa Alfabetização Cidadã, desenvolvido pela Samsung Social com Instituto Paulo Freire desde outubro do ano passado.

A iniciativa desenvolvida pela área de empresa de tecnologia destinada a ações sociais contou desde o início com a organização de educação para formatarem uma capacitação em que usam a tecnologia para ajudar as pessoas a superarem barreiras no processo de alfabetização. As histórias desses adultos estão sendo divulgadas no YouTube em filmes de um minuto de duração: https://goo.gl/xKSygg

Os alunos são, em geral, mulheres, entre 18 e 83 anos. Todos trabalham com descarte de resíduos. São 28 turmas espalhadas em 22 cooperativas pela Grande São Paulo. Eles têm aulas duas vezes por semana em duas horas e meia de duração. Participam cerca de 300 pessoas, no total. Contam com apoio de celulares da empresa e aplicativo Palma Escola, da IES2, que mescla imagens, sons e letras e contribui ao desenvolvimento da aprendizagem junto com a metodologia de ensino Paulo Freire.

A empresa também disponibilizou televisores, notebooks, planos de dados aos telefones, material didático, lanche, vale transporte e até atendimento oftalmológico com disponibilização de óculos para incentivar a participação ao projeto.

Segundo Camila Pádua, gerente de marketing corporativo da empresa, a Samsung investiu há muito tempo no processo de descarte de material eletrônico. Dessa vez foram um pouco além ao observarem o universo das cooperativas e dos catadores e se atentaram com o alto índice de analfabetismo nesse grupo. “Foi assim que nasceu esse projeto, nós entendemos nosso papel na área de tecnologia e buscamos um parceiro na metodologia do ensinar. O papel dos catadores é muito importante, chamamos de salvadores da campanha. Nossa ideia era usar o contexto para que eles entendessem a responsabilidade que estão em suas mãos para uma cultura sustentável. Convidamos também os funcionários que descartem corretamente seus resíduos”.

A representante da Samsung ainda compartilhou que foi desenvolvido um levantamento para identificar melhor essa população dentro do segmento. “Nós não sabíamos o número exato dessa população, porém reconhecíamos o papel deles e queríamos empoderá-los para sair um trabalho ainda maior”. Essas histórias de superações estão sendo compartilhadas em vídeos, em que eles relatam que não conseguiam realizar coisas simples como assinar seus próprios documentos, pegar um ônibus ou ir até o supermercado.

A média dos alunos possui de 35 a 40 anos, predominantemente mulheres (70%). E eles também inspiram outras pessoas a voltarem aos estudos. No processo do projeto, observaram que muitos tinham dificuldades na alfabetização, porque não enxergavam direitos. De 300 alunos, 165 precisavam de óculos.

A gerente de marketing atenta que essa formação contribui para a valorização da autoestima como cidadãos entendendo o papel social deles. “Também fizemos uma ação para levá-los pela primeira vez ao teatro. Eles possuem dificuldade no dia a dia, de pegar ônibus, entender a receita médica quando passam em consulta no SUS (Sistema Único de Saúde). Não conseguiam saber se estavam sendo cobrados corretamente na conta de luz. Temos desde pessoas que não sabiam nada até as que conheciam um pouco mais”.

Forma de ensinar

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A forma de ensinar é baseada na metodologia de Paulo Freire, em que mistura programas de televisão e de rádio, apostilas e aplicativo. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Sonia Couto Souza Feitosa, coordenadora pedagógica do Instituto Paulo Freire, conta que toda semana os alfabetizadores se reúnem para compartilharem os avanços e desafios no dia a dia da sala de aula. “É bem forte a sensação que eles tinham, por trabalharem com o lixo, de se sentirem lixo também. Algumas vezes sentiam que seu trabalho era lidando tempo todo com resíduo, que se achavam invisíveis e começaram a perceber o quanto eles contribuem ao desenvolvimento socioambiental”, afirmou. A educadora ainda explicou que o projeto atua no tripé da alfabetização (leitura e escrita), inclusão digital (por meio do celular) e da sustentabilidade. Esses temas pautam os professores de assuntos relevantes e do dia a dia dos catadores. “Eles estão percebendo o quanto a natureza está sendo prejudicada e separam materiais para impactar cada vez menos”.

A coordenadora comentou que a inclusão dos celulares foi bem gradativa e todos os alfabetizadores receberam ainda notebooks para trabalhar com todo material de apoio. As salas são equipadas com TVs. Ela fala ainda que alguns já tinham celulares e usavam apenas com a função de ligar e receber chamadas. “A gente trabalha muito a leitura do mundo e traz em sala de aula a realidade deles. Os desafios sociais também estão bem presentes nas conversas e eles tiram foto em seus celulares e trazem para a sala de aula. O educador ajuda a refletir sobre aquele tema. “A proposta freiriana vai muito nessa direção. Não somente na leitura das palavras, mas ler o mundo e ampliar sua visão”.

Os alunos recebem quatro cadernos de estudos e cada um deles tem 21 temas, que acompanha um programa de televisão como uma novela que mostra a realidade e ajuda a problematizar algumas questões. Há ainda programas radiofônicos, que eles acompanham pelo celular. Cada aluno tem um amigo de fé, que pode ser uma pessoa da família para auxiliar nas atividades extra-classe. Essa pessoa precisa de tempo e dedicação. “Eles estão aqui conosco em dois dias e três estudam em casa com seu amigo de fé”, esclareceu Sônia.

A coordenadora pedagógica que muitos alunos começam a entender melhor a importância de seu trabalho. Consequentemente, há uma valorização da autoestima deles. “Sabemos que na educação de jovens e adultos tem uma especificidade trabalhar essa diversidade, com diferentes faixas etárias, de origens e gênero. Em uma das cooperativas, temos uma aluna mulher trans. Tudo isso exige cuidado para não rotular, nem estereotipar”, comentou a representante do Instituto Paulo Freire.

A capacitação dessas turmas finalizou agora no final de junho e os educadores estimulam que os alunos busquem escolas em seus bairros para continuarem seus estudos. A desistência da formação foi bem baixa, não chega a 10% dos participantes.

“O analfabetismo é um problema social. É importante que existam programas voltados para isso. Essencial que o básico seja acompanhado de uma visão crítica. Estimular as diferentes possibilidades de exercer sua cidadania. Por isso o projeto é Alfabetização Cidadã. Nós queremos que eles mais do que conhecimento da leitura e escrita, que tenham uma participação maior”, defendeu.

Quem são eles?

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Os alunos são da Cooperativa Central Tietê, do Tatuapé, na zona leste de São Paulo. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Adultos de diferentes idades com sonhos distintos, mas mesma vontade de aprender para se descobrir e alcançar outros espaços. Rosemeire Elias Maila, 32 anos, é uma das alunas. Possui cinco filhos. Participa das aulas desde o início e comentou que sabia ler um pouco, mas não sabia escrever. Ela trabalhava separando o material e surgiu uma oportunidade no final do ano passado para entrar na secretaria da diretoria. Ela está buscando uma escola para continuar os estudos. Fez cadastro para supletivo. “Eu quero ficar na diretoria, ganhar melhor. Quero crescer”. Ela ainda observou que conseguiu ler o regimento da cooperativa e entender várias informações importantes.

O mais novo é Manuel Pavão da Silva, 24 anos. Sem filhos, o jovem é direto e fala que quer aprender a ler e escrever para conseguir sua carteira nacional de habilitação. Ele estudou até a quinta série e parou, porque achava a rua mais atraente. Confessa que não gosta de estudar.

Já Quitéria Maria da Silva, 42 anos, elogia a professora, que sempre tem paciência em explicar a todos o conteúdo. “Quando cheguei aqui, eu não sabia nada. Nem escrever meu nome. Hoje consigo formar expressões. Quero continuar a aprender e ler mais”, afirma moradora do bairro Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo. Com nove filhos, sua amiga de fé é a filha de 20 anos. Também ganhou os óculos do projeto.

Edimida de Onoro, 41 anos, também agradeceu a educadora. Ela explicou que aprendeu a formar palavras, escrever seu nome e dos seus três filhos. “Ainda não sei ler muito bem, mas consigo entender os vídeos da televisão. Mexo bastante no celular e minha filha de 15 anos me ajuda. Também recebo apoio de Maria de Lourdes, a tesoureira da cooperativa, quando me esqueço das tarefas”. Ainda está avaliando se continuará os estudos.

Por outro lado, Maria Aparecida da Silva, 43 anos, está pesquisando escolas para concluir os estudos. Compartilhou que quando sua mãe veio para São Paulo não deixou acompanhá-la para terminar a escola. Mas saiu na quarta série para trabalhar. Nasceu em Garanhuns (PE) e tem cinco filhos. Ela ainda disse que aprende bastante com a filha de 18, que a incentiva a ler e conhecer mais coisas.