Cultura de doação e grantmaking

Consultor e gestoras de organizações compartilham avanços, desafios e dificuldades no dia a dia para conseguirem mais doações em suas causas.

mesa captacao recurso
Rodrigo mostra o caminho do impacto social aplicado adequadamente. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

A maioria das organizações identifica a falta de recursos como um dos principais desafios. Elas vão atrás de capacitações e informações técnicas para ajudá- las nesse processo. Esse foi um dos temas discutidos no mesa de hoje pela manhã no segundo dia do 10º Congresso GIFE com tema Brasil, Democracia e Desenvolvimento Sustentável no prédio da Fecomércio no centro de São Paulo. O evento encerra amanhã com debate de encerramento transmitido ao vivo pelo Facebook na página do GIFE.

Rodrigo Alvarez, sócio proprietário da Mobiliza e atua há 22 anos com gestão e captação de recursos para diversas organizações brasileiras e internacionais, falou sobre a necessidade de ampliar a perspectiva de captação de recursos. Ainda observa que há muitas organizações que correm atrás de informações para saber aonde estão e como acessar esses recursos. Existe ainda uma falsa percepção que ao saber onde estão que os problemas estão resolvidos, mas há um processo nisso. Dessa forma, ele ressalta a importância de ter uma equipe que toque essa área e em níveis mais profundos para reflexões e se atentar ao risco que ela vai aprender as técnicas e não vai conseguir chegar, porque ela não está construindo boas relações com públicos de interesse. Ele ainda sugeriu ao público para conhecer a realidade do financiador. Citou uma obra chamada Mídias Sociais Transformadoras – Ação e Mudança no Terceiro Setor, em que fala de duas frentes: organizações fortalezas que se fecham e as esponjas que estão se relacionando e estão mais em contato com o mundo externo.

O captador ainda explicou que o modelo de financiamento não consegue se ver por dentro nem para fora. “Muitas organizações não têm tempo para pensar em sua identidade e fortalecer e criar um ciclo de escassez e atraindo pessoas menos capacitadas e com menos qualificação e não tem tempo de pensar na identidade institucional para gerar menos resultados e mais desconfiança”. Ainda observou que no Censo do GIFE houve uma redução do repasse dos investidores para as organizações e por outro lado tem uma vontade de interesse de apoiar.

Ele ainda comentou sobre o papel fundamental das organizações da sociedade civil na construção da Constituição. “Elas atuaram pela Constituição, que não é financiada pela sociedade civil, principalmente depois da ditadura num movimento financiado por organizações internacionais, que teve importante resultado que geram ao longo do tempo foram desaprendendo a relação com a sociedade brasileira. Não é algo simples fazer com que elas participem da própria organização”.

Rodrigo ainda tocou no assunto de coragem para o risco dos doadores institucionais. Eles precisam buscar capital financeiro para investir em pessoas para montar equipes, investir na capacitação e formações de fôlegos desses profissionais. “Tem que ensinar esse cara a elaborar projetos, como elaborar uma carta para captar recursos, formação de fôlegos a largo prazo. Depois dar assistência técnica, não adianta você formar se não acompanhar. Atração de novos talentos também é fundamental, porque não dá para pensar em formar sem olhar hoje para as organizações que, em geral, têm pessoas capacitadas com a área fim e pouca gente capaz de lidar com dinheiro, isso precisa ser falado claramente. É um ato político dentro das organizações”.

A mediadora Georgia Pessoa, advogada mestre em gestão ambiental e diretora executiva no Instituto Humanize, compartilhou dados coletados pelo aplicativo do evento sobre algumas questões: 1) Você acredita que o projeto social em negócio de impacto é uma alternativa e solução? 78% disseram sim e 20% não; 2) você é uma organização e possui uma área exclusiva de captação de recursos? 83% não e 16% sim; 3) Qual sua principal fonte de financiamento? 34% depende de recursos nacionais, 33% doação físicas, 33% vem de editais e 16% de outras formas.

Angela Dannemann, engenheira química com mestrado em administração e superintendente da Fundação Itaú Social, explicou programa de captação de recursos da organização e ressaltou a importância do microdoador. Ressaltou que a sociedade civil deve se unir para defender as pautas em comum. Comentou sobre um grupo específico criado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para discutir o desenvolvimento das fundações. Um dos institutos participantes é uma organização egípcia que contribui para preenchimento de editais a organizações no processo de captação.

Já Inês Mindlin Lafer, psicóloga e especialista em direitos humanos e dirige o Instituto Betty e Jacob Lafer, sugeriu também pensar na mobilização de recursos como um desenvolvimento de carreira desse profissional. “Ele sai da invisibilidade entre os pares para se colocar no lugar de líder transformador”, pontuou. Ela comentou que há diferentes tipos de doações, dos que atrelam na compra de um produto, de fundo perdido, entre outros.

Rodrigo atenta o público de que nem todas as organizações conseguem fazer um negócio de impacto. Primeiro, ele sugere a organização pensar que tipo de impacto ela quer fazer, depois se a identidade da organização comparta um modelo de negócio e atrai novo capital. “É importante começar o modelo de impacto, depois o modelo de negócio”.

Angela ainda comentou que as organizações usam pouco a tecnologia e cada uma tem um nível de maturidade com essas ferramentas. Ela acredita que é importante ter debates sobre monitoramento e ação. Ela comentou uma pesquisa do Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor para pautar as organizações da sociedade civil em defesa de direitos humanos ressalta a diversificação de atividades com fins de prestação de serviços. Ela disse que o campo de conhecimento e prática de negócios de impacto ainda faltam definir. A boa notícia é que 89% das organizações se enxergam capazes de gerir recursos e continuam com equipes comprometidas mesmo maltratadas e mal remuneradas, mas continuam no desenvolvimento de metodologias próprias. Elas são reconhecidas e legítimas com públicos com que elas trabalham, reconhecendo diversidade de metodologia e de programas.

A mediadora conclui o debate explicando o Instituto Humanize que atua com sustentabilidade e geração de renda, reunindo 23 temas. Ela aproveita e convida outras organizações para trabalhar nesse sentido.

Acesse aqui a programação do evento: https://congressogife.org.br/2018/