Cultura de doação: as oportunidades que podemos ver

14762O ano de 2016 transcorre com muitos pontos de interrogação para a sociedade brasileira. Por isso mesmo, não deve ser deixada de lado uma questão que, embora não tenha a mesma visibilidade midiática, também é fundamental para a consolidação da democracia no Brasil: a sustentabilidade das organizações da sociedade civil.

O tema já vem sendo discutido intensamente nos últimos anos pelas instituições privadas que realizam investimentos no campo social, pelas organizações que dependem desses recursos para atuarem em suas causas e por órgãos de governo. O cenário que se apresenta é o de contenção do repasse de recursos do investimento social privado às ONGs e vários fatores contribuíram para isso.

Mas agora, ironicamente, os impactos da crise econômica brasileira trazem um sentido de urgência ainda maior, pois à diminuição do fluxo de recursos externos soma-se a ameaça de fechamento das fontes internas que irrigavam os investimentos sociais.
Na década passada, por exemplo, a vitalidade econômica do país e o aumento do poder aquisitivo das classes mais pobres acabaram por induzir organismos multilaterais e de cooperação, bem como as fundações internacionais, a direcionarem para outros países recursos que antes vinham para o Brasil. Já estava clara, portanto, a necessidade de criação de uma nova arquitetura de financiamento para o tecido social local, o que passa necessariamente pelo desenvolvimento da cultura de doação.

Vivemos um momento estrategicamente importante para o investimento social privado, que leva ao resgate de perguntas existenciais. Qual é o sentido da doação? Como e por que garantir a sustentabilidade das organizações da sociedade civil? Como fazer com que a sociedade compreenda a fundamental importância dessas organizações para a construção democrática?

É tempo de convocar esforços para manter os projetos, os recursos humanos, financeiros e materiais, que estão sob o risco de contingenciamento pelas dificuldades vividas pelas empresas. Não podemos perder de vista as oportunidades que aparecem com as crises e este pode ser o impulso necessário para ações criativas, fortalecendo meios alternativos de sustentação dos projetos sociais.

Há promissoras iniciativas em curso para desenvolver mecanismos de captação e mobilização de recursos. Entre os caminhos que despontam estão a recente instituição do Dia de Doar, celebrado em 1º de dezembro, e a criação, pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), do Fundo Bis, nome que remete à multiplicação de recursos, de doações e de ações sociais. O Gife recomenda que seus mais de cem associados doem 1% de seus orçamentos ao fundo, que cumprirá um duplo papel: será uma estratégia de alavancagem de recursos em si e também terá como finalidade financiar iniciativas inovadoras – como campanhas e pesquisas – que possam aperfeiçoar o ambiente para doações no Brasil.

Dentro do espírito de conhecer melhor as motivações que incentivam os brasileiros a se tornar doadores, e com isso traçar formas de incremento à prática da doação, nós do Instituto C&A apoiamos a primeira edição da pesquisa Doação Brasil, realizada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis). O projeto envolve múltiplas instituições e empresas, tendo recebido cofinanciamento e lançado mão de estratégias criativas de levantamento de fundos via plataforma virtual.

Em sintonia com o mesmo desafio de aumentar a massa crítica sobre cultura de doação no Brasil, outras linhas de estudo já instituídas se consolidam, caso da pesquisa BISC – Benchmarking de Investimento Social Corporativo, que em sua última edição constatou o desejo de os investidores sociais privados buscarem formas de aumentar o impacto dos recursos que aportam, e do Censo Gife, a mais completa radiografia sobre o investimento social privado o Brasil.

Quanto mais conhecimento acumularmos e argumentos reunirmos, mais oportunidades serão identificadas para a cultura da doação deslanchar no Brasil. Os tempos de incerteza que vivemos podem representar um marco histórico para a nossa sociedade – tudo depende de como lidaremos com eles. Tomara que o futuro traga mais do que respostas econômicas e políticas – e ilumine a construção de uma ambiência que reconheça e acolha com generosidade os movimentos sociais, em seu esforço genuíno para a garantia dos direitos básicos da cidadania.


Texto: Giuliana Ortega, diretora-executiva do Instituto C&A
Imagem: Divulgação
Data original da publicação: 03/06/2016