Criptomoedas: uma opção para doação de recursos a organizações

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Karla Córdoba contextualiza o atual sistema financeiro

Em um momento de transição de economia mais sustentável, cada vez mais alguns assuntos como pegada ecológica, agricultura orgânica, responsabilidade corporativa e até as criptomoedas ganham espaço. O que são essas moedas? O que elas representam? Quem está aceitando e como criar os novos tipos de dinheiros? Essas questões foram discutidas na palestra O futuro (o presente?) da Captação de recursos: as Cryptocurrencies, na tarde do último dia da oitava edição do Festival ABCR no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo.

A atividade foi ministrada por Karla Cordoba Brenes, co-fundadora da Sustainability School e fundadora e consultora da iniciativa Experts for God, agência on-line da área de comunicação e fundraising a ONGs e causas sociais e ambientais; e Ranulfo Paiva Sobrinho, economista, escritor e co-fundador da Sustainability School e pesquisador associado no Instituto de Economia da Unicamp, onde desenvolve pesquisas nas áreas de métodos de apoio à decisão para sistemas socioecológicos complexos e macroeconomia ecológica.

Eles comentaram que algumas empresas e organizações sociais já estão buscando novos tipos de dinheiro para suas negociações. Foram citados o caso da Microsoft em parceria com a R3 –essa última é uma empresa de inovação tecnológica financeira liderada por uma equipe de veteranos da indústria financeira, tecnológicos e novos empresários de tecnologia, que reúne os conhecimentos de mercados financeiros eletrônicos, como criptogradia e moedas digitais. O Banco de Tóquio também já possui sua própria moeda digital. O governo do Japão está aceitando o bitcoin (um tipo de moeda digital) no pagamento de impostos. Do outro lado, o Unicef está investindo em startups para desenharem suas necessidades financeiras alinhadas com sustentabilidade. Outra organização atuando com isso é o Children of Gaza Fund.

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Karla e Ranulfo (à esquerda) explicam a lógica dos outros tipos de moedas

Após esses exemplos, a dupla questionou o público sobre o novo dinheiro da sustentabilidade. “Mas do que estamos falando? O que é dinheiro? Como eu posso criar para resolver os problemas que tenho conhecimento?”, perguntaram a dupla de especialistas. O público não conseguiu responder de forma direta e objetiva.

Para esclarecer esse sistema financeiro atual, eles explicaram o sistema monetário internacional – de 1900 para os dias de hoje. Lembrou do acordo de Bretton Woods, que foi um marco que redesenhou o funcionamento do capitalismo na Conferência Monetária e Financeira das Nações Unidas, que ocorreu na cidade de Bretton Woods, estado de New Hampshire (Estados Unidos), e reuniu 730 delegados de 44 países, entre eles estava o Brasil. O objetivo central deste encontro foi reconstruir o capitalismo mundial e a partir de um sistema de regras que regulasse a política econômica internacional.

Com uma linha do tempo, Ranulfo mostrou o acordo de Breton Woods e depois a questão dos dólares terem respaldo com ouro. E ainda explicou o conceito de dinheiro: “Nos dias de hoje é um tipo de dívida”, afirmou. Também falou sobre o sistema de dealers primários aqui no Brasil. Ou seja, os dealers são instituições financeiras credenciadas pelo Tesouro Nacional com o objetivo de promover o desenvolvimento dos mercados primário e secundário de títulos públicos. Hoje o Tesouro possui 12 dealers, sendo que 10 são bancos e dois corretoras ou distribuidoras independentes (Clique aqui para ver explicação: http://goo.gl/iaP4i0). A maioria desses dealers do Brasil estão envolvidos no escândalo da taxa de juros Libor. E como os bancos comerciais criam dinheiro? Ranulfo respondeu que eles produzem na forma de depósitos bancários, ao fazer novos empréstimos.

O economista atentou que nos últimos no Brasil passou por uma expansão no crédito familiar. Ou seja, a sociedade está se endividando cada vez mais. Com essa reflexão ele questionou ao público qual poderia ser o conceito de dinheiro e sugeriu: “é um acordo feito por uma comunidade para usar um item padronizado que sirva, ao menos, como meio de troca”.

O palestrante também comentou que o estado estadunidense de New Hampshire aceita bitcoins para pagar impostos. E por quê? Ele respondeu que é um método seguro e elimina o agente financeiro intermediário, tornando as transações financeiras mais baratas. Também ressaltou sobre o movimento Positive Money, que tenta democratizar o sistema monetário e bancário para que funcione a favor da sociedade e não contra ela. No site do movimento, pontua que eles acreditam que a maior dívida pessoal foi criada pelo sistema financeira atual, com uma habitação inacessível, piorando a situação da desigualdade social, o desemprego elevador e os bancos que são subsidiados e subscrito com o dinheiro dos contribuintes. O site deles é http://positivemoney.org/

Segundos os especialistas, a saída está na sustentabilidade de sistemas complexos ecológicos. Nessa via, as criptomoedas atendem essa demanda, que é uma moeda digital criptografada que serve ao menos como meio de troca. Não há controle de um governo central, transparência no processo de criação do dinheiro e Blockchain – record das transnacionais de maneira distribuída, encriptação (oferece segurança) e criação de moedas mining. As vantagens, segundo os palestrantes, são: regras e valores claros e específicos e anonimato.

Já são mais de 15 mil bitcoins em circulação. O valor do bitcoin está hoje em torno de R$ $448,75. Essa moeda digital está sendo usada para inúmeras transações cotidianas. “Inicialmente foram criadas do nada e não é possível fazer reserva de valor”, afirmou. Wikimedia Foundation e Mozilla Foundation foram os casos citados que estão aceitando bitcoins em suas doações. Atualmente são sete países de quatro continentes impactados por essa moeda digital. E ainda informou que eles possuem baixas taxas de transação.

Karla e Ranulfo sugeriram o uso desse tipo de moeda para o sistema de doação de recursos a campanhas de organizações sociais. Eles revelaram a criação de uma moeda digital pela sustentabilidade por meio do grupo de pesquisadores e professores que integram a Sustainability School.

8º Festival ABCR

Entre os dias 4 e 6 de maio, ocorreu um evento voltado para captação de recursos a organizações da sociedade civil no no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo. Participaram deste encontro profissionais da área de captação e mobilização de recursos de organizações da sociedade civil; gestores de associações e fundações; acadêmicos, estudantes, pesquisadores e demais interessados em compreender a situação atual e as tendências desse segmento.


Serviço:

Acesse o site do evento: http://festivalabcr.org.br/

Confira a cobertura completa do evento:

Expertise da organização Atados é usada como case em palestra

Dicas de abordagem online para conseguir doadores, com Nick Allen

Representante da Aldeias Globais mostra como tornar projetos sociais atrativos para apoiadores

Casa de David é caso de sucesso apresentado no Festival ABCR

Mundano inspira os captadores de recursos e ressalta a criatividade em suas mobilizações

Captamos: rede social para troca de conhecimento e experiências na mobilização de recursos

Criptomoedas: uma opção para uma vida financeira mais saudável e para doação de recursos a organizações da sociedade civil

Especialistas da Change.org ensinam estratégias de mobilização on-line

Representantes de organizações explicam casos de inovação na estrutura das organizações para diversificar processo de captação de recursos

O ambiente digital e a captação de recursos são tema de plenária no Festival ABCR

Desenvolver a cultura de doação tem relação com progressão geométrica, segundo Marcelo Estraviz, escritor e ativista no segmento de mobilização de recursos

Realidade virtual pode ser uma saída para divulgar a causa de organizações sociais e contribuir no processo de captação de recursos

Diretora-presidente do IDIS explica a pesquisa Doação Brasil

Especialistas explicam como estimular a doação de imposto de renda a projetos de organizações da sociedade civil

Magic Paula abriu 8ª edição do Festival ABCR


Foto: Priscila Furuli Fotografia
Data original da publicação: 12/05/2016