Crianças e adolescentes escrevem suas próprias experiências, junto com familiares e educadores, sobre suas passagens em abrigos e casas de acolhimento

9617Esta é nossa história traz as histórias de Camila, de Tainá, de Tanani, de Lucas, de Sheila, de Caroline, de Karolyn, de Fabiana, de Wallace, de Maria Olga… São adolescentes e jovens que vivem e já passaram em abrigos e compartilham esse capítulo na obra. Lançado no início deste mês (2/5), o livro traz 29 bebês, crianças e adolescentes que aceitaram compartilharam essa parte de suas vidas. São trajetórias marcadas por encontros humanos significativos e permeadas não somente por separação, dor e violência, mas também por afeto, compreensão e crescimento. Estão 70 autores envolvidos, entre colaboradores, psicólogos, pais biológicos e adotivos, familiares, educadores dos abrigos, amigos.

Em 246 páginas, com ilustrações coloridas, fotos e um texto acessível, o livro reúne experiências de jovens que participam dos programas e atividades do Instituto Fazendo História. Durante três pessoas coordenaram o projeto e entrevistaram os jovens, conseguiram aprovar o projeto, coleta dos depoimentos e as autorizações das entrevistas.

9614
Livro é lançado em São Paulo

No Brasil, mais de 36 mil crianças e adolescentes de zero a 18 anos de idade vivem em abrigos. Desses 80% possuem família, mas foram afastados do convívio com ela por motivos diversos, como pobreza, vivência de rua, violência doméstica, responsável dependente químico ou alcoólatra, entre outros. Há ainda cerca de de 2.219 instituições de assistência no País, de acordo com levantamento nacional feito em 2011 pela Secretaria Nacional de Assistência Social, ligado ao Ministério do Desenvolvimento de Combate à Fome.

Com o sonho de se tornar um jogador de futebol reconhecido, o jovem nigeriano OlusegunAyo Johnson foi um dos participantes do projeto. Possui 18 anos e participa do curso livre de Práticas Administrativas em Escritório no Senac Itaquera desde março. Chegou ao Brasil desde 2010 na cidade de Fortaleza. “Morava com minha família na Nigéria, em uma cidade chamada Ibadan (capital do Estado de Oyo e uma das metrópoles mais populosas do país). Agora já estou regularizado”, conta. De Fortaleza foi para São Paulo, fui direcionado para ir o Centro de Acolhida para Refugiados da Cáritas, que o levou ao Fórum Central. Depois o jovem foi encaminhado para a Casa Taiguara, uma entidade que acolhe crianças, adolescentes e jovens em situação de rua. Neste local, conheceu e começou a fazer parte dos programas do Instituto Fazendo História.

O jovem africano conta ainda que ficou nesse abrigo por oito meses e passou por outras instituições, inclusive foi ao Paraguai para participar de testes de futebol em dois clubes grandes: Três de Fevereiro FC e Rio Branco FC. Ele passou no Três de Fevereiro, mas não estava com seus documentos originais, não ficou no clube e retorno ao Brasil. “Na verdade, meu sonho é jogar futebol, só que por enquanto estou sem empresário, porque ele morreu no ano passado e estou sem clube agora. Estou vendo outra oportunidade de ir para outro clube”, conta. A ideia de OlusegunAyo é conseguir um emprego meio período e outra parte se dedicar ao seu esporte predileto, porque como ele diz: “está no meu sangue e quero correr atrás”.

Durante a conversa, o entrevistado agradeceu muito sua participação da publicação e a oportunidade de estar em um país sem conflitos étnicos. Sua saída se deu por conta disso.

“Essas histórias não são apenas para serem lidas, mas para aprender com a experiência do outro, para você aprender a ter mais coragem. O meu passado, o meu presente e o meu futuro está na mão de Deus. Ele está me ajudando até agora”, comenta. Para ele, a parte mais difícil foi aprender o português e lidar com a cultura daqui. Já sobre sua experiência em abrigos, ele comentou que nunca havia morado em um lugar diferente da casa de sua família em Ibadan. “Sentia muitas saudades da minha família. Nos abrigos, somos tratados muito bem, mas não tem tanta liberdade. Recebo muita ajuda”, diz.

9613
A publicação conta a história de 29 crianças e jovens que vivem e já passaram em abrigos

Hoje OlusegunAyo vive com seu primo em Guarulhos, em São Paulo. E pensa, se um dia ficar famoso e tiver recursos, que irá: “abrir muitos abrigos em meu país para ajudar aqueles meninos que estão na rua e sofrendo; quero ajudar outras pessoas, assim como me ajudaram quando mais precisei”.

Sua história foi escrita pela estagiária do Fazendo Nossa História, Sophia Vetorazzo. Ele escreveu um breve texto resumindo sua entrada ao Brasil, seus trabalhos e seus sonhos. Também conta com notas técnicas.

O jovem poeta

Sou servo da luz
Abandonado pelas trevas
Acolhido em um abrigo
Mas sempre nas mãos de Jesus

Com 15 anos, Jhonatan Candido de Santana não sabe por quantos abrigos já passou. Começou a escrever poemas para falar de seu sofrimento e a falta dos seis irmãos que estavam cada um em um lugar diferente. Para ele, sua participação nessa obra foi uma oportunidade de escrever o que ele sente, junto com sua família. “Pensei bastante o que escreveria, que partes poderia revelar, mas não quero que ninguém sofra o que já passei. Decidi colocar para as pessoas lerem e terem uma reflexão sobre isso”, diz.

A história de Jhonatan está na página 116 e está escrita em terceira pessoa e primeira pessoa, acompanhada de alguns de seus poemas. A colaboradora do Fazendo Minha História Andrea Roberta Colagiovanni também comentou a participação do jovem e sua criatividade e sensibilidade na criação de músicas e poemas.

9615
Nigeriano fala da sua dificuldade em aprender português e sonha em se tornar jogador de futebol

“É bom você fazer uma coisa diferente, em que todo mundo ficará sabendo. Tem gente internacional que pode levar essa história para lá e ficará conhecida no país dela também”, opina.

Processo de costura

Claudia Vidigal, psicóloga, coordenadora geral do Instituto Fazendo História e uma das organizadoras da publicação, explica que todos os jovens participantes do livro já estão no projeto Fazendo Nossa História, um dos programas do Instituto Fazendo História, em que propõe, através do contato com a literatura, o resgate e registro das histórias de vida das crianças e adolescentes. “Eles já estão acostumados a contar suas histórias, elaborarem e fazerem uma diferença naquela jovem, que nunca tinha compartilhado com ninguém”, afirma.

Além das quatro organizadoras, a obra contou com outros profissionais que ajudaram na elaboração de notas técnicas e educadores de abrigos que coletaram muita informação. “Cada história foi construída de uma forma diferente”, diz.

A meta era oferecer 30 histórias, segundo Claudia, porém a família não autorizou. “Realmente precisa ter coragem para relatos essas histórias e tem um risco quando contamos as histórias e falamos das fragilidades, dos serviços, das adoções. A gente não quis criar nenhuma inimizade, nem com abrigos, nem com famílias, nem com juízes, nem com famílias”.

Escrito por muitas mãos, com processo burocrático trabalhoso, o livro ainda deu trabalho sobre o que abordar, como contar essas trajetórias, o que deveria ser editado e o que precisaria ser apresentado com muita clareza. A ideia era conseguir respeitar a verdade de cada entrevistado, de acordo com Claudia. “Por isso, ninguém antes havia publicado. Antes era sempre um assunto segredo de justiça, como se eles tivesse feito algo de errado. Não são segredos de justiça. São histórias de vida”.

A obra foi financiada e aprovada pelo Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (Proac). A coordenadora da entidade revela que a publicação será distribuída em vários pontos do País, como bibliotecas, instituições de ensino e pesquisa, universidades e organizações sociais que já atuam com os direitos da criança e do adolescentes, além dos próprios serviços de acolhimento e aos patrocinadores. Uma parte será ainda comercializada com valor subsidiado nas livrarias.

A psicóloga fala que o objetivo desse livro é aproximar a sociedade civil da complexidade da medida do acolhimento, das adoções e das integrações familiares. Para ela, há uma visão muito simplificada dos fatos em que muitos dizem que é melhor a criança ir para família, mas é preciso ver o que esse menino sente por ter sido afastado da família, o que ela sente por perder o direito de cuidar de seu filho, além da situação de aguardar uma adoção.

“Toda nossa busca no livro é jogar luz no que os meninos puderam fazer. Vi uma situação de violência, quem me ajudou, como superei. A marca fica, a violência existiu, é muito melhor me apresentar ao mundo como fiz algo, do que alguém que estaciona no fato. Acho que quando fala da sua história você já se distancia e pode se colocar em um local de potência, de quem tem uma opinião, de quem critica o fato. Se não falar não gostei disso, já muda a situação. Sai do papel de vítima para: eu vivi, não gostei e não quero isso para mim”.

Serviço:

Título: Esta é nossa história
Organizadoras: Claudia Vidigal, Fernanda Ferraz, Luciana Sion e Mônica Vidiz
Editora: Editora Alaúde
Páginas: 246
Site do Instituto Fazendo História: www.fazendohistoria.org.br

COMPARTILHAR