Coordenadora do Inova Capital explica plataforma

Luana Marques Garcia, coordenadora do programa Inova Capital (Crédito da imagem: Nego Júnior)

Identificar negócios liderados por afrodescendentes, capacitá-los e fomentar essas ações são as principais funções do Inova Capital – Programa de Apoio a Empreendedores Afro-Brasileiros, organizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e concedido pela Divisão de Gênero e Diversidade do Setor Social e do Departamento de Oportunidades para a Maioria. Essa iniciativa no Brasil possui investimento de US$ 500 mil do BID até o final de 2017.

No início foram identificadas 1500 empresas fundadas por pelo menos um afrodescendente, cadastradas na Plataforma Brasil Afro-Empreendedor, desenvolvida pelo Sebrae e pelo Instituto Adolpho Bauer. Foram 185 inscrições num total de 79 negócios. A etapa de inscrições envolveu consultores do Sebrae e o processo de seleção reuniu especialistas do BID, Endeavor, da Anjos do Brasil e da Key Associados. Foram escolhidos 30 negócios de diversas cidades do País e com variados níveis de maturidade para participarem da etapa de capacitação.

Para entender como funciona, quem participa, expectativas e conquistas, a equipe do Setor3 conversou com Luana Marques Garcia, especialista em gênero e diversidade do BID e coordenadora do programa Inova Capital.

Portal Setor3- Quantos empreendedores atualmente são atendidos? De quais segmentos são esses negócios?

Luana Marques Garcia – A primeira edição do programa contou com 30 empreendedores de diversas cidades do país, com níveis diferentes de maturidade e representantes de diversos segmentos como construção, alimentação, marketing, moda, logística, tecnologia, entre outros. Por exemplo, os quatro empreendedores reconhecidos pela competição de negócios promovidas pelo programa em 2016 atuam em áreas bem distintas.
O primeiro lugar, Matheus da Silva Cardoso de São Paulo (SP), fundou o Moradigna, um negócio social na área da habitação que oferece reformas de casas às populações menos favorecidas. Em segundo lugar, vem a Feira Preta, da Adriana Barbosa, também de São Paulo (SP). Há 14 anos ela desenvolveu recentemente a Black Codes, uma plataforma que reúne casos e boas práticas em economia criativa da cultura negra e visa empoderar a população negra brasileira e ampliar seu acesso ao mercado publicitário. Em terceiro lugar ficou o Hamilton Henrique da Silva, de São Gonçalo (RJ). Ele desenvolveu o Saladorama, o primeiro negócio de impacto social do Brasil voltado para a alimentação e a hidratação saudável de crianças e jovens. Alyne Garcia Jobim, de Porto Alegre (RS), criadora da Integrare, consultoria especializada em capacitação e oferta de acesso ao mercado para pessoas com deficiência, recebeu uma menção honrosa.

Portal Setor3 – Quais são os principais critérios para participar desse programa?

LMG – Os critérios para a participação dos empreendedores foram: ideias inovadoras, negócios de alto potencial de crescimento e com impacto social e ambiental.

Evento internacional sobre empreendimentos organizados por afrodescendentes (Crédito da imagem: Nego Júnior)

Portal Setor3- Quais são as expectativas desse programa?

LMG – A expectativa do programa é mobilizar todo o ecossistema empresarial para que seja mais inclusivo: entidades de apoio a empresas já estabelecidas e as startups, instituições de ensino, o mercado de capitais, entre tantas outras. A aproximação de negócios afro-brasileiros com o mercado e investidores é fundamental, mas ainda é rara. Por um lado, os investidores em geral não têm empreendedores afro-brasileiros em sua rede e, por outro, esses empreendedores também não têm acesso a investidores em geral. De acordo com o Sebrae, três em cada dez brasileiros adultos possuem uma empresa, ou estão envolvidos com a criação de um negócio próprio. Ou seja, este é um vasto ecossistema que deve ser incentivado. Estamos trabalhando estreitamente com os governos para apoiar o fortalecimento dos sistemas que fazem parte do ecossistema de inovação e empreendimento, buscando tornar o ambiente mais propício para que surjam mais soluções para os desafios do desenvolvimento tanto local quanto internacional. Isso inclui a facilitação de trâmites, programas de capacitação, implementação de benefícios fiscais para incentivar a inovação, implementação dos marcos legais que vão permitir agilizar os processos de investimento e de criação de empresas, assim como leis de proteção à propriedade intelectual.

Portal Setor3 – Da metade do ano passado até agora, quais foram as principais conquistas?

LMG – Os principais resultados são: a criação de uma estratégia de prospecção de afro-empreendedores de alto potencial de crescimento e impacto econômico e social; o desenvolvimento de uma metodologia de capacitação empresarial integral, inclusiva e com pertinência cultural; o desenvolvimento de ferramentas para aumentar a capacidade de pitching, oratória e de apresentação resumida ou storytelling de negócios para investidores; o aumento da visibilidade, o intercâmbio e o acesso a redes empresariais, aceleradoras e incubadoras, feiras e investidores nacionais e internacionais; e o desenvolvimento de um piloto intensivo de capacitação e coaching com 30 afro-empreendedores; organização de uma competição de negócios com sete afro-empreendedores. Outro resultado importante é a própria realização do evento internacional O Ecossistema para a Promoção do Crescimento de Negócios de Alto Impacto Social | Conexão Estados Unidos – Brasil, que reuniu lideranças dos Estados Unidos e do Brasil para um diálogo propositivo sobre iniciativas bem-sucedidas, aprendizados, desafios e oportunidades de ações para a valorização e o crescimento de negócios de alto impacto social.

Crédito da imagem: Nego Júnior

Portal Setor3 – O que vocês observam que esses empreendimentos precisam, além de recursos financeiros? Quais são as principais dificuldades desses atores?

LMG – Partimos do fato de que o acesso ao financiamento e as capacidades de gerir um negócio sem dúvida persistem como importantes barreiras ao crescimento de todas as empresas. Contudo, os empreendedores afrodescendentes muitas vezes enfrentam barreiras adicionais em decorrência de arranjos discriminatórios históricos. Os afrodescendentes representam 68 milhões de consumidores e 11 milhões de empreendedores brasileiros. Do total de empreendedores no Brasil, 52% são negros. No entanto, apenas 29% são empregadores. Em pesquisa realizada pelo PROCON-SP em 2010 sobre Discriminação Racial nas Relações de Consumo: 56,43% dos entrevistados reporta haver presenciado atitude discriminatória de cor/raça, no momento da compra de um produto ou na contratação de um serviço. Os bancos e instituições financeiras estavam entre as três primeiras onde os consumidores mais se sentiam discriminados depois das lojas e shopping centers. Queremos reverter este quadro e promover o crescimento dos empreendimentos de afro-brasileiros por meio do Inova Capital.

Portal Setor3- Vocês desenvolveram essa iniciativa baseada em alguma ação que ocorre em outro país? Se sim, qual?

LMG – O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) tem um compromisso de longa data para promover o desenvolvimento e melhorar o bem-estar das comunidades na América Latina. No Brasil, o BID tem parceria com o governo municipal de São Paulo e o setor privado para a criação de ferramentas de análise e medição das desigualdades no desenvolvimento de grupos vulneráveis. Esta atuação busca aproveitar a capacidade conjunta dos setores público e privado para melhorar as condições de vida da população afrodescendentes. A Coalizão Empresarial para Equidade Racial e de Gênero, o Fórum Econômico São Paulo Diverso e as publicações Perfil Social Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e dos 200 Principais Fornecedores da Prefeitura de São Paulo são importantes referências para o empoderamento econômico de afrodescendentes. Outra referência é a Plataforma WeXchange, criada pelo Fundo Multilateral de Investimentos em 2013 e que vincula empreendedoras com mentores e investidores na América Latina.

Crédito da imagem: Nego Júnior

Portal Setor3 – Em sua visão, de que forma o Inova contribui para a área de inovação e empreendedorismo e a sociedade brasileira?

LMG – O BID entende que o setor privado é ator chave do desenvolvimento. O Brasil possui um dos ecossistemas de negócios mais dinâmicos da região. De acordo com o Sebrae, três em cada dez brasileiros adultos possuem uma empresa, ou estão envolvidos com a criação de um negócio próprio. Ou seja, há um vasto ecossistema que deve ser incentivado. Estamos trabalhando estreitamente com os governos para apoiar o fortalecimento dos sistemas que fazem parte do ecossistema de inovação e empreendimento, buscando tornar o ambiente mais propício para que surjam mais soluções para os desafios do desenvolvimento, tanto local quanto internacional. Isso inclui a facilitação de trâmites, programas de capacitação, implementação de benefícios fiscais para incentivar a inovação, implementação dos marcos legais que vão permitir agilizar os processos de investimento e de criação de empresas, assim como leis de proteção à propriedade intelectual.

Portal Setor3 – Quer pontuar alguma questão não abordada acima? O quê?

LMG – A participação dos afrodescendentes nos processos de desenvolvimento é uma parte fundamental de um desenvolvimento sustentável, e promovemos o desenvolvimento em parceria com os nossos associados nos governos, entidades públicas autônomas e o setor privado. Entre 2012 e 2016, o Banco Interamericano de Desenvolvimento investiu em 270 projetos que promovem o desenvolvimento com identidade dos povos indígenas e comunidades afrodescendentes, os quais somam aproximadamente US$4,3 bilhões. O BID entende que o setor privado é ator chave do desenvolvimento e que o Brasil possui um dos ecossistemas de negócios mais dinâmicos da região. Ou seja, por um lado há um vasto ecossistema que deve ser incentivado e por outro, populações que precisam ser incluídas neste processo com benefícios para todos. Estamos trabalhando estreitamente com os governos para apoiar o fortalecimento dos sistemas que fazem parte do ecossistema de inovação e empreendimento, buscando tornar o ambiente mais propício para que surjam mais soluções para os desafios do desenvolvimento tanto local quanto internacional. O BID continuará promovendo o diálogo e o estímulo ao empreendedorismo afro-brasileiro junto aos seus parceiros e, vale lembrar que ainda estamos atuando em diferentes frentes do programa. Estamos conduzindo um levantamento no país sobre o mercado afro-brasileiro, envolvendo preferências de marcas, comportamento do consumidor e publicidade nas redes sociais. Isso nos dará um direcionamento de como atuar para desenvolver ainda mais o empreendedorismo afro-brasileiro e reduzir a desigualdade. A previsão é que os resultados sejam divulgados no último trimestre deste ano.

Conheça aqui a iniciativa: http://inovacapital.net.br/pb/iniciativa/


Crédito do texto: Susana Sarmiento
Crédito das imagens: Nego Júnior