Coordenador de pesquisas do Cenpec contextualiza desigualdades educacionais na rede pública de ensino

São Paulo - Dia a dia da ocupação da Escola Estadual Caetano de Campo. Os alunos protestam contra a reorganização escolar proposta pela Secretaria de Ensino (Rovena Rosa/Agência Brasil)
São Paulo – Dia a dia da ocupação da Escola Estadual Caetano de Campo. Os alunos protestam contra a reorganização escolar proposta pela Secretaria de Ensino (Rovena Rosa/Agência Brasil)

“Quando você está numa escola muito burocrática, o professor costuma agir burocraticamente, não cria, não inventa e não busca. Agora quando você está numa escola que quer saber, o aluno também vai querer saber, conhecer as coisas. Assim consegue transmitir aos estudantes e eles aprendem, porque você apresenta a sustentação dos conceitos, e é esse o desejo do saber”, reflete o coordenador de pesquisa do Cenpec, Antônio Augusto Gomes Batista.

O professor possui experiência na área de educação e já pesquisou sobre a formação e o perfil sociocultural dos professores, entre outros temas relacionados. Nessa conversa, ele aborda os fatores e os movimentos que contribuem para as desigualdades educacionais.

Portal Setor3- Atualmente quais fatores contribuem para as desigualdades educacionais na rede pública de ensino?

Antônio Augusto Gomes Batista – São duas questões aí. A primeira é que a educação espelha as desigualdades sociais. Ela não pode ser separada. O fenômeno educação e as escolas – que são instituições que de modo mais central ocupam a educação – tendem a reproduzir essas desigualdades. Esse é um ponto, mas não é um destino. Também sabemos que a própria escola tem seus fins para existir e, segundo alguns estudos, há um valor agregador nessas instituições. Ela pode possibilitar reduzir os impactos das desigualdades sociais, passando a ser uma escola mais justa.

O segundo ponto é a capacidade que a escola possui em seus agentes e das próprias políticas educacionais de resistir isso e emprestar seu próprio peso para diminuir as desigualdades para serem mais justas e equânimes. As políticas educativas não se voltaram fortemente para enfrentar de fato esse problema socioeconômico. Por exemplo, no final do século XIX, os sistemas educacionais de muitos países, como França, Estados Unidos, Inglaterra e outros países desenvolvidos enfrentaram bem a pauta de educação. Eles construíram seus sistemas nacionais mais democráticos e inclusivos, universalizando o acesso à educação básica e obrigatória. Nós somente atingimos parcialmente esse tema no final do século passado. Conseguimos o ensino fundamental nos anos 1990 e mesmo assim pouco suficiente e com muitas dificuldades, com altos índices de reprovação e de evasão. Conseguimos colocar todos na escola, mas com qualidade baixa e com muitas distorções. Temos dissenso que algumas coisas vão aos privilegiados e isso ocorre na educação. Somos ainda o país que acredita que merece ir para uma categoria melhor quem tem diploma. As desigualdades são complicadas, não somente para a população de baixa renda e aumenta com a população negra, masculina e jovem. Os programas são maiores com segmento que vive no meio rural e nas periferias das grandes cidades. As desigualdades se acumulam. Imagina você ter esse perfil e morar nessas regiões e achar que o acesso para uma escola de qualidade é bem pequeno. Se quisermos torna nossa escola mais justa, precisamos de um país justo.

Portal Setor3- Vemos tantas iniciativas tecnológicas que contribuem no processo de formação continuada do professor e até a alunos no ambiente digital. Como democratizar ainda mais essa inovação para esses ambientes educativos?

AAGB- Há problemas que vão desde a sala de aula até as questões mais didáticas. Também temos desafios na distribuição de equipamentos adequados e que possam permitir aos jovens e as crianças o acesso a recursos que permitem um aprendizado significativo de coisas que são fundamentais para a participação no mundo contemporâneo para a busca de conhecimento e de informação. Sabemos que os estudantes têm acesso cada vez mais a celulares e tablets. Por outro lado, as pessoas não têm acesso a banda larga. Terminamos uma pesquisa com mães de São Miguel Paulista que aceitaram que acompanhássemos o dia a dia delas. Elas se esforçam para seus filhos terem acesso à internet e o que conseguem em geral são “gatos” para eles fazerem suas pesquisas de escola e mantê-los ocupados dentro de casas, por causa da violência. Essa pesquisa foi feita entre 2011 e 2013 e publicada em 2014. Há professores que veem a pobreza como um empecilho para o aprendizado. Eles acreditam que as crianças em meios sociais desfavorecidos não são capazes de aprender, por serem filhos de famílias desestruturadas e não dominam os códigos escolares. Isso apareceu na mesma pesquisa. O principal fator que constrói o aprendizado é a crença do professor tem que as crianças podem aprender sim. Muitos estudos mostram ainda que um dos fatores que fazem com que a escola dê certo é a crença de que seus alunos podem dar certo – independente da origem social. Por outro lado, estudos nacionais e internacionais comprovam que reprovação levam para mais reprovação. O que faz com que as crianças aprendem é o investimento na recuperação das crianças. Se estamos descobrindo que as crianças estão aprendendo num ritmo mais devagar que as outras, precisamos fazer com que elas se desenvolvam mais rapidamente. Precisamos investir nelas e não esperar o fim do ano ou o fim do ciclo para reprová-las. Já ouvi muitos professores falarem: não vou gastar sal com carne podre. A gente precisa gastar sim muito sal com essa suposta carne podre. A diferença está em modificar a essência de que a educação é somente aos bons e ensinar para quem já sabe. Também temos uma pesquisa sobre a crença de professores no processo de aprendizagem. Entrevistamos quase dois mil de todo o Brasil e estamos observando que os professores possuem uma visão muito elitista do aprendizado. Ainda persisti a visão de que os alunos que supostamente aprendem são os “bons”. Aqueles com dificuldades não são capazes de aprender. São aqueles que não irão aprender. E o que se pode fazer? Reprovar e no ano seguinte supostamente aprender por si mesmo. É um senso muito elitista de aprendizado e espontâneio. A crença de professores do fundamental I e II são que eles dão exposição de conteúdos e acreditam que as crianças que aprendem em geral são com famílias estruturadas e com uma origem social que garanta isso. Daqui dois meses vamos apresentar os resultados gerais. As crianças da periferia e do meio rural têm muita capacidade de aprender. Temos que mudar o jeito de ver educação aos mais pobres deste país e ela também pode ter acesso a excelente qualidade. Não é natural que os mais ricos sempre se deem bem. Para isso, precisamos de investimentos para termos os melhores profissionais atuando e ao mesmo tempo sem a visão de negócio. É necessário trocar os óculos da sociedade em ver as possibilidades da educação pública.

São Paulo - Após pronunciamento do governador Alckmin, representantes dos alunos se reúnem na Escola Estadual Caetano de Campos em assembleia para discutir se vão desocupar as escolas (Rovena Rosa/Agência Brasil)
São Paulo – Após pronunciamento do governador Alckmin, representantes dos alunos se reúnem na Escola Estadual Caetano de Campos em assembleia para discutir se vão desocupar as escolas (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Portal Setor3- Mas a maioria dos professores são originados de camadas sociais mais baixas?

AAGB – Sim, eles são em geral de classes mais baixas economicamente. Outra pesquisa mostra que é a primeira geração com acesso ao ensino superior e em geral tem um gap entre a escolarização dos professores e de seus pais. Em geral, seus pais não concluíram o fundamental, enquanto seus filhos estavam concluindo o ensino superior. Em São Paulo, o acesso maior é nas universidades privadas. Muitos jovens entram nos cursos de licenciatura para fazer a universidade, mas não ingressam nos cursos mais tradicionais, como direito, engenharia, ou comunicação social. Eles entram nos cursos de licenciatura e sentem muito orgulho, mas quando terminam sentem muita decepção, porque os benefícios do diploma são bem reduzidos. Em geral, o diploma do ensino superior traz benefícios econômicos, sociais e simbólicos. Estamos numa época de inflação de diplomas. O piso salarial do professor sai por volta de R$ 2 mil. É um salário baixo para garantir uma boa qualidade de vida e piora nas capitais mais ricas do Sul e Sudeste, por exemplo. Todo diploma traz um reconhecimento simbólico em formato de prestígio e o do docente é bem pequeno. São aqueles sem talentos nem escolha, que não tiveram outras possibilidades a não ser essa. No aspecto social, também é complicado porque não possibilita você conhecer pessoas da área para te ajudarem depois profissionalmente. Consequentemente diminuir o número de pessoas interessadas na carreira docente e os professores já formados não querem ingressar. Não tenho dados sobre a rede privada. A carreira não é mais atraente. É um sério problema de recrutamento de professores, porque as pessoas não querem trabalhar. No caso do ensino médio, que libera a rede estadual de contratar a pessoa com a formação adequada, será um tiro na testa, porque você irá resolver um problema para criar outro.

Portal Setor3 – No fim de março agora, o MEC divulgou que 12,7% dos docentes não possuem graduação na área em que atuam. Como você avalia?

AAGB – Não adianta somente formação. Ela só vai contribuir a partir do momento de que ela irá recrutar para se tornar professor para quem deseja de fato se tonar professor e só vai passar por isso quando se tornar atraente. O diploma não traz os benefícios suficientes ao professor. Não gosto de citar exemplos internacionais, porque são outras realidades. Mas quando a Coréia do Sul quis fazer uma reforma educativa a primeira medida foi tornar a profissão de docente valorizada. Isso trouxe um salário justo e atraiu profissionais bem formados. Outra ação importante foi tratar todos de maneira igual, fazer com que todas as crianças aprendessem as mesmas coisas.

Portal Setor3- Como você avalia o movimento de ocupação das escolas feita e articulada pelos próprios jovens? Como você observa o questionamento deles para melhor as escolas e o sistema educativo?

AAGB – Eu vejo com muita esperança esse protagonismo dos jovens em relação à educação. Eu me vejo muito neles, não só no ativismo, mas em mostrar esperanças e anseios. Todos nós temos opções de fazer impactos, dessas esperanças de participação, de ter esses anseios de uma escola melhor e acolher nossa participação. Os jovens fazem suas escolhas, pensam em seu futuro e querem atuar para que seu futuro seja próximo do que desejam hoje. Não são jovens apáticos, como muitos imaginam que sejam. Esses são jovens que esperam que tenham suas chances de participação no dia a dia. Querem oportunidades e isso tem relação com uma aprendizagem mais significativa. Para quem já foi professor do ensino médio vê que é uma conciliação difícil. Existem duas coisas: a necessidade de aprender que o conhecimento foi sistematização ao longo da história da humanidade e está em constante mutação e há uma necessidade prática, o que alguns autores chamam de conhecimento poderoso. Os professores precisam ver essas mudanças. Isso se constrói muito na experiência de vida deste profissional e na sua experiência pessoal e prática. É algo que o professor sabe quando ele tem prazer nisso, uma relação com o saber. Infelizmente nem sempre se encontra isso, seja nos professores, seja nas escolas que atuam burocraticamente.


Imagens: Divulgação, Rovena Rosa e Agência Brasil

Data original da publicação: 15/04/2016