Convivência e Violência nas Escolas

Programa estudou como os jovens estão sendo impactados pela violência e outros riscos em escolas públicas de ensino médio do Ceará e Rio Grande do Sul.

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Profissionais da educação estiveram presentes no lançamento da iniciativa. (crédito da imagem: divulgação Centro Ruth Cardoso)

Já sofreram violência? Passaram por situações de discriminação? E suas próprias percepções como jovens? Essas foram algumas questões respondidas por jovens no Programa O Papel da Educação para Jovens Afetados pela Violência e Outros Riscos no Ceará e Rio Grande do Sul, um estudo elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) e financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento e apoio do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e AlfaSol. Esses dados foram lançados no Centro Ruth Cardoso na última terça-feira (31 de julho) em São Paulo.

O estudo entrevistou 2647 estudantes do ensino médio de escolas públicas do Ceará (CE) e do Rio Grande do Sul (RS) para analisar os riscos enfrentados pelos jovens e fatores de proteção existentes na escola, na comunidade e na família, implementando estratégias para contribuir com a redução das violências e melhoria do clima escolar que impactam diretamente a qualidade do ensino. Foi feito durante os anos 2016 e 2017 desenvolvido pelas pesquisadoras: Mirim Abramovay, socióloga e coordenadora da área de juventude e políticas públicas da Flacso; Ana Paula da Silva, jornalista e pesquisadora e pesquisadora sobre juventude e políticas públicas na Flacso Brasil; e Eleonora Figueiredo, pesquisadora da Flacso Brasil.

O estudo integra o Programa Prevenção à Violência nas Escolas, conduzida pela Flacso em parceria com o BID. Miriam comenta que em 2015 foi fechada a parceria com o Ministério da Educação para estudarem 140 escolas de sete capitais com 6709 participantes. No ano de 2016, houve a proposta para desenvolver esse levantamento nesses dois Estados. “Adaptamos a experiência que tínhamos feito e observamos como é importante o clima escolar. Aquelas boas escolas públicas que dão certo são as que possuem boas relações entre professor e aluno”.

Os principais componentes observados foram: articulação com as Secretarias de Educação, encontros de capacitação para gestores e professores, pesquisa qualitativa e survey (2016/2017), elaboração de plano de ação, diagnóstico participativo e educomunicação, encontro de integração entre as escolas, monitoramento, análise e avaliação, devolução de resultados.

Já as atividades feitas pelos estudantes, monitores com orientação dos professores mediadores foram: diagnóstico participativo, plano de ação e educomunicação. “Todos pesquisadores foram da sua própria realidade e receberam um caderno de entrevistas com diretores e outros pais e depois eles se sentaram e observaram: o que eles viam nas escolas em certo tempo na integração dentro desses espaços. Além disso também tinham uma pessoa em educomunicação para estimular os alunos a produziram jornais e fanzines”. Miriam se recordou que nesse período houve greve de professores e ocupação nas escolas.

Principais resultados

Metade dos jovens já sofreram situações de violência. A maioria respondeu xingamentos, em seguida brigas e cyberbullying. Quando a pergunta é se passaram por situação de discriminação, a taxa varia de 20% em RS e 25% no CE. Dos que responderam que vivenciaram essa situação, falaram sobre os motivos relacionados: 1º) roupa/aparência, 2º) lugar onde mora, 3º) classe social, entre outros.

Eles também responderam o que é ser jovem e apontaram características de sofrimento, disseram que não podem ter uma opinião nem estilo, muito menos serem diferentes. Também foram constatadas as percepções dos jovens sobre si mesmos: 1º lugar no ranking está estressados, 2º choram, 3º se isolam, 4º tristes, 5º solitários, 6º deprimidos e 7º pensam em morrer. Nessas conversas, as pesquisadoras ouviram muitos casos de automutilação. E outra constatação: os jovens se sentem inseguros e apontam a facilidade de entrar no mundo do crime.

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As pesquisadoras explicaram cada etapa da pesquisa e a importância do compartilhamento dos dados levantados. (crédito da imagem: Ana Paula Sousa)

Eleonora apresentou os fatores de riscos nas escolas. Nesse universo, surgiram: regras rígidas sobre o uniforme, dificuldade de conciliar estudo e trabalho – escola não permite atraso e abandono nos estudos, e a escola não se envolve com as situações de violência doméstica. Entre os fatores de proteção nas escolas, foram ressaltados: escola que envolve os estudantes em projetos e atividades; professores que sabem ensinar, conversam com os alunos e os respeitam, e a relação com alguns professores é de parceria e amizade; escola que tem confiança no aluno, e fala do aluno é reconhecida com o mesmo peso da fala do professor; e merenda boa.

Os principais fatores de riscos nas comunidades foram: assaltos, inclusive com armas brancas; roubos; tiros, mortes pelas gangues rivais; uso e venda de drogas ilícitas; delegacia desativada pelo enfrentamento do tráfico; postos de saúde que não funcionam; pai ausente (sem nenhuma relação com o pai); e eles não cofiam na polícia, por tratarem os jovens com desconfiança e os discriminam por morarem na periferia.

Entre os principais fatores de proteção nas comunidades, estão: social entre amigos e sempre na casa de alguém por ser mais seguro; apoio da família; apoio de poucas instituições sociais, culturais, de arte e lazer; e igreja (por oferecerem encontros de jovens, quadra para jogar futebol, atendimento social e a quem precisa).

A proposta de intervenção foi apresentada por Ana Paula que atentou que os pesquisadores se reuniram com as escolas e as Secretarias de Educação para compartilhar os dados coletados. No plano de ação, também envolveu: capacitação dos professores e estudantes com métodos de investigação; mapeamento dos principais problemas; planejamento buscando soluções para a redução de violências e melhoria do clima escolar; estudantes pesquisaram suas próprias realidades; e escuta ativa com escola-estudantes e estudantes-estudantes.

A pesquisadora Ana Paula mostrou como a logística das consultas e dos processos de planos de ação para construção de estratégias coletivas envolvendo professores, alunos e diretores. O monitoramento também foi realizado periodicamente. “Toda semana verificávamos como estava o plano de ação com os estudantes e entregavam materiais. Discutíamos sobre as entrevistas, sempre respeitando o fluxo escolar também”. Havia ainda encontros semanais e acompanhamento em grupos de WhatsApp. “Teve escola que fez um programa Roda Vida da Juventude para discutir os principais temas importantes para eles”.

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Os guias oferecem textos sobre violência e convivência escolar, gestão democrática, juventude e participação, recomendações, para um projeto de convivência escolar. Também oferece atividades práticas e sugestões para serem feitas em salas de aula. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Os principais resultados nas escolas foram: perceberam que eles podem fazer a mudança; abordagem de temas que sempre tiveram interesse e vontade de falar sobre; interatividade entre alunos; mudança de comportamento; melhoria do diálogo; mistura dos grupos; melhoria da autoestima; valorização do grafite; infraestrutura (novos bebedouros, organização e limpeza nas salas de aula e banheiros pintados); até se sentiram referências; participação dos alunos no Conselho de Classe (pesquisas de opinião sobre os professores, matéria, reclamações, entre outros), professores modificam suas aulas depois do resultados da pesquisa; desejo de criar conselho juvenil; educomunicação/criação de materiais diferenciados e criação de rádio; entre outros.

Ana Paula também compartilhou que o estudo possibilitou dado situacional de violências por escolas e o conjunto delas para Secretaria de Educação; devolução dos dados gerais e debate de forma integrada entre escolas (direção, coordenação e professores) e Secretarias de Educação (secretário, coordenação e técnicos) a partir dos resultados das pesquisas do Programa; devolução dos dados por escola e debate deles com a comunidade escolar (direção, professores, pais/responsáveis, funcionários) e parceiros (ONGs, postos de saúde, Conselho Tutelar, Associação de bairro, etc), a partir dos resultados das pesquisas; reconhecimento das questões sobre a escola e o entorno por parte dos estudantes; entre outros itens importantes.

Site da Flacso: http://flacso.org.br/