Construindo uma cultura da ética para as infâncias

Construindo uma cultura da ética para as infâncias

Inúmeros segmentos da sociedade civil vêm lançando luz sobre a área da infância e das crianças. Pais, mães e famílias; psicólogos, educadores e gestores; políticos, profissionais da área da saúde, economistas, empresários e investidores; advogados e arquitetos; gestores culturais, artistas, músicos, profissionais do terceiro setor, de mídia & marketing; produtores culturais nas áreas do cinema, teatro, fotografia, música, literatura infantil e outros espaços lúdicos; estudos, pesquisas e publicações sobre crianças; prêmios, editais, concursos. Enfim, uma lista imensa de atores e segmentos sociais que, a partir de estudos, publicidade, interesses específicos e toda a informação e conhecimento disponíveis, têm colocado o tema da infância e das crianças como prioridade, bandeira e até modismo.

Citemos alguns dos variados aspectos e objetos de interesse que pautam tais agendas: qualidade de vida, a importância de espaços livres e junto à natureza, consumismo e propaganda imprópria, hiperestimulação, pressão escolar precoce, agendas sobrecarregadas, hipnotismo e horas em frente a telinhas de todo tipo, terceirização do cuidado, falta de referências quanto à educação e falta de segurança em inúmeros contextos e situações; alimentação e doenças que afetam gerações contemporâneas; reflexão e busca de um equilíbrio entre o tempo livre e o tempo direcionado na vida das crianças.

Construindo uma cultura da ética para as infâncias
Imagem: banco de imagens

Seguem ainda a participação, escuta e observação de crianças em diversos fóruns, o discurso da importância do brincar, das artes e do movimento – nem sempre coincidindo com o que acontece nos cotidianos reais. A exposição de crianças em programas de TV, o trabalho infantil, a violência doméstica, escolar e urbana; as singularidades das crianças e grupos infantis – questões que dizem respeito à inclusão, imigração, doutrinação religiosa, crianças com diversas síndromes ou necessidades especiais etc. Uma relação de temas, realidades e polêmicas que não se esgotam por aqui.

Projetos e programas oficiais, nacionais ou regionais têm sido oferecidos nos mais diversos espaços, ambientes e organizações, assim como uma ampla rede de mobilização e campanhas defendendo direitos na área da infância ganham destaque nas mídias. O foco e os investimentos de esforços e recursos no aprimoramento e adequação de propostas educacionais para as crianças nos séculos XX e XXI, tanto em instituições escolares, espaços públicos e comunitários, quanto a partir de iniciativas não formais, são a tônica neste panorama das infâncias no Brasil e no mundo.

Da mesma forma que há propostas sérias, conscientes e comprometidas, os modismos se instauram e povoam redes sociais, discursos e, muitas vezes, viram ‘oportunidade de negócios’, interesse ou promoção de determinados grupos sociais.

Infelizmente constata-se que – em uma sociedade em que raízes e história são facilmente descartáveis, esquecidas, ‘líquidas’ – tempo, recursos humanos, ideias criativas e adequadas, que dizem respeito à vida das crianças, têm tido vida curta. E quem mais é afetado, afinal, senão as crianças, suas famílias e as comunidades em que vivem, crescem e se desenvolvem?

Neste panorama, uma das questões que mais preocupam é, justamente, o ‘uso’ feito deste segmento da população – as crianças – por parte de inúmeros atores sociais, sem levar em consideração que uma ética, no que diz respeito ao tratamento e às ações voltadas para suas vidas, é questão premente a ser refletida, cuidada, construída e colocada em prática onde quer que elas existam.

*Adriana Friedmann – Doutora em Antropologia (PUC-SP), Mestre em Educação (UNICAMP) e Pedagoga (FEUSP). Especialista, palestrante e consultora nas temáticas da infância e do brincar. Criadora e coordenadora do Mapa da Infância Brasileira www.mapadainfanciabrasileira.com.bre do NEPSID – www.nepsid.com.br (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento). Coordenadora e docente de cursos de Pós Graduação. Autora de vários livros na área, dentre eles, “Linguagens e culturas infantis”, “O desenvolvimento da criança através do brincar” e “A arte de brincar”.

**Este artigo foi publicado originalmente no portal Promenino Fundação Telefônica. Confira aqui na íntegra!


Texto: Adriana Friedmann
Imagens: Shuttertock/Oksana Shufrych; Pedro Ribeiro l Flickr/Creative Commons; Divulgação
Data original da publicação: 19/02/2016