Conhecimento territorial da periferia foi foco do Webinar Senac

Especialistas da área social debatem sobre práticas do profissional desse segmento.

Foto de dois professores sentados em poltrona em estúdio de gravação e no fundo tela de televisão escrito logo Senac São Paulo.
Roberto (à esquerda) e Dirce (à direita) esclarecem dúvidas de internautas sobre projetos sociais nos territórios.

Conhecer as potencialidades do local, escutar as pessoas que vivem e convivem nos espaços periféricos e como o profissional social pode contribuir com esse movimento foram os principais pontos apresentados no Webinar Senac: Projetos Sociais nos Territórios: Inovações e Impactos, ocorrido em 08 de novembro na plataforma Eventials.

A ideia do encontro foi abordar as ações sociais nos territórios, inovações, seus impactos e resultados. Partindo do princípio que as soluções estão no território, enquanto espaço de geração de conhecimento e aprendizagem, o trabalhador social encontra novas possibilidades para gerar impacto social a partir das iniciativas, experiências e conhecimentos da região.

Participaram: Roberto Galassi Amaral, coordena os cursos (especialização) presenciais em Gestão de Projetos Sociais no Território; Responsabilidade Social Empresarial e Sustentabilidade, doutor em Serviço Social (UNESP/Franca), mestre em Administração (PUC/SP) e graduado em Administração (USJT); e Dirce Koga, assistente social, doutora em Serviço Social pela PUC/SP, pós-doutorado em Serviço Social pela PUC/SP, professora e pesquisadora do Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social e coordenadora do Grupo de Pesquisa Cidades e Territórios, desenvolve pesquisas e consultorias nas seguintes temáticas: Território e Políticas Sociais, Diagnóstico Socioterritorial e Vigilância Socioassistencial, e autora do livro Medidas de cidades – entre territórios de vida e territórios vividos, São Paulo, Cortez, 2011 e São Paulo: sentidos territoriais e políticas sociais, em coautoria com Aldaíza Sposati, Editora Senac, 2013.

“A rotina institucional em que estamos inseridos como trabalhadores, gestores, técnicos, assessores, acaba nos distanciando da realidade. O desafio é como incluir nessa agenda: o contexto, o território, o lugar onde estamos atuando”, analisa a pesquisadora. Dirce ainda avalia que é fundamental esse profissional se deslocar para a prática do território. Não é tarefa simples, já que podem ter pressões dentro das instituições. Ela exemplificou com o Programa Mais Médicos: “Uma fala recorrente da população era que pela primeira vez um doutor visitava sua casa e tomava café. Acho que é isso um trabalhador ir até esse cotidiano. Essa é a chave do trabalho social e precisamos aprender a fazer isso. Aparentemente simples, mas exige alguns esforços”.

E como escapar de uma visão preconceituosa? Dirce ressalta dois fenômenos do cotidiano: colonização e escravidão. “Nós somos uma sociedade que carrega essa herança”, esclarece. Por mais que atue próximo do território e ser pertencente de camadas populares, esse profissional precisa evitar o modo de atuar verticalizado e até autoritário, que permite a escuta nem a participação das pessoas da localidade. Esses mecanismos estão ganhando força pelo histórico e momento em que vivemos hoje.

O professor Galassi questiona como conhecer e fortalecer o conhecimento e saberes produzidos nas periferias. Dirce enfatiza que a periferia está cada vez mais no centro nos debates. Nesse sentindo, ressalta a condição dos territórios ribeirinhos, que tem outra forma de vida, e as terras indígenas, onde se vê semanalmente denúncias de extermínio das populações indígenas, como locais que ocupam a centralidade das discussões dos profissionais de trabalho social, que precisam reconhecer a potencialidade desses movimentos e aprender com eles.

Outro movimento, sugerido pela assistente social, foi a descolonização: “Precisamos reconhecer outros saberes não produzidos nas academias nem nos trabalhos técnicos”. Eles não são os únicos saberes, mas são igualmente saberes. Para isso, ela reforça a necessidade de chamar atenção sobre isso nas cidades, com práticas e experiências de valores. “Estamos vendo hoje em dia os jovens de periferias chegaram até as universidades, não somente para ingressar ao mercado de trabalho, mas conseguem produzir conhecimento sobre esses locais e se tornam intelectuais das periferias”.

Os professores ainda pontuam a necessidade de os diagnósticos socioterritoriais serem mais participativos, deixando o caráter de documento técnico para integrar de fato aos planos para considerar as desigualdades das cidades por menores que sejam. Ela exemplifica um estudo de doutorado de uma assistente social sobre a zona sul de São Paulo, em que ela incluiu as benzedeiras do território. “Tem uma importância incluir essas pessoas para quem vive esse cotidiano junto com as igrejas, uma relação de proteção, de aconchego, de acolhimento”. Dessa forma, a ideia de planejamento socioterritorial não fica somente como uma obrigação burocrática: “Os saraus, os slams, as cooperativas, os coletivos, que se juntam em torno não somente de necessidades comuns, mas de um desejo comum, precisamos conhecer melhor essas ações”.

E como traduzir essas vivências e experiências em dados? Dirce sugere aprender a linguagem utilizada pelos vários grupos que coexistem nas periferias, buscando compreender essas interações. Esse é um grande desafio aos profissionais do trabalho social.

Galassi comenta sobre o Mapa da Desigualdade de 2019, lançada neste mês, com dados de 96 distritos de São Paulo, 53 indicadores nas várias áreas da administração pública e mostra as taxas de desigualtômetro, a diferença entre a melhor e a pior região para cada um dos itens avaliados.

Dirce avalia esse tipo de estudo e metodologia fundamentais e chama atenção para o fenômeno das desigualdades entre os territórios. A pesquisadora ainda observa que a desigualdade é muito concreta quando olhamos justamente para a forma como as cidades estão organizadas e se colocam nesse cenário. As metodologias usadas nesses estudos replicam esse modelo, sem mostrar o que a população local cria e quer. “A questão cultural e a forma como os mapas têm de medir a presença de equipamentos e espaços comunitários não conseguem capturar esses coletivos presentes: de poesia, de música, de raps e outros ligados à etnia. Essas manifestações dariam outro tipo de mapa e não são consideradas nos nossos levantamentos. Nesse sentindo, precisamos alargar nossas fronteiras”, defende.

Assista na íntegra o Webinar Senac – Projetos Sociais nos Territórios: Inovações e Impactos: https://bit.ly/2qP1NPN