Conflitos no Campo no Brasil por água, terra e trabalho

O ano de 2019 será conhecido como um ano de grandes tragédias.

Foto de indígena segurando bandeira em manifestação e atrás grupo de mulheres.
“Não tem ninguém parado, quem tá parado é reforma agrária”, afirma Maria Cristina Vidotte, professora da UFG. (crédito da imagem: Andressa Zumpino)

No dia da Luta pela Terra (17 de abril), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) lança um dos seus principais estudos: Conflitos no Campo Brasil 2019. O levantamento traçou conflitos pela água, terra e trabalho. Aumento de manifestações nas ruas e de mortes dos povos indígenas e destruição da Amazônia foram destaque no estudo.

A organização registrou 1.833 conflitos no campo no ano passado. 23% maior comparado ao ano anterior e um dos maiores registros pela CPT nos últimos cinco anos. O que revela uma média de cinco conflitos a cada dia. Dos 1.254 conflitos por terra registrados, 1.206 ocorrências de conflitos por terra envolveram alguma forma de violência, provocada por supostos proprietários e/ou grileiros. Esse foi o maior número de ocorrências de conflitos por terra já registrado pela CPT desde 1985.

Outro quadro preocupante é número de despejos: em 2019 foram 106 e no ano anterior foram 91. Na Região Sul extrapolou com 450%, Centro-Oeste com 114% e Nordeste 55%.

Amazônia foi marcada pela violência no campo e queimadas: 60% dos conflitos por terra, 71% das famílias envolvidas, 57% famílias despejadas e 84% dos assassinatos. “O governo quer cada vez mais que o capital assuma o controle de áreas indígenas e da preservação ambiental”, afirma o jornalista da CPT Antônio Canuto.

Nesse combate, os indígenas se tornam as grandes vítimas do ano de 2019. Cada três famílias em conflito por terra, uma é indígena: representa 35% do total. Foi a categoria com maior número de famílias envolvidas na luta pela terra: 67% sofreram alguma forma de invasão de sua terra, ou casa; de 32 assassinatos nove são de indígenas – o maior número dos últimos anos.

O ano passado também contou com o maior número de conflitos pela água: 789, que corresponde a 70% a mais que em 2018. Esse dado se deve ao desastre de Brumadinho (MG). Um desastre ocorrido na barragem do Córrego do Feijão, da mineradora Vale que rompeu em Brumadinho e causou 272 pessoas enterradas vivas sob avalanche de lama. Além das mortes, povos foram destruídos, pequenas lavouras e criação de animais arruinados e água contaminada. No fim do ano, uma grande quantidade de óleo invadiu o litoral de quase todos os Estados do Nordeste e afetou comunidades ribeirinhas e pescadores artesanais.

“Os conflitos aumentam e ações que seriam favoráveis para trabalhadores diminuem. Menos recursos, menos fiscais, por isso as ações são menores e libertações também. O número de acampamentos reduziu, mas o número de estratégias aumentou e o povo está indo se manifestar nas ruas”, avalia Antônio.

Paulo César Moreira, coordenador nacional da CPT, afirma que essa situação é decorrência de domínio da necropolítica, conhecida por eliminação dos direitos da vida e o governo amplia ações violentas. “A pandemia mostra que o mercado não pode ajudar. Durante o isolamento social por conta da pandemia do coronavírus, diversas comunidades estão sendo violentadas por fazendeiros e podem ser contaminadas de propósito, incluindo os povos indígenas”, alerta.

As mulheres também foram impactadas: 102 sofreram violência, desse total três assassinadas e 47 ameaçadas de morte. Três passaram por tentativa de assassinato, cinco foram presas e 15 sofreram intimidação.

Maria Cristina Vidotte, professora da Universidade Federal de Goiás, falou da situação da mulher. “O ataque contra as mulheres muitas vezes enfraquece a imagem dela e o que ela representa no coletivo. Consiste na humilhação e constrangimento. Em muitas situações, ela é exposta e ridicularizada e seu espaço político se esvazia e lesa sua cidadania. Quando ela é atacada, o coletivo também é”, ressalta.

Confira o estudo na íntegra aqui no site da Comissão Pastoral da Terra: https://bit.ly/34KSO1A