Como os projetos sociais se estruturam no atual cenário?

Mestra em Educação e Doutor em Serviço Social avaliam cenários anteriores à pandemia, impactos com a atual situação do COVID-19 e valorização da formação do profissional da área.

Imagem mostra grupo de peça de madeira em formato de pessoas. No centro da roda está uma peça vermelha conectada com todas as peças ao redor.
Os profissionais deste segmento precisam frequentemente desenvolver competências para ações mais inovadoras. (crédito da imagem: abert84/AdobeStock)

“A gestão de projetos sociais é marcada pela complexidade dos desafios atuais e ação de diferentes atores, que demanda com frequência o desenvolvimento de competências. Os profissionais desta área precisam estar atentos e comprometidos para ampliar seus conhecimentos. Com o contexto do COVID-19, esses desafios só aumentaram para todos os setores da sociedade”, afirmam os professores Roberto Galassi Amaral, coordenador dos cursos de especialização em Gestão de Projetos Sociais no Território, Responsabilidade Social Empresarial e Sustentabilidade, e Nuria Ester Campmany Requena Barbosa, coordenadora do curso de Projetos Sociais e Políticas Públicas do Senac São Paulo.

O Portal Setor3 conversou com os dois coordenadores para entender a atuação em rede, o comportamento das empresas no combate à pandemia do COVID-19 e aspectos da vivência na estruturação de projetos sociais com apoio do investimento social privado.

Confira a entrevista abaixo:

Portal Setor3 – Ao examinar, em particular, a relação entre a gestão de projetos sociais e tal contexto, pode-se admitir que não foi diferente para organizações de origem empresarial. Nesse aspecto, o que se pode refletir? Como as empresas se comportavam no campo da articulação em rede antes da pandemia?
Roberto Galassi Amaral e Nuria Ester Campmany Requena Barbosa – Antes de responder a essa questão, vale considerar que o formato de atuação de empresas e organizações da sociedade civil (OSCs), como institutos e fundações de origem empresarial, possuem ao menos três possibilidades distintas. As organizações podem atuar realizando a totalidade de seu investimento social privado, a partir da efetivação do próprio projeto. Ainda podem realizar a totalidade de seu investimento a partir de projetos de organizações da sociedade civil. Numa terceira possibilidade, as organizações investidoras podem combinar investimentos em projetos próprios e em projetos de OSCs.

O Censo GIFE mais recente indica a ampliação dessas possibilidades avaliando, por exemplo, foco de maior aproximação ao investimento total nas OSCs, ou maior para investimento em projetos próprios. Nesse contexto, o mesmo estudo indica também que 92% das organizações integram redes ou grupos que têm o objetivo de promover ações articuladas entre as próprias organizações ou entre elas e as políticas públicas.

Portal Setor3 – Como as empresas atuaram no contexto COVID-19?
R e N- As atividades orientadas para as comunidades de entorno ou para a sociedade em geral sempre estiveram presentes na agenda de boa parte das organizações de origem empresarial, em nosso país. Segundo dados do Censo GIFE 2018, a área de educação segue na posição principal (80%), trabalho, empreendedorismo e geração de renda, na segunda posição (66%) e cultura e artes na sequência (56%). Vale destacar que as organizações possuem projetos em várias áreas, por esta razão os percentuais não somam 100%.

Esse perfil de atuação é marcante e vem de longa data, mas obviamente o contexto da pandemia demandou ações emergenciais que indicaram outros focos. O estudo organizado pela Comunitas, intitulado Benchamarking do Investimento Social Corporativo (BISC), publicado em 20 de novembro de 2020, dedicou espaço relevante para investigar este campo. 92% dos respondentes informaram foco em atividades de alimentação. Em segundo lugar com 75% das indicações estão ações vinculadas a: a) apoio à instalação de hospitais, UTIs e/ou ampliação de número de leitos; b) atividades de suporte ao atendimento hospitalar; c) doações de produtos de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) para prestadores de serviços de saúde; d) apoio a fundos emergenciais e/ou campanhas de doações de produtos básicos; e e) divulgação de informações para a prevenção da COVID-19.

Os dados demonstram que a emergência sanitária e consequente atividade vinculada ao campo da saúde mobilizou fortemente o conjunto da sociedade, bem como as empresas e organizações da sociedade civil de origem empresarial. Neste sentido tais organizações efetivam importante papel neste contexto, quer pela possibilidade de viabilizar recursos, equipamentos e suprimentos em geral, quer pela mobilização de seus funcionários. Tal comportamento acaba por reforçar aspecto de cooperação e solidariedade tão importante em situação de crises como a que vivemos.

O mesmo estudo procurou identificar a população impactada pelas ações vinculadas aos dados acima apresentados. Com 92% das respostas, as comunidades de periferias urbanas figuram como principal foco. Também foram indicadas: profissionais da área de saúde e pequenos empreendedores (75%) e comunidades do entorno dos empreendimentos econômicos da empresa (67%). Tais respostas fortalecem o entendimento acerca do papel que as organizações representam nos territórios onde se estabelecem e mantém as operações. Este vínculo é considerado estratégico do ponto de vista do investimento social privado.

Portal Setor3 – E o momento pós pandemia? O que se pode esperar da atuação destas organizações?
R e N – Considerando que o planejamento das ações ocorreu em outro contexto, passado a crise pode-se esperar um retorno ao que foram programados, mas é igualmente legítimo considerar que a pandemia se mostra complexa e desafiadora para o conjunto da sociedade e para as empresas, alimentando expectativas de reflexos nestes programas.

O BISC identificou vários aspectos que se colocam como reflexos da pandemia e que comporão as ações de investimento social privado no futuro. Dentre as listadas, pode-se destacar: a) adoção ou ampliação de programas na área da saúde, claramente fortalecendo as relações entre as empresas e a política pública de saúde; b) adoção ou ampliação de programas de geração de renda, marcando a contribuição que os negócios podem trazer para projetos de empreendedorismo, ações cooperadas, capacitação, apoio e assessoria, entre outros; c) realinhamento nas estratégias de gestão dos projetos sociais, podendo significar maior participação das populações no desenho e avaliação destas ações; d) maior apoio às políticas públicas, reconhecendo a efetividade possível de ser alcançada articulando Estado, sociedade civil e empresas; e e) maior apoio às organizações sem fins lucrativos, fortalecendo a convicção do papel relevante que as OSCs cumprem na relação de projetos sociais no território.

Outro dado relevante é que 100% das organizações respondentes declaram apoio às iniciativas realizadas por organizações sem fins lucrativos, organizações governamentais, bem como com as políticas públicas. Vale refletir que o trabalho em rede traz maior complexidade na gestão, considerando suas fases desde o diagnóstico, execução, avaliação e correção do planejamento. Entretanto, a qualidade do resultado para os envolvidos se mostra superior. Ao serem indagados sobre os benefícios, todas as empresas os reconhecem e destacam 50% ganhos de escala e 42% na melhoria da qualidade dos serviços prestados.

Adicionalmente, vale refletir sobre o alcance das ações. A capilaridade possível alcançada somente através de redes de atuação entre diferentes atores, se torna elemento estratégico para efetivação dos resultados esperados. Diante de um cenário de grande complexidade e de demandas de igual proporção, o estabelecimento de estratégias de execução cooperada e compartilhada frequentemente tem se mostrado mais efetivas.

Portal Setor3- Quais foram os desafios encontrados na execução e gestão de projetos sociais? O que se pode refletir?

R e N – O cenário da emergência que se apresentou diante dos diferentes profissionais também colocou luz sobre a relevância da capacitação e profissionalização das ações. Este é um ponto que interessa destacadamente ao ensino superior, em particular para nós que atuamos na especialização.

Primeiramente sobre o campo do planejamento, quando as atividades relacionadas ao diagnóstico, ponto central do planejamento, ocorrem de forma aleatória, desconexa da realidade do território, com baixa utilização de instrumentos e ferramentas de análise próprios da gestão no campo social, corre-se elevado risco de desperdício de recursos econômicos, conhecimento humano e tempo, dificultando o alcance dos resultados. Vale dizer que, neste cenário, os objetivos podem ser delineados considerando equívocos em sua formulação. Não se pode esquecer que os recursos econômicos sobre os quais falamos, são na verdade recursos privados e/ou públicos, frutos de captação através de convênios, parcerias e doações.

Outro aspecto relevante é o campo da avaliação em que ausência de competências técnicas necessárias podem levar gestores, investidores e profissionais de campo, a análises equivocadas ou aceitação dos resultados imediatos como se fossem definitivos. Mesmo reconhecendo que neste campo existam consideráveis níveis de conhecimento pelos profissionais em geral, é válido destacar que a complexidade da questão social se amplia a cada momento. Isto requer aprimoramento constante de todos os envolvidos.

Um indicador da importância do desenvolvimento técnico das equipes é trazido pelos dados da plataforma Mosaico GIIFE. Dentre as organizações respondentes, 48% financia a capacitação das equipes em conferência/seminários nacionais e internacionais e 42% delas aportam recursos financeiros para que o colaborador possa se desenvolver em temas definidos pela organização e 27% aportam recursos financeiros que o colaborador se desenvolva em temas definidos por ele próprio.

Por último, não menos importante, cabe sublinhar o evento pandemia COVID-19 que, dentre tantas outras questões, certamente trouxe o expressivo crescimento de ensino mediado pela tecnologia. Com isto reconhece-se o momento oportuno para fortalecer competências, estimular o desenvolvimento profissional, também para a área de gestão de projetos sociais, sejam elas pelas OSCs, desenvolvidas pelas organizações de origem empresarial, bem como pelos profissionais das políticas públicas.

*Edição de Susana Sarmiento, do Portal Setor3, com colaboração de Nuria Ester Campmany Requena Barbosa e Roberto Galassi Amaral.

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