Como é viver em São Paulo?

A população paulistana dá nota 6 sobre grau de satisfação com a qualidade de vida na cidade.

Como é viver em São Paulo?
A população paulistana dá nota 6 sobre grau de satisfação com a qualidade de vida na cidade.

Como a população avalia a qualidade de vida e serviços básicos oferecidos pelo governo local? Como ela enxerga a gestão local? A pesquisa foi realizada pela Nossa São Paulo lançada na véspera no Dia de Aniversário de São Paulo (24 de janeiro) no auditório do Sesc 24 de Maio no centro de São Paulo.

A pesquisa consultou 800 pessoas acima de 16 anos entre 08 e 27 de dezembro de 2017. A maioria das entrevistas foi com mulher: 54%, sendo 46% homens. Em religião: 44% católico, 22% evangélico/protestante, 12% outras e 22% ateu. Um pouco mais que a metade branca (52%), 45% parda/preta e 3% outras. A maioria vive na zona leste (35%), seguido da sul com 32%, 19% norte e 10% oeste. 38% possuem ensino médio e 33% fundamental, já 29% superior.

O estudo abordou questões relacionados com os temas: bem-estar e qualidade de vida, educação, saúde pública e privada, segurança, confiança nas instituições e avaliação administrativa e aprendizados.

A população deu nota 6 para o grau de satisfação com a qualidade de vida na cidade. Aumentou o número de pessoas que disseram terem saído da cidade: 61% e outros 39% afirmaram que não sairiam.

Na saúde pública e privada, houve aumento nos dois setores. No público: 84% estão usando em 2017, 14% em 2015. O público que mais utiliza é da faixa etária de 16 e 34 anos. Os serviços mais requisitados: distribuição gratuita de medicamentos, atendimento ambulatorial, consultas com especialistas (otorrino, ginecologista e ortopedista). Por outro lado, houve também aumento dos entrevistados com plano de saúde privado: em 2017, 33% disseram que tinham plano, em 2015 esse número era 26%; em 2015, 66% disseram que não tinham plano de saúde, em 2015 esse número era 72%.

Na parte de educação, foi constatado que cerca de quatro em cada 10 entrevistados, que têm filhos ou moram com crianças que precisam de creche municipal, declaram que esperaram por vaga nos últimos anos: Norte 52%, Sul 41%, Leste 31%, Oeste 43% e Centro 43%. A maioria deles precisou esperar mais de seis meses por vaga nas creches públicas: 31% mais de um ano, 26% até 6 meses, 25% até 1 ano, 13% até 3 meses, 6% até um mês e 1% não sabe responder.

No tema de segurança, roubo/furto é a situação de violência mais vivenciada nos últimos 12 meses pelos cidadãos ou outros moradores do domicílio (25%). Outras respostas avaliadas foram: 14% para situações de preconceito ou preconceito, 8% agressão física (tapa, soco, pontapé e outros), e 5% assédio sexual. A região central da cidade tem o maior número de vítimas de roubo/ furto e de preconceito e discriminação.

As principais conclusões do estudo foram: assalto/roubo no topo do ranking das possíveis situações que causam mais medo no paulistano, a violência em geral aparece em seguida e educação de qualidade para jovens de baixa renda é a medida mais importante para reduzir esse cenário violento.

Também apontaram que houve diminuição na confiança em 10 das 13 instituições avaliadas, mas em todas cresce a parcela dos que não se posicionam. Metrô, SPTrans e CET são as únicas que registram aumento da desconfiança. Administração municipal é melhor avaliada pelos moradores do centro e da região oeste. Já a percepção das prefeituras regionais é homogênea em todas as regiões, enquanto a Câmara de Vereadores tem pior avaliação nas regiões norte, sul e oeste.

Marcos Camargo Campagnone, secretário adjunto de Urbanismo e Licenciamento de São Paulo, falou em nome do prefeito João Dória. Um dos dados citados foi que a Prefeitura investiu 64 milhões na construção de 20 centros que atendem população de rua. 17 mil notebooks comprados para as aulas de programação nas unidades dos Centros Unificados de Educação (CEUs), nove mil professores contratados e programas para a merenda escolar por meio de compra de alimentos orgânicos. “Foram ainda contratados 10 mil agrônomos para orientarem famílias no cultivo de orgânicos”. Ainda disse que será lançada a ETC Parelheiros para incentivar que os jovens fiquem lá na região e aumente a valorização da reserva local e de oportunidades de novos negócios.

Após a apresentação dos dados e fala do representante do gestor público, o debate seguiu com os participantes: Fernando Abrucio, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e comentarista da CBN; Cida Bento, coordenadora executiva do Centro de Estudos das relações do Trabalho e Desigualdades (CEERT) e integrante do Fórum Permanente pela Igualdade Racial; e Jorge Abrahão, coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

Cida, da Seert, ressaltou primeiro em como tornar a cidade cada vez mais agradável e como a diversidade entra na programação. “As pessoas responderem que lembram pouco em quem elas votaram, como se o voto não pudesse irradiar. Quanto trabalho para ressignificar o voto e levar informação de mulheres e negros. Esse voto tem importância nas decisões. Não se pode comprar. Surgem uma série de questões: Como a Nossa São Paulo pode retomar as relações com as organizações da sociedade civil? E como a esquerda enfrenta os desafios? Nesse período houve um esgarçamento com os movimentos sociais”.

Em sua avaliação, todos os serviços precisam funcionar bem para todos, principalmente para as classes mais baixas. Ela ainda se lembrou da Proposta de Emenda À Constituição, que congela os gastos do governo federal pelos próximos 20 anos, conhecida como a PEC do teto. “As pessoas precisam opinar sobre as empresas. Ter um olhar sobre essas instituições e serem monitoradas”, sugeriu a coordenadora da CEERT.

Fernando, comentarista da rádio CBN, já iniciou sua fala afirmando que viver na cidade é um martírio. Observa que boa parte da população de 2013 para agora se sente mais descrente com os políticos e instituições, com a crise econômica, principalmente os mais pobres – que são os mais impactados.

“A cidade está pior. Temos dúvidas em todo o processo. A reflexão está muito estrutural nas políticas públicas”, disse o professor que ainda chamou atenção para a necessidade das pessoas entenderem quem resolve cada problema, a diferença entre questões da gestão municipal e estadual. “Se isso não for feito, sempre vamos brigar com a parte errada”. Ele ainda falou do fenômeno de amnesie eleitoral, quando os cidadãos não se recordam em quem votaram para deputado federal. “Ninguém sabe para que serve o legislativo. Isso está relacionado diretamente com o sistema eleitoral brasileiro”.

O professor ainda citou uma publicação sobre as cidades latino-americanas em que contextualiza os movimentos políticos dessas regiões, incluindo o voto distrital em Santiago (Chile). “São Paulo não se reconhece nos distritos. As subprefeituras não trabalham como ouvidos do prefeito. Esse mau funcionamento está todo relacionado com as políticas públicas”.

Ele avalia ser difícil melhorar a opinião da população sem impactar na governança da cidade. “Comparando com as experiências internacionais, São Paulo aparece 20 anos atrasada. Primeiro não conseguiu vencer a batalha da sociedade civil, por não ter instituições adequadas”. E concluiu: “São Paulo é uma cidade em movimento. Ela está parada como está sendo governada”.

O coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo citou primeiro a queda da nota geral de 6 para 6,8. Ele ressaltou que os índices não melhoraram, na saúde, ainda a população leva o dobro de tempo, na educação, ainda são poucas vagas para creche. “Isso não é para desanimar, mas bom motivo para trabalharmos e melhorar esses índices”.

Jorge disse que são escolhas os direcionamentos do investimento do orçamento. Para ele, há uma relação direta da criação de oportunidades para reduzir os dados de violência a jovens de periferia. A sociedade atual sente muito medo.

Também há a necessidade de recuperação da democracia: 65% não se lembram em quem votaram. Para isso ele sugere: “Radicalizar a participação da sociedade, estimular diálogos e os conselhos de participação para dar mais sentido. Não há falta de problema nas audiências. Nelas já foram levantadas 10 mil propostas. Na gestão de João Dória, conseguiu levantar 23 mil propostas. E como aumentar isso? A grande mudança está nos mecanismos de escuta que nesse momento não está tendo”.

Acesse aqui a publicação na íntegra

 

 

 

 

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