Como é a reutilização de águas residuais no México, Peru e região de Múrcia, da Espanha?

Especialistas de recursos hídricos esclarecem tipos de tratamento, legislação e ações na prática desses países na tarde do terceiro dia do 8º Fórum Mundial da Água em Brasília.

Como é a reutilização de águas residuais no México, Peru e região de Múrcia, da Espanha?
Crédito Susana Sarmiento

Reuso da água, diferentes tecnologias para essa prática, a importância da gestão dessas ações e até formas de incentivo para estimular essa reutilização foram os principais pontos abordados pelo painel Reutilização de águas residuais de uma perspectiva integrada de gestão de recursos na tarde do terceiro dia do 8º Fórum Mundial de Água no Centro de Convenções Ulisses Guimarães em Brasília (DF). Foi o primeiro painel que o Setor3 acompanhou em que havia a mesma quantidade de homens e mulheres especialistas e gestores das áreas.

A primeira a falar foi Natalia Gullon, da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (AECID), que focou sua apresentação no reuso da água. Em seu país (Espanha), tal prática está regulamentada desde 2007 para uso rural, recreativo e humano. “Hoje estamos apoiando ações de reutilização de água como uma iniciativa de economia circular, para irrigação e aquífero”, disse e ainda ressaltou que os documentos técnicos estabelecem quatro classes de águas exigidas pelas políticas europeias. O governo espanhol apostou no risco e na atuação multibarreiras. Ela ainda comentou que eles estão apostando fortemente na implementação de novas ferramentas e em 2022 irá atuar conjuntamente com os planos hidrológicos lidando com a situações de escassez.

Pedro Simón, diretor técnico da Entidade de Saneamento e Depuração da Região de Murcia, comentou que a região convive com o problema da falta de água e é conhecido pela produção de frutas. É um país de um milhão de habitantes, com volume anual de água tratada de 105 Hm³. Ele mostrou os tipos de tratamento na reutilização de água residual: procuração, filtração e adição ultravioleta e sistemas de membranas (conhecidas por serem mais eficazes). O primeiro desafio é ter a instalação do sistema escolhido e outro passo é desenvolver isso mais um pouco.

O diretor se recordou de uma situação que ocorreu na Alemanha em 2012 de um problema com pepino, inúmeras pessoas foram internadas e ocorreu uma falsa notícia de que seriam pepinos da Espanha. E não eram. “O que essa situação nos ensinou? Uma responsabilidade grande do sistema e que a organização precisa ser mais perfeita possível. Não podem ter falhas, mas natural ter problemas. Por isso temos muitos estudos e investindo na tecnologia em cada gota de água para saber até aonde vai”. Também falou que haverá em breve outra legislação europeia mais exigente nesse processo.

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Crédito da imagem: Susana Sarmiento

Juan Carlos Castro Vargas, diretor de gestão de qualidade dos recursos hídricos – autoridade nacional da água do Peru, comentou que o país avança cada vez mais na questão do reuso e eles possuem a lei de recursos hídricos, que introduz nas bacias, no tratamento de águas para garantir o corpo de rios. “Temos duas normas de padrões de qualidade ambiental: fluentes e outra setorial com padrão específico”, afirmou.

Ele foi bem claro que, para reusar água no Peru, é necessário ter licença dada pelo Sistema Nacional de Água. Atualmente as cidades que fazem essa prática são: Lima, Arequipa (projeto de mineração e maior reutilizado) e uma na região norte. Desses 89% o setor que mais usa é o de mineração, em seguida vem a agricultura e depois serviços de saneamento básico. Os setores mais interessados na área doméstica são em parques e jardins para irrigação. Ainda não há uma norma específica para dizer os parâmetros, então, eles se baseiam nos padrões fundamentais implementados e aprovados. Com ajuda da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), eles usam o manual de boas práticas e a ideia central do país é reusar todas as águas. Dessa forma, irão obter mais de 53% de águas residenciais sendo tratadas.

Floretino Ayala Vázquez, diretor de projetos operacionais e saneamento, serviços de água e drenagem em Monterrey, no México, focou sua fala sobre sistema de drenagem nessa região. Ele explicou que estão sendo tratados sob três eixos: serviços de águas e drenagem, construção de uma fonte e revitalização de plantas. Foram criados em 60 macrosetores. 60% das águas tiradas das áreas urbanas são tratadas.

Segundo o mexicano, o primeiro tanque construído foi em 1908 para reuso industrial. Em 1963 um grupo de empresários construíram seu próprio reuso. Já em 2017 tiveram capacidade de 18.950 litros por segundos em 250 PTAAR de reuso. Eles estão trabalhando a questão do reuso como cultura. Monterrey também passa por secas, precipitações e obriga os especialistas e gestores a se atentarem a ações eficientes. “Nosso objetivo não é fazer negócio, mas contribuir para o meio ambiente”.  Ainda esclareceu que os preços dependem do consumo que tem e o mais alto é de 10 pesos que corresponde a 60 centavos de dólar. Atualmente eles contam com uma rede de 300 km.

Em seu último slide, Florentino compartilhou as dez principais empresas consumidoras deles. Em geral, são empresas de geração de energia e metal. A água de reuso é usada para irrigar campos de golfe e parques, por exemplo. O plano é investir 2,900,0 pesos para investir em reuso de água tratada.

Debate

Como é a reutilização de águas residuais no México, Peru e região de Múrcia, da Espanha?
Crédito da imagem: Susana Sarmiento

O debate dos temas expostos contou com mediação de Martin Mendez, engenheiro sanitário, e com os seguintes especialistas para responder e até citar experiências: doutora Pilar Tello Espinoza, presidente da Associação Interamericana de Engenharia Sanitária e Ambiental (AIDIS); Liliana Pimental, da Gerência de Apoio ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente; Concepción Marcuello, do Ministério de Agricultura e Pesca, Alimentação e Ambiente (MAPAMA) da Espanha; Pedro Simón, do Serviço de tratamento de água e esgoto na região de Múrcia na Espanha (ESAMUR).

Para responder a questão sobre oferta tecnológica sobre reuso a baixo custo, Pilar respondeu que somente 30% da água gerada é utilizada e disso 70% usam tecnologia bem antiga e isso exige água. Isso é um grande problema. Esse tipo de planta possui capacidade para gás e as menores recorrem ao hipoclorito. Já o tratamento em ultravioleta, a manutenção é bem cara. “Aqui na América não temos a cultura de investir na manutenção. Essas plantas estão paradas e não operam, como um elefante branco e precisa de investimento para ser operada em 24 horas”, sinalizou. Se quer baixar o custo, ela sugere pensar em algo importante: o investimento tem que ser elevado para uma tecnologia nova.

O mediador questionou Pedro sobre os desafios mais importante para as regiões europeias. O representante da ESAMUR afirmou que eles têm defendido o tratamento pelo sistema ultravioleta para não impactar sistemas agrícolas.

O engenheiro Martin perguntou sobre o investimento em planos de reutilização ao invés de tanto recurso para o tratamento da água em si ao diretor mexicano da região de Monterrey. Ele esclareceu que 40% das águas são extraídas de subterrâneos. “Procuramos águas até embaixo de pedras. Nós recentemente saímos com estratégia de importância de água residual tratada para o consumo humano”.

Já Juan Carlos falou sobre os padrões usados de reutilização de água tratada. Ele explicou que a lei de recursos hídricos não chega a estabelecer parâmetros em relação ao uso. Eles optaram por ter duas normas para não afetar os corpos de água. 40% dos políticos consideram reutilização do sistema. Ainda comentou que precisa ter o setor da mineração com a finalidade das águas superficiais para não chegar nas comunidades. Acredita importante estabelecer parâmetros para certos tipos de atividades.

Martin pediu para Natalia citar alguns exemplos. Em relação à planejamento, ela disse que definiram planos de bacias e gestão na Europa para definir as demandas de águas. Segundo a espanhola, a AECID contribui na identificação de quem são e quais são os usuários, estimam medidas e definem o quanto de água correspondem cada demanda. Um dos temas mais polêmicos é a concorrência pela água disponível. Com aumento populacional e a agricultura cada vez mais intensiva, há mais pressões. “Nós definimos nossas demandas e fazemos uma prospecção se irão continuar ou aumentar, se checam os recursos por cada bacia. Contribuíamos ainda no ajuste de uso aos recursos disponíveis e atribuímos para cada usuário a reutilização para uso agrário, industrial e urbano”. O maior potencial está na região da costa espanhola. O país vive hoje a construção de um pacto nacional de água. “Queremos ir mais além do que essa economia circular. Cada operadora tem sua concessão de água e dentro dessa parte faz a gestão de sua planta para reutilizar. Nós usamos a reutilização como recurso benéfico ao meio ambiente e evitar tocar nos aquíferos”.

Por último, a brasileira Liliana Pimental, do MMA, explicou que não tem legislação para reuso de água sobre a normatização de uso para atividades agrícolas e industriais, mas observa a necessidade de fomentar a congregação de todas as experiências. Comentou que a Secretaria de Recursos Hídricos desenvolveu uma série de acordos com outros ministérios.

A legislação perpassa pelo Ministério da Saúde e da Integração e Agência Nacional das Águas. Também vê a necessidade de estudar os projetos em andamento e disse que foram feitas várias oficinas para compilar todo conhecimento e proceder com novos instrumentos reguladores. “Existem algumas legislações que surgiram na crise hídrica desde 2014, houve um aumento de projetos de lei e tudo isso precisa ser compilado no ambiente nacional de recursos hídricos”, concluiu.

Acesse o site do evento: http://www.worldwaterforum8.org/

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