Cia. Ballet de Cegos e Escambo de Talentos são destaques no evento O Poder Da Colaboração

17523182_1007768602657281_1649437388659617894_nNo último dia 5 de abril, a quinta edição do evento O Poder Da Colaboração reuniu sete palestrantes para falar de seus projetos e engajamento social. A jornalista Lívia Deodato, participante da segunda mesa do dia, é criadora e administradora do grupo Escambo de Talentos no Facebook, que tem como objetivo principal ressaltar pontos positivos das pessoas e criar conexões entre indivíduos.

A comunidade, existente desde janeiro deste ano, conta hoje com mais de 12 mil membros. “Sou formada em comunicação e passei por grandes redações, principalmente na área da cultura”, dizia seu currículo. “Durante a minha trajetória, tive a oportunidade de conhecer e entrevistar muitas pessoas interessantes. Mas além de ouvir boas histórias, sempre gostei de coloca-las em contato”.

Lívia começou contanto sobre sua inquietação com pessoas que trabalham com algo que não gostam somente pela remuneração. “Se não houvesse dinheiro, vocês estariam atuando na área que estão hoje?”, perguntou logo de início para a plateia. “Já encontrei muita gente insatisfeita com a própria profissão, mas que, como eu disse, se mantém nela por questões financeiras. É muito ruim, as habilidades e talentos são deixados de lado”.

A jornalista, então, refletindo sobre o assunto, e pensando em como relatar tudo o que ouvia quando entrevistava alguém, começou a montar uma estratégia na qual as pessoas pudessem mostrar seus principais dons e que estes fossem úteis para alguém.

“Se formos unidos ninguém cai. Eu penso assim”, revelou. “O Escambo de Talentos surgiu como resultado de todas as reflexões que eu fazia diariamente sobre a vida. Será que é justo o valor que pagamos para vestir, estudar ou passear? E o jogador de futebol, está certo ele ganhar incontáveis vezes mais que um gari, por exemplo? ”. Contou também que sempre procura pensar no serviço que podemos prestar ao outro, principalmente em um mundo que caminha para um consumo cada vez mais sustentável.

“Todos nós temos algo a oferecer, só precisamos descobrir o que”. Citou, também, ao longo da apresentação, casos de escambos bem-sucedidos dentro da rede criada por ela. “Um bom exercício é sempre começar pensando no que te dá prazer em fazer. Quando criança eu adorava dar aula, e tornei isto parte do meu trabalho”. Revelou que acredita que na maioria das vezes as pessoas não são incentivadas a fazer o que realmente querem e tem seus talentos postos em dúvida.

Finalizou sua fala mostrando alguns exemplos de escambos que já acontecerem por intermédio do grupo. Aulas de violão em troca de serviços de manicure e acupuntura por aulas de castanholas foram casos citados por Lívia. “Estamos repensando nossa relação com as pessoas, serviços e objetos”.

O grupo pode ser encontrado no Facebook pelo link: https://goo.gl/bN8EhB

Ao fin17760999_1007768869323921_8998853571594907848_ol do evento, a bailarina Fernanda Bianchini oi convidada para contar sobre sua companhia de ballet para cegos. Disse que sua história no terceiro setor começou muito nova, aos 15 anos de idade. “Meu pai e mãe sempre me orientaram a fazer trabalho voluntário. Eu ajudava em festas, creches em asilos”.

Foi saindo de uma aula de dança no bairro do Ipiranga, em São Paulo, e participando de uma ação coletiva dentro de um orfanato, que Fernanda começou a lecionar. “Era um local cuidado por freiras. Quando eu cheguei uma delas elogiou minha postura e disse que as crianças que lá moravam andavam muito curvadas. Perguntou, então, se eu não queria dar aulas de ballet para elas. Eu me considerava insegura e incapaz para trabalhar com algo tão especial”. Incentivada pelos pais, ela decidiu aceitar a proposta. “Eles me disseram para nunca recusar um desafio, pois são deles que partem os maiores ensinamentos da nossa vida”.

Este ano o projeto criado por Fernanda completa 22 anos e de acordo com ela, tem sido uma experiência enriquecedora. “Eu aprendi a fechar os olhos da visão, que são extremamente preconceituosos, e abrir os do coração para ver além das aparências”.

Contou também que quando começou a dar aulas, foi pedir orientação para suas professoras da época. Estas, ao invés de apoia-la, disseram que ela era uma aluna mediana. “Ouvi muitas vezes que seria impossível ensinar ballet para cegos. Hoje essas pessoas me aplaudem e admiram, mas não foram as que mais me incentivaram”. Para ela, os comentários negativos são uma forma de incentivo.

Fernanda relevou que na primeira aula dada por ela, passou o dia ensinando como uma bailarina deveria se portar. “Elas não tinham uniforme, muito menos sabiam como vesti-lo. Meu pai comprou todos os acessórios e eu mostrei, passo a passo, como usar uma roupa de ballet”. As dúvidas das alunas eram muitas. “Eu precisava entender o mundo daquelas meninas, entrar no universo delas para poder passar algo a elas”.

O método de ballet Fernanda Bianchini foi patenteado e usado como tese de mestrado pela mesma. “Eu nunca quis que meu trabalho fosse bonito aos olhos das pessoas. Sempre deixei as dificuldades bem claras”. Contou sobre o descaso com que as pessoas tratam os deficientes hoje em dia. “As pessoas acreditam que por ser um serviço voltado a quem tem necessidades especiais, não precisa ter excelência”. Ela disse, também, que a força de vontade de suas alunas fez com que ela quisesse se formar fisioterapeuta. “Eu buscava na ciência a resposta para as coisas que davam errado em sala de aula”.

Para Fernanda, não existe diferença entre os movimentos executados por uma bailarina cega e uma que enxerga normalmente. “As meninas chegaram em mim com medo do desconhecido e através da dança foram se descobrindo e sentindo que o corpo delas poderia fazer muito além do que elas imaginavam”. Depois de terem aprendido os movimentos, as jovens dançavam coreografias simples e hoje, executam passos de grandes musicais.

Outro problema afetou Fernanda: todos os festivais que ela inscrevia a companhia negavam a participação das bailarinas. “Depois de dez respostas negativas, eu resolvi inscreve-las como Ballet Fernanda Bianchini, sem citar que eram cegas – aí elas foram aceitas”. O resultado da superação de mais este desafio foi a apresentação do grupo em um dos festivais de inverno mais importantes de São Paulo. “Sempre busquei os aplausos pela qualidade do ballet que as meninas dançavam, e não pelo fato delas não enxergarem”.

A companhia já representou o Brasil em festivais internacionais na Alemanha, e Polônia, dançou com a orquestra de João Carlos Martins e com o cantor Stevie Wonder, e além disso, teve seu trabalho relatado em um documentário premiado. “Esse filme foi além das nossas expectativas. O mundo inteiro está conhecendo que tudo na vida é possível”.

Atualmente, 330 alunos fazem parte do projeto.
“Uma bailarina deve olhar para as estrelas mesmo que não as enxergue, porque um dia elas iriam brilhar como elas”, finalizou Fernanda. “O que eu desejo é poder transformar muito mais sonhos em realidade”.

Para saber mais sobre a iniciativa, acesse: http://www.associacaofernandabianchini.org/


Data de publicação: 18/04/2017
Crédito de texto: Gabriela Lira Bertolo