CDHEP entrevista poeta e escritora para falar sobre o impacto da sua formação em justiça restaurativa

PERSONAGEM_RESTAURATIVO_CARMEN_FAUSTINOCarmen Faustino é mulher negra poeta e escritora, arte-educadora, articuladora cultural, pesquisadora e ativista em São Paulo. Possui formação em Letras, especialização em história da África e cultura afro brasileira e atua há 10 anos nas áreas da educação, social e cultural. É uma das idealizadoras e articuladora do Núcleo Mulheres Negras, de vivências coletiva e discussões sobre as questões raciais e de gênero, integra o coletivo Mjiba de produção literária negra feminina, como produtora, oficineira e organizadora de publicações literárias e coordena o projeto Baobá – Fortificando as raízes, de formações sobre África e Africanidades. Possui participação, poemas e textos publicados em antologias poéticas como o Pretextos de Mulheres Negras e Feminina – Periferia um pedaço da África, nas revistas O Menelik – 2º Ato e Fala Guerreira, e na publicação Sujeitos, frutos e percursos – Projeto jovens facilitadores de práticas restaurativas, pelo Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo (CDHEP).

Portal Setor3- Qual foi o impacto da formação em justiça restaurativa para você?

Carmen Faustino – Um impacto que considero importante, foi a possibilidade que desenvolvi para uma percepção e elaboração mais organizada das minhas subjetividades, que trouxeram maior empatia, respeito e compreensão pelas minhas histórias e consequentemente, pelas histórias de outras pessoas.

Eu, mulher negra e periférica, como tantas outras que viveram e ainda vivem um processo histórico de abandono e silenciamento de suas especificidades e seu valor, pude aprofundar minhas reflexões sobre as violências vividas pelas discriminações raciais e de gênero, tão banalizadas socialmente, mas que causam dores profundas para mulheres negras.

No processo de imersão, resgatei memórias de violências simbólicas vivenciadas na infância e adolescência, muitas até então esquecidas e/ou bloqueadas pelo meu subconsciente, e também pude olhar para os meus traumas atuais, que hoje perpassam nos aspectos da minha vida profissional, familiar, social e afetiva.

Olhar esse universo de complexidades que compõe a mim e cada pessoa que experienciou da justiça restaurativa, fortaleceu meu senso de humanização, valores e entendimento de ações, que até então eu desenvolvia empiricamente, mas não nomeava. Hoje, pratico constantemente o exercício para uma comunicação mais assertiva, maior respeito aos meus limites emocionais e sensibilidade com o tempo do outro.

Portal Setor3- O que mudou no seu trabalho?

CF- Acessar essa dor acumulada e externalizar por meio da fala todas as angústias, foi a proposta inicial do Núcleo comunitário de Mulheres Negras, formado por mulheres negras que participaram das formações em Justiça Restaurativa. E a partir de março de 2015, passamos a nos reunir mensalmente para partilhar nossas histórias de amor e dor em círculos de paz, na perspectiva de oferecer fala, escuta, acolhida e identidade as participantes. Esses encontros, que acontecem desde então, me transformaram em diversos aspectos subjetivos e também nas práticas cotidianas, mas principalmente no exercício de fala e escuta, e na maneira que desejo lidar com toda essa bagagem que existe em mim e está longe de se findar, uma vez que estamos em uma sociedade distante de extinguir as práticas racistas e machistas. Olhar para minhas histórias com cuidado, respeito e me ver refletida em diversas outras histórias das minhas iguais, me proporcionam fortalecimento, identidade e cura, para permanecer um pouco mais saudável em uma sociedade que insiste em tirar nossa humanidade.

Portal Setor3 – A partir da sua experiência profissional e pessoal, quais as possibilidades que visualiza para a Justiça Restaurativa em uma perspectiva futura?

CF- Para uma mulher negra falar de suas emoções e subjetividades, é necessário olhar e refletir sobre racismo e o machismo vivido diariamente, questões ligadas diretamente a fortes cargas emocionais, que foi suprimida historicamente e hoje nos condiciona ao silêncio.

As metodologias dos fundamentos e práticas da Justiça restaurativa, aplicados em grupos comunitários, como os encontros mensais do Núcleo Mulheres Negras são potentes instrumentos de transformação e cura, nos processos individuais e coletivos, pois possibilitam uma profunda imersão em suas subjetividades, dores e angústias, para melhor compreensão, empoderamento, cuidado e autocuidado, trabalhando na perspectiva que, apesar das estatísticas que apontam as mulheres negras como maiores vitimas de violências, existem muitos traumas que essas mulheres carregam e que não estão relacionados diretamente à uma experiência violenta, ou a um sujeito “agressor” e sim, a todo um sistema social que oprime e discrimina constantemente essa importante parcela da nossa população.

Perceber nossas especificidades e conseguir olhar para nossas dores com empatia e respeito é um passo importante para a busca de vivências e relações mais humanas e saudáveis, uma prática de autocuidado que pode nos levar a cura.

Serviço:

Acesse o site da CDHEP: http://cdhep.org.br/2015/
Estão abertas as inscrições para o curso de Práticas de Justiça Restaurativa: https://goo.gl/XwtI3U


Data de publicação: 09/03/2017
Crédito de texto: Da equipe do CDHEP