Campanha Chega de Fiu Fiu completa um ano e pretende apoiar mais ações contra o desrespeito às mulheres

chega de fiu fiu83% não curtem ouvir cantada, 81% já deixou de fazer alguma coisa ou ir a algum lugar com medo do assédio, 73% não respondem aos assédios nas ruas e 90% já trocaram de roupa pensando no lugar que iriam passar. Essas foram algumas respostas de 7762 mulheres brasileiras para a pesquisa da Campanha Chega de Fiu Fiu, que completou um ano na semana passada.

A campanha foi criada para combater o assédio sexual em locais públicos. A ideia também é lutar contra outros tipos de violência contra a mulher. Para compreender melhor esse assunto, a Olga, uma plataforma que discute feminilidade nos dias de hoje, mostra quem é essa nova mulher, o que ela quer e cria conexões criativas, publicou uma pesquisa elaborada pela jornalista Karin Hueck, como uma das ações da campanha, em agosto de 2013.

Para entender como funciona a plataforma e como está esse debate, o Setor3 conversou com a coordenadora de comunicação da Olga, Luíse Bello. A publicitária chamou atenção para o projeto de lei (PL) do senador Romário contra o assédio sexual em espaços públicos, o PL nº 64/2015. “Ele anunciou há um mês e citou nossa campanha. Bem interessante como desdobramento. Esse projeto poderia evoluir em alguns pontos, mas, para nós, foi bacana ver a dimensão que tomou esse debate e a divulgação nas redes sociais”, ressaltou. Acompanhe a entrevista abaixo:

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Juliana de Faria e Luíse Bello, da esquerda para direita

Portal Setor3- Como foi o início da plataforma?

Luíse Bello- A campanha começou com Juliana de Faria, que decidiu fazer alguma ação após ter passado por inúmeras situações de assédio e mostrar como esse assunto era tratado com descaso e naturalidade. Quando na verdade, ele incomoda muito as mulheres.

A campanha iniciou no site da Olga. Esse tema sempre foi uma questão invisível, mas que incomoda muito o público feminino. Foi um processo, depois da campanha ser lançada. A Juliana quis desenvolver e lançar a pesquisa para entender como elas achavam sobre o assédio, quando passaram por isso e tudo relacionado a isso. Pensou em algo simples, mas quase oito mil mulheres responderam as questões. Trouxe ainda muita mídia pela repercussão que teve nas redes sociais. Virou pauta em vários jornais e programas e, nesse processo, foi ficando bem conhecido entre as mulheres.

Para mudar essa realidade, veio a ideia de fazer um mapa da Campanha Chega de Fiu Fiu. É justamente um lugar para as mulheres vítimas do assédio e as pessoas que testemunharam tal atitude registrarem seus relatos sobre o que aconteceu e mostrar onde ocorreram essas situações. Notamos que isso ocorre com pessoas de todas as idades, etnias e pontos da cidade. A ideia não é limitar a cidade, mostrando os pontos que elas não podem circular. Ao contrário, nossa intenção é mostrar quais lugares são problemáticos e o porquê, e o que pode ser feito.

Portal Setor3- O que vocês observaram as reações das mulheres?

LB- Sempre há muita identificação. Parece que elas se sentem aliviadas por mais pessoas estarem lutando por seus direitos. É como se elas vissem que não estão sozinhas. Bem positivo. No início, Juliana recebeu ameaças de algumas pessoas e ofensas pelas redes sociais de pessoas desmerecendo a campanha. Isso não foi o suficiente para desestimular a gente e assim recebe uma quantidade de número de pessoas interessadas em multiplicar.

Portal Setor3- Além da plataforma e a pesquisa, quais foram as outras ações da campanha?

LB- Outra ação interessante que tivemos foi 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, do Centro de Liderança Global de Mulheres, promovido em São Paulo pela Defensoria do Estado de São Paulo. Nessa programação, fomos convidados para escrever o manual sobre assédio sexual. Contribuímos na produção e na distribuição em todo Estado. Lá levantamos o que é o assédio, o que fazer quando passo por essa situação, quais são seus direitos e quem procurar.

Portal Setor3- Na plataforma, há duas formas da pessoa registrar seu relato. Qual delas é mais usada?

LB- A maioria das denúncias é feita pelas próprias mulheres que sofreram o assédio. Quem sofre é sempre mais motivado a fazer o relato. A proposta do mapa é mostrar o problema real e ajudar esse público, é um registro estatístico, mas ele também já é um local onde muitas pessoas irão desabafar e contar histórias.

Portal Setor3- No total, quantos depoimentos foram registrados até agora?

LB- São quase três mil registrados na plataforma. Em geral, a maioria dos relatos são de mulheres de São Paulo e Rio de Janeiro, mas porque nós estamos nesses dois Estados e, consequentemente, há mais divulgação. Mas o mapa é do Brasil inteiro.

Portal Setor3- Sobre o documentário, viabilizado por uma plataforma de crowdfunding, em qual etapa está? Qual a previsão de lançamento? E qual será o enfoque?

LB- Não tenho ainda informação sobre a data de lançamento. Está sendo produzido e estamos na parte de coleta de depoimentos. A ideia dele é trazer pessoas para falar sobre esse assunto e incluir mulheres que lutam contra o assédio, especialistas e profissionais relacionados com o tema. Também vamos colocar óculos com filmadoras em mulheres em diferentes partes do Brasil para registrar os assédios e elas irão confrontá-los. Já temos algumas imagens. A ideia é mostrar como e quando ele ocorre, filmando tudo e depois ver a discussão nas ruas.

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Pesquisa foi lançada em agosto de 2013

Portal Setor3- Vocês haviam pedido na campanha de crowdfunding 20 mil reais e conseguiram quase 65 mil. Como conseguiram esse resultado? Quais estratégias adotaram?

LB- Divulgamos na internet e Facebook, só que as mulheres se identificaram com a campanha pelo tema e a seriedade, a relevância do tema. É uma causa que nós, mulheres, precisamos muito falar. As pessoas gostaram da ideia e divulgaram em suas redes de contatos, atingindo outros espaços. Não temos nenhum padrinho, nem patrocinador grande. Então, ter ido para a plataforma de crowdfunding foi uma forma de realizar um sonho. Todos estão ajudando. O Chega de Fiu Fiu é uma situação em que a maioria das mulheres já vivenciaram.

Portal Setor3 – Qual é a avaliação de vocês após um ano da plataforma da Campanha Chega de Fiu Fiu?

LB- Hoje em dia o debate sobre o assédio no Brasil está muito mais sério. Já tem várias iniciativas falando sobe isso e diferentes projetos e plataformas. Não é só um movimento no Brasil. Há organizações no mundo inteiro e coletivos que lutam contra o assédio em lugares públicos. Fico super feliz e honrada de fazer parte desse movimento, que ajudou a dar luz para um problema que não tinha muita atenção. Sempre foi incômodo e está relacionado profundamente com o machismo, a violência contra a mulher e noção de que a mulher não é dona de seu próprio corpo. Também é bom ouvir histórias de mulheres que passaram a se valorizar mais e a enxergar que tem direito de viver uma vida sem assédio. Passar a lutar contra esse tipo de comportamento é simplesmente anacrônico, porque não deveria existir. Sem raciocinar, as pessoas acabam achando normal. Mas não é.

Portal Setor3- O que ainda precisa avançar?

LB- A ideia é continuar divulgando a campanha para mostrar que assédio é uma violência, um abuso sério e que tem que acabar, porque atrapalha a vida das mulheres. O documentário vem como uma ferramenta para que possa contribuir com a causa. A campanha só vai parar quando estiver cessado o assédio, ainda falta muito para que isso ocorra no Brasil. Temos bastante trabalho pela frente.

Serviço:

Campanha Chega de Fiu Fiu: http://chegadefiufiu.com.br/
Blog A Olga: http://thinkolga.com/
Clique aqui para conhecer a pesquisa.