Café com autor fala sobre a elite brasileira e desigualdades sociais

O pesquisador Jessé Souza conversou e mostrou os principais pontos abordados em seu último livro: A Elite do Atraso – Da escravidão à Lava Jato, de 201

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“O golpe já estava anunciado no mensalão”, afirmou Jessé Souza durante o café com autor. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Sexta-feira à noite, em 15 de junho, fria, entrada do auditório do Senac Aclimação lotou para escutar o escritor do livro A Elite do Atraso – Da escravidão à Lava Jato, Jessé Souza, sobre a formação da sociedade brasileira, as classes sociais, as origens das desigualdades do país e a importância de ler com crítica sobre o futuro do Brasil. Após o café com autor, o sociólogo autografou os livros.

Jessé Souza é formado em direito com mestrado em sociologia na Universidade de Brasília e doutorado em sociologia na Universidade de Heidelberg na Alemanha. Também fez pós-doutorado em psicanálise e filosofia na New School for Social Research em Nova York (EUA) e foi livre-docente na Universidade de Flensburg, na Alemanha. Possui 27 livros e mais de 100 artigos. Foi presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada entre 2015 e 2016 e atualmente é professor titular de sociologia da UFABC. Publicou os livros: A tolice da inteligência brasileira em 2015 e A radiografia do golpe em 2016.

A primeira questão apontada pelo pesquisador foi o racismo, que separa ainda as pessoas pela cor de pele. “Separa do branco do não gente, se aplica a todas as dimensões. As classes superiores são gente, algumas das classes populares não são gentes”. Ele também difere a moral do moralismo, esclarecendo que a moral é a capacidade de efetuar escolhas de forma racional. E a escolha está relacionada, em muitos casos, com dinheiro e poder. “As pessoas passam a obedecer a ética de Platão e essas ideias se tornam instituições”. E ele ainda ressalta que essas ideias não precisam ser ditas, porque são implícitas dentro das instituições. “O que você ensina a seus filhos? Disciplina, contenção do comportamento, todas as famílias fazem isso. Como ter o mesmo padrão? Vira prática institucional, quando não temos consciência”.

O professor também comentou sobre a interpretação do Brasil vira-lata, em que pressupõe que as culturas europeia e americana são superiores. Além dessa questão, o pesquisador também critica a ideia de bem público, corrompendo com a tributária e decorrente da soberania popular. Em relação à corrupção, o professor também fala que a ideia de corrupção no Brasil surgiu desde da época da colonização portuguesa. “Há uma ideia montada de uma transmissão de cultura que veio de Portugal. Não é picada de mosquito. Isso é uma bobagem. Vem de práticas institucionais. Nós replicamos discursos de nossos pais, da escola e do trabalho”.

Outra questão debatida pelo pesquisador foi a escravidão. “Nossos excluídos até hoje replicam o escravo”. Ele ainda afirmou que os teóricos nunca assumem o escravismo como um dos principais problemas brasileiros. Ele ainda disse: “Precisamos ter coragem e sermos contundentes se você sabe quem você é e só vai aprender quando tomar consciência. A gente gosta de mentiras que legitimam a vida que levamos”.

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“Você deixou que a Rede Globo contasse a história. Não criou espaços alternativos para outras narrativas”, opinou sobre a situação da saída da ex-presidente Dilma Rousseff. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Para ele, o mais importante é a forma do Estado. Em sua opinião, o Estado é caracterizado por ser responsável pela corrupção. Já o mercado é conhecido como um perfil empreendedor e de honestidade. “A elite de São Paulo quer continuar a República Velha”, criticou e se recordou de momentos histórico em que a elite paulistana era forte no país.

Jesse também chamou atenção para o processo de colonização do pensamento, já que a imprensa, responsável por distribuir ideias, é feita e formada por classes de elite e dominantes.

O voto popular criminalizado também foi outro ponto debatido. Ainda há um discurso em que povo não sabe votar, não tem instrução nem interesse. “Se a população é manipulável, esses líderes também são manipuláveis. Tudo isso ocorre para invisibilizar o que é real para meia dúzia que estão presentes na área do agronegócio, nessa linha dinâmica econômica, e a interpretação de cada um de nós, tornando nosso comportamento confuso”.

Citou ainda a operação Lava Jato, da Polícia Federal para investigar casos de suspeita de corrupção do governo federal na gestão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Em sua análise, esse fato foi blindado pelo poder Judiciário e grande imprensa. “Houve muito discurso de ódio contra o Partido dos Trabalhadores (PT). Esse episódio desempregou cerca de dois milhões de pessoas e impactou diretamente a economia do país”.

“E o que o PT estava fazendo de tão incômodo? Estava dando emprego aos mais pobres. Ninguém nunca tinha olhado para os mais pobres da exclusão para classe pobre. Temos ainda de três a oito milhões de negros nas universidades e dinamizou o mercado”, concluiu. O professor ainda citou situações em que mostra que as classes sociais possuem suas contradições.

A advogada Suzy de Dall’Alba foi para café com autor, porque já tinha ouvido falar num congresso de direitos humanos e seu cunhado que leciona economia na Universidade de Londrina estava lendo um dos livros do escritor. “Como tenho cadastro aqui no Senac, recebi o convite do café, eu li o livro dele e fiquei bastante incomodada, porque ele ataca a classe média, que sou eu, mas acho que é um choque de lucidez e tem que fazer a gente pensar também. Falar por esses caminhos, não pela imprensa”, refletiu.

A Elite do Atraso – Da Escravidão à Lava Jato
Jessé Souza
Leya Editora
R$ 27,90 (valor sugerido)