Bianca Santana conta em livro como é ser negra

14505“Só depois de reencontrar esse pai amoroso consegui chorar a minha dor que é a de tantas pessoas. Uma dor de injustiça. Uma dor de saudade”.

O trecho acima é parte do livro Quando me Descobri Negra, da jornalista, professora universitária e militante feminista, Bianca Santana. Com uma série de pequenas histórias, ela relata um processo de transformação e tomada de consciência pelo qual passou ao longo da vida e que resultou na aceitação de algo determinante em sua existência: a própria cor. Um dos capítulos mais intensos, destinado ao seu pai, que era bicheiro, é considerado pela autora o texto mais difícil.

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Bianca Santana, jornalista, professora universitária, feminista e escritora

Durante a infância, teve medo que os amigos descobrissem a profissão de seu progenitor. Via-o como alguém errado e, por ser ligada a ele, sentia-se errada também. Além disso, equilibrava dentro de sua mente infantil as críticas que a mãe e a avó faziam dele. “Eu demorei muito para contextualizar o meu pai como um sujeito também político, que existe como fruto do sistema em que a gente vive”. Tal aceitação foi importante em seu próprio descobrimento, mas não foi o único fator determinante.

O nascimento

O livro, publicado pela Sesi-SP e ilustrado por Mateu Velasco, surgiu após Bianca compartilhar algumas de suas reflexões no portal do HuffPost Brasil. Foi quando Renata Nakano, editora, sugeriu que ela reunisse seus textos em uma publicação. A maior parte do resultado, no entanto, é conteúdo original. Desde o lançamento, em novembro de 2015, a repercussão surpreendeu a autora: “fiquei bem feliz porque acho que tem algo no espírito da nossa época, uma necessidade de que se escreva e se fale dessas coisas”. Ela conta que o interesse superou seu círculo de contatos, fazendo-a perceber que as questões que a tocavam não eram só suas.

“Do que vivi”, “Do que ouvi” e “Do que Pari”: esses são os três blocos nos quais os relatos são divididos. Além das narrativas pessoais, no primeiro, e das oriundas de pessoas conhecidas, no segundo, a jornalista deixou seu lado literário aflorar na terceira com mais liberdade. “Quis colocar outras vozes para explicitar que não diz respeito a uma só pessoa”, afirma.

Contudo, talvez a característica mais marcante da obra seja o quanto é capaz de falar nas poucas palavras que formam os pequenos textos. “O que é curto carrega socos, entende?”, reflete. E complementa: “Ter mais palavras pode amenizar algumas coisas, torná-las mais sutis, diluídas”. Ela conta que, ainda hoje, não consegue ler dois capítulos seguidos. Outro motivo para fazer um livro enxuto é não assustar os leitores. Apesar do tamanho e da linguagem simples, a intensidade se faz presente a cada página.

Identidade em construção

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Capa de “Quando me Descobri Negra”

Bianca deparou-se muito cedo com as disparidades socioeconômicas da realidade paulistana. Durante a infância, morou em uma Cohab na zona norte com a mãe e estudou em uma escola particular, paga pelo pai. Por conta isso, no prédio era considerada rica e, entre os colegas de sala, era vista como pobre. “Uma das primeiras coisas que eu percebi na vida é que existiam pessoas pobres e pessoas mais pobres ainda”. Esse foi seu primeiro contato com a desigualdade.

Porém, foi quando começou a cursar a faculdade na Avenida Paulista, região central da cidade, e a desenvolver sua formação acadêmica em espaços mais restritos, como a Universidade de São Paulo (USP), que notou que não era apenas sua origem que a diferenciava. “Você sabe que tem algo diferente, mas não sabe muito bem como localizar. Não é que você não perceba nada, mas você não nomeia aquela percepção, não relaciona com outras coisas da vida”, diz.

Ela não era igual às pessoas que a rodeavam simplesmente porque é negra. O que poderia passar como característica despercebida em uma sociedade igualitária, gritou muitas vezes para ela que ela era diferente, como relata em seu livro. Em uma dessas ocasiões constrangedoras, foi confundida com uma funcionária da universidade pública na qual fora palestrar.

Racismo

“O racismo se manifesta de maneira diferente para uma pessoa que tem dinheiro e escolaridade. Quando você sobrepõe a desigualdade racial com a de classe e a de gênero, percebe que a vida é mais difícil para quem soma mais desigualdades”, afirma a professora.

Sobre a repercussão de sua obra, Bianca comenta as diferentes reações: “Eu recebi muitas mensagens de pessoas brancas, várias delas falando ‘obrigada, eu não sabia’ ou eu então ‘eu achei que eu entendesse o que era, mas eu não conseguia visualizar direito’. E das pessoas negras é uma coisa de identificação mesmo, de sentir que viveu situações parecidas”.

Nada como alguém com a mesma cor de pele para compreender as histórias pelas quais a escritora passou. Esse reconhecimento de situações tem uma só origem: a discriminação racial. “Acontece de várias formas. Se você está mal vestida alguém te trata como servente, se está bem vestida alguém se espanta”, comenta ela.

Para lidar com as dificuldades cotidianas, procura se expressar por meio da escrita, além de se informar sobre o assunto e fazer terapia. A autora explica que aprendeu a lidar com o racismo de maneira mais distante, pois o que houve em tom ofensivo diz mais respeito a quem está pronunciando seus preconceitos do que sobre ela mesma. “É cada vez menos sofrido, muitas vezes sinto vontade de rir”, diz.

Descoberta

E qual é o sentimento de descobrir-se negra? “Alívio”, responde Bianca. Apesar de muitas pessoas reagirem com raiva, ela não julga tal agressividade, uma vez que são indivíduos que se sentem extremante violentados. Contudo, a sensação que a preenche é de conforto. “Parece que um pouco daquela sensação de que eu não pertenço a nenhum lugar, de que sou esquisita e inadequada ganha algum contorno”.

Um dos elementos mais importantes nesse processo é o cabelo. Segundo ela, trata-se de uma tentativa de ajuste e de se aproximar do que é “mais bonito”. “As pessoas violentam o próprio corpo, usam produtos que fazem mal pra saúde e são muito caros”. O black power da jornalista demorou a aparecer porque ela mesma o rejeitava.

Para reforçar a identificação com outras mulheres negras, Bianca lançou um site para o livro para o qual é possível enviar relatos sobre “descobrir-se negra”. Os depoimentos já publicados e os que permanecem na caixa de e-mails de Bianca revelam que ela não está sozinha.


Serviço:

Título: Quando me Descobri Negra
Autora: Bianca Santana
Editora: Sesi-SP
Número de páginas: 96
Valor sugerido: R$ 32,00


Texto: Natália Freitas

Imagens: SOF – Sempreviva Organização Feminista e Ilustração de Mateu Velasco

Data original da publicação: 23/03/2016