Banco móvel de perucas pretende atender pacientes com câncer em várias cidades do Brasil

14574074_1759707117614256_3915575143774027776_nImagina ter um carro móvel com diferentes tipos de cabelos, cores, cortes e texturas diversas para atender pacientes com câncer que querem e precisam desse acessório. Esse é o novo projeto da ONG Cabelegria, que já três anos confecciona perucas a esse público, e lançou no início deste mês um carro para receber doações de cabelos e oferecer cortes a quem quiser doar seu cabelo e entregar as perucas. Tudo gratuito.

Já percorreu a região de Moema, na Casa Ronald Mc Donald’s, depois na Cidade Universitária na FEA-USP, hoje será a vez de visitar o Hospital Itaci e amanhã na Casa Hope.

O carro é resultado da parceria da ONG com a Sociedade Assistencial Beneficente Lacan (SABLacan). O investimento dessa empresa ajudou na criação deste banco: um veículo da categoria VUC que percorrerá diferentes pontos do Estados de São Paulo, entregando perucas para pacientes de todas as cidades. Este automóvel é todo customizado e equipado como se fosse um salão de beleza, produzido pela Truckvan, uma empresa especializada na fabricação de unidades móveis, tem ainda uma prateleira com diversos modelos de perucas, bancada com espelho e acesso a pessoas com mobilidade reduzida.

Mariana Robrahn, designer e uma das fundadoras da organização, contou que a organização começou com uma ideia apenas de doação de cabelos dela e de sua amiga. Criaram um grupo no Facebook e a ideia deu tão certo que ganharam muitos seguidores rapidamente. Mais de 1800 pessoas no grupo em um dia. A partir daí, decidiram criar uma campanha com nome e logotipo. “O que fez acontecer mesmo foi a cobrança das pessoas. Começou a chegar no nível que estava cobrando tão rápido. Naquela época não se falava tanto em doação, as pessoas queriam ajudar e não sabiam como e foi colocada a doação de cabelos. Começamos a correr atrás de gente para realizar tudo isso. Iniciamos as doações em outubro e em dezembro saiu nossa primeira peruca, já em março, menos de seis meses, estávamos no programa do Luciano Huck. Estouramos e foram criadas outras organizações de doação de cabelos e de perucas. Ainda há uma dificuldade bem grande na confecção dessas peças”, explicou.

No início de agosto, a ONG junto com o Hospital Santa Marcelina inaugurou o primeiro banco de perucas do país. Desde o final de 2013, a Cabelegria conseguiu arrecadar 80 mil doações de todas as partes do mundo para um projeto pontual chamado Corrente Mundial do Bem, contando com apoio de 150 crianças, 100 mulheres e mais de 60 doações feiras para hospitais e casas de apoio. Atualmente a ONG possui capacidade para produzir mais de 10 mil perucas com toda a quantidade de cabelos arrecadados, com uma produção mensal entre 15 e 20. Inicialmente as perucas foram destinadas aos pacientes do hospital, porém é um projeto-piloto para inspirar a novas parcerias em outras instituições.

Localizado na zona leste de São Paulo, o Hospital Santa Marcelina é filantrópico e possui 87% de seu atendimento dedicado ao SUS, com mais de 700 leitos para atendimentos a particulares, convênios e SUS – 92 são voltados para terapia intensiva. Há 20 anos atua na Atenção Primária à Saúde (APS) em parceria com a Secretaria Municipal de São Paulo, gerenciando mais de 120 serviços de atenção básica como Estratégia Saúde da Família (ESF), Atendimento Médico Ambulatorial (AMA), Centro Psicossocial (CAPS), Centro Especializado de Odontologia (CEO), entre outros.

A idealizadora da organização compartilhou que há projeto de levar esse banco móvel para o Rio de Janeiro e Barretos, interior de São Paulo. “A nossa ideia é que ele possa rodar o país e mostrar aos hospitais o que é um banco de perucas. Para o próprio hospital e mais pacientes, verem a necessidade de abrirem o espaço físico de banco de perucas físico nesses locais”.

O banco móvel surgiu há quatro meses e a coordenação da ONG entrou em contato com a empresa que também contribuiu com sugestões e aceitaram viabilizar. “Primeiro inauguramos o físico, depois de um mês lançamos o móvel”, afirmou. Até agora a unidade móvel já recebeu mais de 200 visitas e para corte de cabelo foram em torno de 50 pessoas.

Recentemente a ONG Cabelegria consegue remunerar todas as costureiras. Em sua equipe, há três costureiras. No total são cinco funcionários em geral e mais de 10 profissionais voluntários, que prestam serviço jurídico, assessoria de imprensa, entre outros.

Mariana comentou que é uma das principais dificuldades é encontrar mão de obra especializada na confecção dessas perucas. “A maioria das ONGs ficam refém de troca e às vezes não é muito benéfica nem justa. Conheço costureiros que fazem a cada uma que faz para organização faz duas para vender, mas para mim é uma troca bem injusta. Se ela vende uma peruca por R$ 2ou 3 mil, paga mensalmente uma costureira apenas para confeccionar perucas. Mais ou menos uma peruca custa em média esse valor, depende do tipo de cabelo, cor, textura, corte, entre outros itens. Uma de cabelo ruivo, encaracolado e bem longa é em torno de R$ 10 mil”, compartilhou a designer que também disse que outra grande dificuldade é o próprio paciente que, em geral, não costuma acreditar na gratuidade das perucas: “Como vou confiar? Ninguém dá nada de graça hoje. É que eles costumam falar… Nós só pedimos para mandarem a documentação solicitada para evitar fraudes, cópia do RG e laudo médico para comprovar”.

Para ajudar a financiar o trabalho da Cabelegria, foram feitas duas campanhas de financiamento coletivo, um no ano passado que conseguiu coleta de R$ 50 mil e este ano R$ 40 mil. A FABLacam investiu na compra do banco móvel de perucas e na produção de 500 perucas para iniciar esse projeto. “A intenção é que este banco seja autossustentável. Esperamos que as próprias pessoas que doam cabelo doem dinheiro para ajudar a confeccionar mais perucas e entregar para mais pacientes”.
Outra observação de Mariana é que há ainda um preconceito das pessoas financiarem esse tipo de ação: confecção de perucas. “Isso é bem importante para que esses cabelos virem perucas, porque a doação em si do cabelo não se transforma em perucas. Há todo um processo de higienização dessa peruca, o cabelo doado não pode entrar em contato direto com o paciente. Fundamental mostrar isso para que as pessoas entendem como o banco de perucas é autossustentável”, ressaltou.

Quando questionada sobre a sensação em ajudar os pacientes em uma situação delicada, Mariana disse que é gratificante. Infelizmente ela não consegue proporcionar para que a pessoa que doou tanto dinheiro quanto seu próprio cabelo como a outra pessoa recebe a peruca. “É engraçado que quando começamos a fazer o bem, entendemos que ganhamos muito mais do que doamos”, afirmou. A designer ainda revelou que estão em parceria com o Hospital Santa Marcelina para quantificar a melhora desses pacientes após o recebimento de perucas. “Muitas crianças e adolescentes deixam de ir para escola pela vergonha de estar careca. Tem mulheres que se adaptam muito bem e usam muitos acessórios, como lenços, faixas e outros apetrechos. Por isso tenho uma preocupação bem grande em atender muitos estilos e luto para que as pessoas que estão mal por estarem carecas, não se sintam mal e possam contar com nossa equipe. O que não falta é cabelo, há muito. Só estamos com problemas de confeccioná-las”, atentou.


Serviço:

Para conhecer o trabalho e os locais que o carro móvel da Cabelegria irão passar, acesse: http://www.cabelegria.org/

Para fazer doações, clique aqui: https://goo.gl/rbOlzn


Data original da publicação: 20/10/2016