Balé transforma realidades na periferia de São Paulo

 

Balé transforma realidades na periferia de São Paulo
Crédito da imagem Natália Freitas

Uma porta estreita em uma rua da Vila Liviero, zona sul de São Paulo, é a passagem para a realização dos sonhos de muitos jovens das comunidades próximas – Cruzeirinho, Santo Antônio, São Pedro, Vila Paz e Parque Bristol. No salão acima de estabelecimentos comerciais ocorrem aulas de balé. A partir de 2016, o projeto ganha uma nova versão: batizado de Sapatilhas da Transformação, ele pretende atingir até 120 meninas na ONG Prosocial Brasil.

Crédito da imagem Natália Freitas

O fundador da instituição, José Roberto Dupont, acredita na modalidade como importante ferramenta educativa e de transformação social. Aos 75 anos, trabalha com dedicação e é reconhecido por todos, que o cumprimentam com carinho. Além de citar melhorias na disciplina, concentração e respeito das alunas, afirma: “Eu acredito que o balé pode propiciar uma visão de mundo diferente, muito mais amplo do que aquele que elas vivem”, explicando que o contato com a dança incentiva o desejo de fazer parte de uma nova realidade, como sonhar com viagens e conhecer teatros.

Graças ao apoio da Magazine Luiza, obtido pela Lei Rouanet, foi possível ampliar a previsão de garotas atendidas, cujas idades devem estar entre quatro e 17 anos. Metade das turmas pagará uma quantia simbólica pelas aulas; a outra metade aprenderá gratuitamente. Dentre os requisitos observados na seleção estão porte físico compatível, situação econômica (renda de até três salários mínimos) e bom desempenho em escolas públicas, com frequência regular.

Além de duas professoras, o projeto também conta com uma assistente social e uma psicóloga que realizarão acompanhamento próximo à família das meninas. Durante o curso que já vem ocorrendo, o fundador conta que os benefícios sempre aparecem, desde para as meninas que possuem algum tipo de dificuldade motora ou cognitiva, até para aquelas que, por problemas familiares, acabam encontrando na dança o apoio que precisam.

As aulas seguirão a metodologia da Royal Academy Ballet, reconhecida e praticada no mundo inteiro. Dupont explica que, a princípio, a intenção não é formar bailarinas profissionais, mas considera a possibilidade de buscar o título de academia no decorrer do projeto.

Ana Isaura, de 43 anos, é dona de casa e acompanha a participação da filha, Yasmin Condé, de 10 anos, nas aulas que já ocorrem. Ela conta que o desempenho da menina na dança, paixão que nutre desde pequena, melhorou muito depois das aulas na ONG. “Quero ser bailarina desde quando eu era bem pequena. Acho gracioso, muito bonito”, diz Yasmim. Para a mãe, no entanto, melhor do que visar uma profissão para o futuro, é o que a filha aprende e que se reflete diretamente em sua educação: “Acho que o mais importante é a disciplina, a concentração, a seriedade, o respeito que ela tem aqui. Isso ela vai aplicar para o resto da vida”, afirma.

Mesmo morando na rua de trás da Prosocial Brasil, Ana Isaura não conhecia muito bem a organização antes de a filha começar a participar há dois anos. Agora, reconhece os trabalhos realizados como relevantes para o bairro. “Essa parte da solidariedade e do trabalho com as crianças, que elas têm uma atividade para fazer, tudo isso é bom para a comunidade e para elas. Eu gosto e acho muito importante”, diz.

Além do balé, também são promovidas aulas de judô, inglês, espanhol e informática, além de ações comunitárias. As primeiras iniciativas surgiram para integrar o projeto Bairro Saudável. “Eu me perguntava: como seria o bairro ideal?”, conta seu Dupont. A resposta vinha acompanhada da necessidade de prestação de serviços básicos com qualidade, como educação e saúde. Desde então, ele se movimenta para oferecer esporte, educação e inclusão digital, faz parcerias com escolas públicas da área e inclusive articulou a abertura de uma agência bancária na região, algo que não existia antes e que obrigava os moradores a se locomoverem para bairros vizinhos quando precisavam abrir ou pagar contas.

Para o Sapatilhas da Transformação, as expectativas são positivas. Mesmo tendo inscritas de no máximo 14 anos, há a projeção de que muitas meninas crescerão dançando dentro da ONG, expandindo o projeto e garantindo maior participação ao longo do tempo. Em 2015 as inscrições já foram encerradas, mas há possibilidade de haver vagas remanescentes em janeiro de 2016. “Eu diria que vamos viver uma grande experiência”, afirma o sr. Dupont.


Texto: Natália Freitas
Data Original de publicação: 16/12/2015