Antropóloga fala sobre relicário virtual com vítimas de Covid-19 e projeto com mulheres latinas

Com delicadeza e comprometimento na defesa de direitos e justiça social, ativista explica sobre dois projetos iniciados durante a pandemia.

Foto preto e branco de Débora Diniz de braços cruzados em uma praça urbana.
“Minha esperança é que não possamos mais evitar falar sobre nossa interdependência”, afirma a pesquisadora. (crédito da imagem: arquivo pessoal)

A antropóloga Débora Diniz, conhecida por pesquisar temas de bioética, feminismo, direitos humanos e saúde, é conhecida por seu ativismo na causa de direitos reprodutivos e professora associada no departamento de Teoria Geral, Sociologia e Filosofia do Direito na Universidade de Brasília. Em fevereiro deste ano, a cofundadora da ONG Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero recebeu o prêmio acadêmico Dan David Prize na categoria igualdade de gênero, junto com a pesquisadora indiana Gita Sen, que trabalha com empoderamento econômico das mulheres.

A pesquisadora conversa com Setor3 sobre projeto Relicários, que publica diariamente textos e imagens feitas pelo artista visual Ramon Navarro para homenagear as mulheres mortas pelo Covid-19, e Women in times of pandemic (Mulheres em tempos de pandemia), com a proposta de ser uma comunidade que compartilha histórias de mulheres que cuidam de mulheres em países da América Latina e Caribe. Acompanhe abaixo a entrevista:

Portal Setor3 – Gostaria que você explicasse quando surgiu a ideia de Relicário? Qual foi o pontapé para contar essas histórias?
Débora Diniz- A ideia do Relicário veio da inquietação que tantas de nós sentimos diante de pessoas que, entre multidões, morrem na pandemia, viram número e perdem suas biografias. Um dos muitos efeitos terríveis de uma pandemia assim avassaladora é a dessensibilização ao luto, ao direito de sentir a perda. A conta no Instagram foi a forma que Ramon Navarro e eu encontramos para tentar resistir a esse processo. O pontapé da conta foi a primeira morte por Covid-19 registrada no Rio de Janeiro. Cleonice Gonçalves tinha 63 anos, era trabalhadora doméstica desde os 13, cuidou do mais novo dentre nove irmãos, e depois do filho e de sobrinhos. Ela morava no município de Miguel Pereira, trabalhava em uma casa no Leblon, a dois ônibus e um trem de distância, há 20 anos. A patroa havia viajado para a Itália no carnaval e voltou de lá com Covid-19, entrou em quarentena, mas não avisou Cleonice do que se passava. Em 19 de março, enquanto a patroa se recuperava em casa, Cleonice morreu. Nas primeiras notícias sobre o caso, não havia o nome de Cleonice, e à medida que o número de mortes cresceu, isso se tornou comum na cobertura da crise. A morte de Cleonice diz muito sobre as desigualdades do país, que são agravadas pela pandemia, mas, quando fizemos o primeiro post no Instagram, em 23 de março, sequer sabíamos seu nome.

Portal Setor3 – Qual importância de registrar essas memórias das vítimas da pandemia nas redes sociais (no caso, Instagram)?
DD- Nossa intenção é contribuir com esse exercício coletivo do luto. Contamos uma história por dia, e isso é uma miudeza trágica diante das quase 900 mortes diárias por Covid-19 que têm sido registradas no país nos últimos dias. Famílias em luto nos escrevem todos os dias pelo Instagram, se emocionam com as histórias, e querem contar mais sobre as vidas das mães, irmãs, amigas e companheiras que perderam. Essa sensibilidade com a vida é importante para a resposta que queremos dar à pandemia.

Ilustração de mulher jovem com cabeça de conjunto de borboletas em cenário de quadro antigo.
Ilustração retrata história de senhora de 93 anos que morreu em Cascavel (PR). (crédito da imagem: Ramon Navarro)

Portal Setor3 – No projeto Relicários, como escolhe quais mulheres serão retratadas? Conta com ajuda de alguma organização no levantamento de dados?
DD- Priorizamos retratar mortes de mulheres anonimizadas nas notícias, aquelas que conhecemos apenas pelo evento da morte. Com o pouco que sabemos, fazemos um exercício de imaginação em imagens e palavras. A Anis – Instituto de Bioética, a organização feminista que fundei em 1999, coordena o levantamento de notícias que geram os relicários.

Portal Setor3 – Quando decidiu criar Mulheres em Tempos de Pandemia (Women in Times of Pandemic, em perfil no Instagram), com Giselle Carino e Valentina Fraiz? Qual a importância de mostrar essas mulheres cuidadoras? Qual objetivo principal?
DD- Giselle, Valentina e eu temos trabalhado, de diferentes formas, para fortalecer uma resposta feminista à pandemia de Covid-19. Uma resposta que cuide dos direitos de meninas e mulheres que são sobrecarregadas com o trabalho de cuidado com crianças sem aulas, idosos, pessoas com deficiência, pessoas em quarentena domiciliar pelo coronavírus, e que muitas vezes o fazem enfrentando violência dentro de casa, pela ação de companheiros ou familiares agressores. Mulheres que são maioria também em formas remuneradas de trabalho de cuidado, incluindo nos serviços de saúde e educação, no trabalho doméstico, no trabalho informal ou precarizado que compõe os serviços que agora aprendemos serem essenciais: trabalhadoras de limpeza, caixas e atendentes de supermercados e farmácias, cozinheiras, vendedoras. Mulheres que, como já nos ensinaram outras epidemias, como a do Ebola, correm mais riscos de enfrentar gestações indesejadas, abortos inseguros, falta de cuidados pré e pós-natais, violência obstétrica, e até de morrer em contextos de aumento da mortalidade materna. O objetivo do Mulheres em Tempos de Pandemia é contar essas histórias, histórias reais de mulheres da América Latina e do Caribe sobrevivendo à pandemia.

Ilustração de mulher negra usando máscara e texto lateral esquerdo: Somos una comunidad que comparte historias de mujeres en países de latinoamérica y el Caribe
Projeto recente para mostrar mulheres cuidadoras latinas. (crédito da imagem: Valentina Fraiz)

Portal Setor3 – Os números de casos de violência doméstica aumentam cada vez mais em tempos de isolamento social. Como contribuir a dar voz a essas mulheres em um cenário tão complexo?
DD- Temos o dever e a responsabilidade de escutar as mulheres. Políticas públicas, inclusive as emergenciais, têm que ser pensadas desde uma perspectiva de gênero, atenta a como as desigualdades de poder tornam as mulheres mais vulneráveis. Nesse sentido, há hoje propostas importantes que pedem que o poder público providencie, em caso de falta de vaga em abrigos, hospedagem em pousadas e hotéis para mulheres vítimas de violência durante a quarentena. Também há serviços de enfrentamento à violência sendo adaptados para atendimentos on-line e por telefone. Garantir que serviços de saúde sexual e reprodutiva e de proteção contra a violência de gênero sejam considerados essenciais, e avançar em estratégias de saúde digital são prioridades não apenas para esse momento da pandemia, mas para o futuro pós-pandemia também.

Portal Setor3 – Consegue fazer uma avaliação do que pode ocorrer com a pauta de gênero após pandemia?
DD- Não me atrevo a fazer projeções como tantos homens sabidos gostam de fazer em palanques. Estamos em um momento intermediário, de suspensão do que conhecíamos como normalidade da vida. Então, apenas posso falar do que luto para que seja parte de nossa resposta às crises. O que penso é o seguinte: as pessoas não são expostas ao Covid-19 da mesma maneira. Os riscos – de saúde, sociais e econômicos – que enfrentamos são condicionados por vulnerabilidades anteriores, produzidas pelas desigualdades de gênero, raça, classe, deficiência. Mas o desamparo nos une agora, à medida que testemunhamos a centralidade do trabalho de cuidado na vida social. Todos nós precisamos de cuidado e estamos aprendendo sobre os trabalhos essenciais à vida coletiva. Assim, o que espero para o mundo pós-Covid-19 é um mundo em que os valores feministas façam parte do nosso vocabulário comum. O desamparo e a vulnerabilidade estão no centro dos debates políticos e econômicos atuais, e não haverá saída se não fortalecermos políticas e mecanismos de cuidado coletivo. Para aqueles que sobreviverem a essa pandemia e a todo o sofrimento e perdas que ela está causando, minha esperança é que não possamos mais evitar falar sobre nossa interdependência. Precisamos falar sobre proteção social, cuidados básicos para trabalhadores de atividades essenciais, distribuição justa de trabalho de cuidado, fortalecimento do acesso universal à saúde.

Conheça aqui os perfis de Relicário: https://www.instagram.com/reliquia.rum/
Mulheres em Tempos de Pandemia: https://www.instagram.com/womenintimes/