Ana Fontes explica pesquisa sobre quem são as mulheres empreendedoras no Brasil

pesquisa-emp-femininoPesquisa sobre empreendedorismo feminino: Quem são elas? é o tema da pesquisa publicada recentemente pela Rede Mulher Empreendedora, patrocinado pelo Banco Itaú, Avon e Facebook. Em um mês, foram entrevistadas 1376 mulheres para falaram sobre suas atitudes e seus negócios.

Foi constatado que: 85% já empreenderam; 15% planejam empreender, iniciar negócio próprio nos próximos 12 meses; 22,33% são da região Norte, Nordeste e Centro-Oeste; 22,33% são de Minas Gerais, Espírito Santo e interior de SP; 20,23% da região Sul; 19,65% São Paulo somente região metropolitana e 12,21% do Estado do Rio de Janeiro.

Quase 80% já possui ensino superior ou mais; idade média das entrevistadas 38,7 anos; 55% possui filhos; 44% é chefe de família; 61% casada; 28% da classe A; 53% da classe B e 14% da classe C. Os gastos que mais comprometem a renda são: 37% na moradia, 24% na alimentação, dívidas 15%, saúde 8% e educação 7%. Um dado importante: a moradia pesa mais para classe C (44%), enquanto para a classe A aumenta o peso da educação (14%).

O estudo traz dados sobre tempo e perfil do negócio, setor de atuação, onde se comunicam mais e quais canais, local de trabalho e faturamento, mulheres e finanças, comportamento empreendedor, realidade com necessidades, networking, onde gostariam de se aprofundar, onde buscam mais informações, e visões de futuro. Acompanhe abaixo entrevista com Ana Fontes, formada em publicidade e marketing e fundadora da Rede Mulher Empreendedora e da Virada Empreendedora.
Portal Setor3- Qual o pontapé da origem desse estudo? Quem contribuiu nesse processo?

Ana Fontes- No ano passado, tivemos o desejo de fazer uma pesquisa muito ampla e significativa que não fosse para mostrar o trabalho da nossa rede, mas uma amostra do Brasil inteiro e ter uma percepção do nosso trabalho. Orçamos com institutos de pesquisas e vimos que sairia bem alto o valor e fomos atrás de investidores e negócios comandados por mulheres, um dos princípios que trabalhamos aqui. Encontramos uma consultoria gerida por uma mulher que se apaixonou por nossa causa e achou bem interessante. Buscamos parceiros que tivessem alinhamento conosco e não só como patrocinadores, mas interesse pelo estudo e conseguimos o apoio da Avon e Banco Itaú.

Além da parte financeira, também contamos com parceiros do ecossistema de empreendedorismo, como os grupos de startups, coletivos de mulheres espalhados pelo país e organizações a favor do empreendedorismo. Conseguimos o apoio de mais de 30 instituições para nos ajudar a responder a pesquisa. Foi uma pesquisa muito extensa, com respostas de até 26 minutos. Boa parte das mulheres que respondiam nossa pesquisa falaram que também queriam saber os resultados para contribuir na sua auto-avaliação de seu próprio negócio. Fizemos um trabalho de guerrilha mesmo. E por que queríamos fazer essa pesquisa? Queríamos os dados nas mãos para ir atrás dessa diferença para nos ajudar a correr atrás de políticas públicas e tudo o que for possível. Conseguimos 1400 mulheres entrevistadas, superou nosso objetivo que era de 850. Após primeira etapa concluída, apresentamos parte dele no Fórum Empreendedora e a pesquisa é tão rica que tivemos dificuldades em reduzir em 25 slides. Hoje estamos apresentando a todos os atores da área, empreendedores, políticos, grupos de apoio que conseguiram espaço de todos falarem e entenderem as dificuldades das mulheres. Sabemos que um dos grandes motivos delas empreenderem é de terem filhos pequenos e o mundo corporativo ainda empurra elas para fora, porque não é um ambiente acolhedor nem agradável. Também constatamos as diferenças no estilo de gestão das mulheres. Somos muito mais ligadas ao objetivo do nosso negócio, já as questões de gestão são deixadas de lado. Trabalhamos muito para que elas possam ter melhorias na gestão de seus negócios. Uma questão que ficamos bem felizes é que as mulheres entenderam a importância de networking e elas estão participando de eventos, conhecendo outras mulheres e se sentindo menos sozinhas. Ainda são muitos os desafios. Elas, em geral, muito atarefadas, sobrecarregadas de trabalho, com dificuldades de divisão de tarefas e costumam se dedicar mais de 40 horas semanais, ao mesmo tempo se dedicar à família e aos filhos e dela própria.

Portal Setor3- Essas mulheres consultadas em geral são de quais classes sociais?
AF- Tivemos maior volume de mulheres das classes A e B. Conseguimos a representatividade da fala dessas mulheres. Todas estão sobrecarregadas, mas a classe C é mais sobrecarregada, porque ela não tem essa divisão de trabalho e ainda tem que cuidar das atividades domésticas.

Portal Setor3- O que você observa dos tipos de investimento por classes sociais? Ou não há diferenças?

AF- Há diferenças. Não são tão gritantes: 60% atuam na área de serviço. Em todas as classes as mulheres estão em maioria nessa área, mas na classe C aumenta o número de comércio. No momento em que a mulher já trabalhava na área corporativa é uma experiência de negócio empreendedor usando a experiência que possuem anteriormente.  Por isso tem mais serviços nas classes A e B e de comércio na C. É bem natural nesse segmento abrir um negócio de roupas, de doces, entre outros.

Portal Setor3 – Por que elas possuem dificuldades financeiras e administrativas?

AF-  Há questões culturais que não podemos ignorar. Por exemplo, as mulheres estão no mundo dos negócios há menos tempo. Fomos criadas para aceitar os homens como provedores e para ficarmos em papel secundários. Temos ainda a síndrome da impostora, de que ela não é capaz de cuidar dessa questão de gestão. Há um problema de confiança que não é possível cuidar dos negócios. O que ela faz em geral é delegar essa parte financeira da gestão dos negócios para o marido. Precisamos melhorar muito essa questão, porque a chance desse negócio é menor. Se você não souber administrar sua casa, quanto de comida comprar, a roupa necessária a teus filhos… em um negócio não tem tanta diferença na ordem de organizar uma casa. Na verdade, é uma questão cultural, o medo e a falta de confiança. Quem ensina finanças a mulheres são homens numa linguagem masculina.

Portal Setor3 – Quais foram os critérios para criar os perfis (to perdida, to achando o caminho, consegui, entre outros)? Você se surpreendeu com algumas constatações?

AF- Usamos uma combinação de critérios bem baseados na formação Empretec, do Sebrae, para classificar os perfis de comportamento de empreendedoras. São 20 combinações e separa essas combinações para mostrar como chegamos até lá nesses quatro perfis. Separamos nesses grupos de acordo com o perfil comportamental. O que nos assustou? por exemplo, mesmo empresas com 10 anos se classificam como perdidas. E na nossa percepção o “to perdida” é quando você começa o negócio. Não necessariamente. Há empreendedores com menos de três de empresas e faturam pouco, mas se classificam numa situação boa.  Essas foram as grandes surpresas. Quando colocamos os critérios, vimos que não necessariamente é o que vai ser. Ela pode sim ter muita experiência e faturar mais e se sentir perdida.  Como ela está perdida com um negócio que toca há seis anos? Mas o sentimento dela que a leva para essa classificação. Foi bem interessante. Temos ainda um trabalho gigante. Dá para ver ainda que nem a pessoa com mais experiência se sente super segura.

Portal Setor3- Agora para a rede do início do ano até os dias de hoje, quais são as principais diferenças que você observa nas empreendedoras? O que elas avançaram e o que ainda tem de dificuldades?

AF- Hoje elas avançaram em entender que o negócio não é somente uma complementação dentro da rotina delas. Fico muito feliz ao entenderem isso. Administrar um negócio não é somente uma parte da vida delas. Alguns pensam que elas irão trabalhar menos e de verdade já entenderam que não funciona bem assim. Então, isso é uma coisa boa. Para estar no jogo, precisamos trabalhar bem, de espaço, ter uma profissionalização. A segunda coisa é entender o networking para o desenvolvimento dos outros, que faz a diferença. Outra novidade é que as mulheres bem jovens e sem filhos estão ingressando cada vez mais, optando pelo empreendedorismo como opção da vida delas.

Portal Setor3 – Isso se deve a quê?

AF-  É uma geração influenciada pelo ecossistema, a mídia, a escola, os amigos, a família, e outros falam cada vez sobre o empreendedorismo. Então, empreender virou uma opção também. O empreendedorismo não é somente uma segunda via, mas uma primeira via.

Acredito que precisa ser melhorado e ainda tem um caminho pela frente é a capacitação da gestão. Aprender as coisas separadas não é o melhor caminho. Ainda necessitamos evoluir na questão financeira, olhar para essa área sem delegar. Deixar outra pessoa cuidando a parte financeira não funcionou, precisa ser trabalhado muito. Outro item importante a estudar é a administração do tempo. E há várias coisas relacionadas: tarefas, falta de apoio da rede familiar, e dificuldade da mulher de delegar tarefas a outra pessoa. A gente é muito centralizadora e gosta de fazer tudo, só que nem sempre é possível.

Portal Setor3- Com relação ao perfil centralizados, essa característica será que não muda com idade?

AF- Observamos em todas as idades. Essa é uma característica nossa, mais cultural do que uma questão de ambiente. Nosso lado cuidadoso acha que faz melhor tudo e precisa cuidar de todos. Às vezes do jeito que a gente acha que é o certo acha que não é o melhor jeito, mas não é bem por aí.

Portal Setor3- Como você acredita que esse estudo vai contribuir com a área de empreendedorismo? E com as mulheres em geral?

AF- Queremos usar esse estudo como referência para estimular políticas públicas para esse público. Queremos ajudá-las. Não adianta reclamar que as coisas não estão acontecendo, mas também não mostrar caminhos aos nossos governantes. Apresentar para as empresas o quanto é importante investir em negócios de mulheres de pequenos negócios, porque elas não representam bônus no fim do ano e o dinheiro do negócio delas vão aos filhos e dá para melhorar a condição da família e a realidade delas. É isso que queremos mostrar. Do outro lado, nossos governantes podem ajudá-las a se desenvolverem mais. Não temos ainda programas de apoio a negócio de mulheres. Estamos tentando trabalhar na parte de sensibilização. Por exemplo: programas de capacitação a pequenas empreendedoras com o governo. A ideia é incentivar políticas públicas como temos nos Estados Unidos nas grandes corporações para darem mercado a pequenas empreendedoras e com percentual de compra a empresas lideradas por mulheres. Isso é uma política afirmativa bem bacana e que pode ter uma lei ou uma grande recomendação para ajudar as pequenas empreendedoras.

Serviço:

Site da Rede Mulher Empreendedora: http://redemulherempreendedora.com.br/


Data original de publicação: 11/11/2016