Alunos do curso Agente Cultural falam da visita nos quilombos em Eldorado (SP)

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A aula do dia é de elaboração de projetos culturais, conhecer os principais pontos, como tema, objetivo, público-alvo, justificativa, cronograma e orçamento. Jovens, adultos e até idoso participam da primeira turma do curso livre Agente Cultural do Senac Registro na quinta-feira dia 18 de maio.

Sentados em roda de conversa, cada um se apresenta para falar sua escolha em participar da turma e o motivo por ter se inscrito. Todos estão curiosos para o passeio no dia seguinte a duas comunidades quilombolas: André Luiz e Sapatu – localizadas na zona rural da cidade de Eldorado (SP). Nenhum deles tinham ido para os quilombos do Vale do Ribeira.

Crédito da arte: Gabriela Lira Bertolo

Lisete Rocha Teixeira, 76 anos, pós-graduada em direito e professora na área, é de São Paulo, mas vive na região há cerca de quatro anos. Quando decidiu sair da capital paulista, vendeu carro, apartamento e tudo o que podia para vir morar numa chácara na cidade de Jacupiranga (SP). “Inicialmente pareceu-me uma região mais produtiva. Agora estamos fomentando sonhos”, afirmou a advogada que optou fazer o curso, porque está aposentada e precisava se atualizar.

Douglas Aparecido Gonçalves Lemes, 23 anos, possui ensino médio completo e técnico em confeitaria. A assistente social do bairro Vila Nova, uma região de baixa renda de Registro, onde reside o jovem, o convidou para participar. Nem imaginava o que iria aprender. “Estou gostando, porque envolve a sociedade, o dia a dia, nosso caminhar e até podemos incluir a forma de nos alimentar. Se tiver oportunidade, quatro trabalhar sim na área. Gostaria de unir gastronomia com a parte cultural, tive até ideia de um empreendimento com a culinária daqui”, comentou.

Gêmeos e grafiteiros, apaixonados por esse tipo de expressão artística, os irmãos Gustavo Dimg e Augusto Dimg são da zona sul de São Paulo. Participavam muito de saraus e atividades culturais dos coletivos. Eles contaram que conheceram a cidade de São Paulo por causa do grafite. Por motivos familiares, tiveram que se mudar para Registro. Trabalharam no começo numa empresa de palmito. Não deu certo e voltaram para o grafite. “Há um preconceito com o grafite aqui, porque as pessoas falam que é tudo pichação. Não tem concorrência com outros grafiteiros. Nós mostramos nosso trabalho pelo viés da estética”.

Também vieram ao curso por indicação do assistente social do bairro de Vila Nova. “Aqui aprendi o que justamente precisávamos da área da cultura. A gente já praticava algo que nem imaginava que era dessa área, como elaboração do projeto. Fazíamos tudo sem estrutura. Só as ideias lá sem formato específico. Colocávamos tudo, mas apenas relacionado com objetivo. No curso, aprendemos a fazer: tema, justificativa, objetivo,
cronograma e orçamento”.

Crédito da foto: Susana Sarmiento

Os jovens ainda contam que a periferia das cidades ainda é marcada por muita cultura do tráfico de drogas, violência, bebida, sexualidade aflorada entre as crianças. Pensando nessa realidade, eles têm já uma ideia de desenvolverem um painel grande com o desenho de um baú grande com brinquedos e um personagem dentro de um quarto cinza. “Esse personagem pode ser criança ou adulto. A ideia é fazer lá dentro do bairro Vila Nova, numa rua movimentada. A proposta deles é reviver e aflorar a infância e a importância do brincar”.

Já a estudante de pós-graduação de políticas públicas Diellen Monique de Souza, 26 anos, sempre viveu no bairro Vila Nova e só saiu no período que estudou graduação de engenharia ambiental em Sorocaba. Soube do curso e se interessou, já que tinha uma vontade de desenvolver uma monografia sobre culturas tradicionais na região do Vale do Ribeira, que envolve: cultura quilombola, caiçara, indígena e ribeirinha. “Tudo que envolve pesquisa me interessa. Aqui aprendi muito o que tem a ver com as pessoas que vivem aqui. É uma região rica de cultura”, defendeu.

Crédito da foto: Susana Sarmiento

O poeta Guilherme Souza, 23 anos, é mototáxi e possui ensino médio completo. É de Registro e morou cinco anos em São Paulo. Apaixonado pela literatura marginal, é fã de Sérgio Vaz e tem como livro de cabeceira O Colecionador de Pedras, que ganhou de uma professora de filosofia. Também gosta de comporto músicas de rap. Em agosto do ano passado, organizou um sarau chamado Literacura, em parceria com outra poeta Ana Clara Muniz.

Ele já conhecia o Senac Registro, porque havia feito curso em administração de contas a pagar. Ele se interessou pelo curso, porque se interessou por uma vaga de agente cultural no Sesc Registro, leu o edital e viu que precisava ter formação na área. Foi isso que mais motivou a ele ingressar nesse curso. No curso, teve a ideia de organizar com os irmãos gêmeos Dimg uma oficina de escrita e grafite chamada Ó As Ideias.


Quebrando estereótipos

Edleide Pagliuca da Veiga, 21 anos, formada em história, gostou do curso e pretende trabalhar na área cultural. Sua ideia é desenvolver um projeto com os jovens do bairro Arapongal. Ela participou da visita na Escola Estadual Maria Antonia Chules Princesa e conversou com os estudantes quilombolas. “Antes da faculdade de história, eu pensava que eles tinham menos contatos com celulares. Na nossa última conversa com a liderança quilombola Maurício, da comunidade André Lopes, me senti como se estivesse com meu avô contando histórias. Uma coisa bem gostosa e aconchegante sobre a vida deles”.

A mais nova da turma de Agente Cultural é Aline Sousa, 16 anos, sonha em se formar em arquitetura. Ela gosta muito de matemática e desenhar. Como sempre entra no portal do Senac, soube do curso e decidiu se inscrever para conhecer mais sobre o tema. “Eu gosto de fazer cursos e acho o que vier de conhecimento é lucro. Na verdade, foi totalmente diferente do que imaginava. Achava que seria mais prática sim, mais em manifestações culturais, como música, dança e outros tipos”.

O jovem Douglas comentou que a visita nas comunidades superou suas expectativas. “Eu imaginei que as mulheres fossem diferentes. Pensei que muitos fossem donas de casa, com serviços domésticos e os homens trabalhando. E não. Elas têm destaque e são bem participativas, trabalham e estudam. Fiquei feliz ao ouvir isso. Outra surpresa: eu esperava os jovens com roupas mais simples. Não foi bem assim. O estilo deles se arrumarem é como nós, do centro da cidade”, narrou.


Crédito do texto e fotos: Susana Sarmiento
Crédito da arte: Gabriela Lira Bertolo

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