Alunos da Escola de Jornalismo da ÉNóis desenvolvem reportagem sobre o consumo do jovem nas periferias

13517640_1061193543973193_529948277773477217_oDez jovens de 15 a 21 anos tentando entender como funciona a questão do consumo dentro da periferia. Dois personagens, Nairóbi e Denis. Ela, empoderada, ilustra a nova faceta do movimento negro feminino através da estética. Ele, evangélico, passa a maior parte da semana na igreja. Os dois tem uma coisa em comum: adoram roupas novas. A vontade de entender como isso faz parte da vida dessas duas figuras foi o pontapé do Identidade Parcelada, uma reportagem produzida pelos alunos da Escola de Jornalismo da ÉNóis.

Fundada em 2013 e localizada no centro de São Paulo, a escola de jornalismo surgiu com o objetivo de ensinar jovens das mais diversas periferias da cidade a produzir conteúdo jornalístico independente. Hoje a iniciativa conta com uma formação de 10 meses, e a cada período, participam apenas 10 jovens.

O critério de seleção é simples e não tem nenhum tipo de prova. Basta ter de 15 a 21 anos e preferencialmente vir de escola pública. Além, é claro, gostar e ter habilidades de comunicação.

“Nós temos um imperativo de aprender fazendo. A cada três meses tem uma entrega de produto. Todos eles recebem uma bolsa de R$500 por mês para estar aqui. A gente tem dois encontros presenciais por semana e também a escoladejornalismo.org que é uma plataforma de cursos online” contou Amanda Rahra, uma das organizadoras da ÉNóis.

A reportagem

No primeiro encontro, foi entregue aos alunos o desafio de produzir uma grande reportagem. Aula após aula, eles discutiram qual seria o foco. Quando a ideia surgiu, a pauta era outra. A matéria seria sobre produtos originais e falsos. O objetivo era ilustrar que, para se inserir dentro de determinados grupos sociais, os jovens compram as réplicas, pois acreditam que esse é um caminho de inclusão. Mais do que isso, a publicação traria à tona a pergunta: o que é original e falso dentro da sua personalidade?

Após um processo descentralizado de apuração de dados, os alunos da escola chegaram à conclusão de que esse era um recorte que não funcionaria naquele momento. Foi a partir daí que eles decidiram mudar o rumo da reportagem e decidiram que o consumo abordado a partir daí não seria simplesmente o para ser aceito, e sim algo que apresenta aspectos de duas comunidades, de dois perfis distintos, que vem de um mesmo contexto social. Observando a imagem que as pessoas possuem sobre a periferia e o que não é abordado pela mídia, os alunos escolheram os dois protagonistas do IP: o adolescente religioso e a menina estilosa. “São figuras que andam entre nós, fazem parte do nosso dia a dia e consomem tanto quanto qualquer pessoa”, afirmou Bea Jordan, 21 anos, aluna da ÉNóis.

“A gente não queria falar sobre o funkeiro ou o rapper porque achávamos que isso já estava batido. Pensamos até em falar sobre o estilo swag, muito presente nas vitrines hoje em dia, mas queríamos mostrar a pluralidade da periferia e apontar que o consumo está presente na vida de todos os moradores, de maneiras diferentes. Por isso escolhemos o Denis e a Nairóbi”, conta Bea. Ela ainda revela que Denis, o jovem evangélico, pontuou questões extremamente importantes durante as conversas. Quando questionado pela equipe sobre o porquê usar roupas de valor tão alto, ele responde que é pela qualidade. Denis relatou aos integrantes da ÉNóis que aos 13 anos foi parado por uma viatura por usar um boné que o primo, preso na época, deu de presente para ele. Hoje, com roupas caras e tênis de marca, mesmo que o boné esteja na cabeça, ninguém mais para ele. Para os alunos, a questão do racismo também está ligada ao vestuário e isso deveria ser mais discutido entre os próprios adolescentes.

Bea também contou que para eles, jovens, foi fácil dialogar com pessoas da mesma faixa etária. “O papo fluiu melhor. As ideias se encaixaram mais fácil”, diz ela. O roteiro de perguntas foi feito depois da escolha dos entrevistados. “Nós tínhamos dúvidas sobre o universo que eles vivem, não sobre a vida pessoal de cada um. Isso nós fizemos depois de conversar com eles”, disse a estudante. “No final, a maioria das coisas que os dois pontuaram conversava com a fala das psicanalistas”.

Outro ponto muito destacado tanto pelos estudantes da Escola quanto pela fundadora Amanda Rahra, foi a fala do Ferrez, fundador da loja 1 da Sul, famosa entre os jovens principalmente das periferias. O rapper pontua “Na periferia você é o que você tem. O rico vai ao shopping de chinelo, mas o pobre tem que ir com tênis de R$1000. Por que isso acontece? ”. Para Amanda, as aspas ilustram o pensamento do jovem entre 15 e 24 anos que consome.

Os alunos contam que em momento algum a intenção foi apontar consumo como algo negativo. “Se as pessoas estão se empoderando através das roupas, do tênis e do cabelo, que bom! Tomara que todos possam fazer isso”, disse Bea. No vídeo, Nairóbi e sua mãe contam que usam o estilo para driblar o preconceito e para auto-aceitação.

Além do material em audiovisual, foi desenvolvida uma pesquisa para traçar o perfil da juventude nos dias de hoje. Os resultados apontam que 45% dos jovens de São Paulo gasta parte do salário com compras. Logo em seguida, vem a ajuda em casa – 20% deles dedicam parte do orçamento a isso. Em território nacional, uma média de 50% dos jovens trabalha para bancar Wi-Fi, tv por assinatura e celular.

No site do IP tem também um infográfico “Os Estilos Da Quebrada”, que mostra as diferentes tribos que fazem parte da rotina dos jovens. Divididas em 11 categorias, elas vão desde o metaleiro ao cristão. A cada clique, uma explicação sobre a essência do movimento, roupas e acessórios. Logo abaixo do infográfico há um quis para identificar “Quem é Você no Role”. São 12 perguntas e ao final delas, um resultado que encaixa o leitor em um dos estilos do infográfico acima. Até hoje, o quis já foi respondido 651 vezes. Amanda Rahra pontua que esses foram dois atrativos, e parte do público chegou ao IP através deles.

O projeto foi desenvolvido em parceria com o Instituto Alana, organização criada há dez anos e tem como objetivo garantir condições para a vivência plena da infância por meio de projetos relacionados com advocacy, comunicação e educação. Renato Godoy de Toledo, jornalista, bacharel em ciências sociais e pesquisador da instituição, explica que um dos valores Da organização nesses dez anos de atuação é a democratização da educação. “Nós identificamos o ÉNóis como um grande parceiro nessa tarefa de levar a comunicação para os jovens. Comunicação feita por e para eles”. Além disso ressalta a importância desse tipo de discussão. “Trata-se do fato de que uma criança consumista vai virar um jovem consumista. É um tema complementar e de fundamental importância para entender o tipo de sociedade na qual estamos inseridos”. Uma das principais campanhas do Instituto Alana, hoje, é a Criança e Consumo, que divulga ideias sobre as questões relacionadas à publicidade infantil, e aponta caminhos para minimizar esses prejuízos.

Para Renato, o resultado final do IP superou suas expectativas. “ É um material de muita qualidade. Nada melhor do que o próprio jovem para falar sobre a sua realidade”. Como sociólogo, ele acredita que o jovem tem o poder de promover a construção de novas políticas. “Existe uma demanda da sociedade brasileira que ouve mais os anseios das crianças e dos jovens do nosso país. Isso sem dúvida é um passo. Dar voz a essa faixa etária é entender que ela pode ser usada como uma escuta pelo poder público, e quiçá os jovens serem engajados por esse tipo de conteúdo para que eles possam influenciar na elaboração e implantação das mesmas”.

No segundo trimestre de 2016, a Escola de Jornalismo lança o “Prato Firmeza”, um guia gastronômico das periferias de São Paulo. O projeto conta com a ajuda do Atacadão, rede brasileira de supermercado, e incentivo da Lei Rouanet.

Serviço:

O vídeo, hoje, tem mais de mil visualizações no Youtube. A reportagem, pesquisa e teste estão disponíveis na íntegra no site da ÉNóis. Interessados podem conferir em: http://escoladejornalismo.org/identidadeparcelada/


Crédito do texto: Gabriela Lira Bertolo
Data de publicação: 04/11/2016