Alexa Clay, de A Economia dos Desajustados, falou sobre comportamento inovador

Idealizadoras do blog Cientista que Virou Mãe foi grande vencedor do Social Good Brasil Lab 2015

 

Unir mais pessoas esse foi o tema central do Seminário Social Good Brasil 2015 em Florianópolis (SC). Com slogan Crowd2Crowd, o evento tinha o objetivo de impulsionar a inovação de muitos para muitos, com uma postura mais colaborativa e pautada por um poder compartilhado usando a tecnologia para gerar impacto social. Em sua terceira edição, contou com o auditório lotado para acompanhar os debates de jovens empreendedores, representantes de iniciativas privadas e públicas com práticas de empreendedorismo. Os debates ocorreram nos dias 12 e 13 de novembro no Centro Integrado de Cultura.

A abertura do evento contou com Carolina de Andrade, diretora executiva do Social Good Brasil (SGB), Fernanda Bornhausen Sá, do comitê estratégico do SGB e fundadora do Instituto Voluntários em Ação e idealizadora do Portal Voluntários Online, Lucia Dellagnelo (ICom), Américo Mattar, diretor presidente da Fundação Telefônica Vivo; Maria Julia Kurth de Azambuja, uma das responsáveis pelo projeto Cubo Coworking Itaú; e Cida Franco, diretora de relacionamento da Natura. Cada um desses representantes elogiou a iniciativa e estimulou ações de empreendedorismo aos jovens.

Cida Franco ressaltou o papel das consultoras da organização que contribuem em defender as causas socioambientais da Natura e o empreendedorismo é uma via para caminharem juntas e fazerem a diferença. As consultoras são responsáveis pelo impacto social das ações da empresa. “Sempre teve ação, mas a tecnologia vem para aumentar esse impacto”, previu.

Já Lúcia Dellagnelo ressaltou que no próximo dia 25 de novembro a Instituto Comunitário Grande Florianópolis, conhecido como ICom, completa 10 anos de trajetória. “As pessoas conectadas possuem um senso de pertencimento maior com seu local. E isso tem relação com o Social Good Brasil”, opinou.

Fernanda Sá se lembrou do início do movimento voluntário Social Good Brasil e como trouxeram essa iniciativa aqui ao Brasil. “Aqui é para criar esse ambiente de inovação para se inspirarem e se conectarem”, ressaltou.

Na outra via

Para entender melhor o comportamento inovador, como ele pode ser aliado com tecnologia para construção de saídas criativas, Alexa Clay, autora do livro The Misfit Economy (em português, chama-se A Economia dos Desajustados: alternativas informais para um mundo em crise) e José Marcelo Zacchi, um dos apresentadores do programa Navegador, da Globo News, falaram sobre as tendências, as características e o movimento para um esse tipo de postura.

Filha de antropólogos, Alexa falou primeiro da sua trajetória pessoal e da sua capacidade em falar com pessoas e de deixa-las à vontade. “Temos que sair das bolhas para conhecer outras pessoas, aquelas que estão à margem”. Já trabalhou no setor de sustentabilidade de empresas e com empreendedores sociais. “Cada vez mais temos pessoas que criaram uma rede de desajustados dentro do sistema. São indivíduos que lutam contra o sistema e é importante saber como eles fazem isso para tentar combinar estratégias”.

Alexa comentou que tinha interessa em trabalhar com os intraempreendedores e aquele público à margem da sociedade. Ela se recordou das enchentes na Tailândia em 2013 e houveram pessoas que criaram ferramentas feitas por eles mesmos. “A nossa ideia não era criar um glamour em cima, mas mostrar pessoas que estão na periferia e movem 60% da economia e nunca são escritas na faculdade, entender como são suas abordagens. A partir daí surge a economia dos desajustados”.

Ela comentou sobre alguns casos de pessoas que se encaixavam no perfil da economia dos desajustados. “Muitos começaram muito pobres com sua franquia. Em nossa pesquisa, são pessoas que correm atrás, possuem o instituto de fazer a coisa acontecer e tem essa atuação na economia informal e até do mercado negro. Ela também disse que não tem que ter preocupação com a propriedade intelectual, mas na provocação que a ação gera. “Falamos com artistas, militantes, pessoas que são voltadas para chacoalhar as outras pessoas. Nossa ideia é criar essa ponte entre mundos diferentes”, afirmou.

A especialista em subcultura e inovação ainda comentou que alguns desses atores vivem fora da lei, mas possuem estratégias em seus negócios bem interessantes. A grande questão estava em: como humanizar esses atores distintos e estabelecer incubadoras para eles, porque eles têm várias habilidades. “Como podemos criar pontes entre economia forma e informal? Dar acesso a essas populações informais?”.

Ela ainda ressaltou dois tipos de ação: hackear o sistema e o poder da cópia. A primeira é feita por pessoas que falam que não querem viver na burocracia,  querem a descentralização e um sistema sem chefia. “Qualquer um pode fazer algo, partir para a ação, ninguém é chefe de ninguém. Hoje em dia há hacker furando sistemas para contribuir com a cura da malária, por exemplo. Também comentou que um empreendedor estudou a violência dos Estados Unidos e viu que os padrões de violência ocorriam como doenças infecciosas, ele trouxe esse modelo de trabalhadores de modelos comunitários.

Já para a cópia, Clay lembrou que a industrialização de alguns países da Europa foi baseada pela criação de patentes. Quando ela estava na Índia, observou alguns ladrões fármacos que tornavam acessíveis para a população mais pobre esses produtos. “Os vigaristas são mestres de venda, criam esse futuro fictício e dessa manipulação tentam criar esse mundo. Dentro desse espaço de mudança social, isso é algo que precisa ver diferentes futuros sobre a cultura dos desajustados. E como podemos criar essa comunidade?”. Para finalizar sua apresentação, a autora da publicação apresentou um vídeo chamado NeoTribes, em que mostra diferentes grupos: https://vimeo.com/142884370

Do local para o global

José Marcelo ressaltou que o ambiente de internet foi propício para o crescimento e o fortalecimento da inovação, em especial na região do Vale do Silício, nos Estados Unidos. Com essa conexão, ele falou que foi possível gravar e distribuir músicas, vários fenômenos de criação de movimentos culturais, e até os novos grupos políticos estão dominando esses novos meios de comunicação. “Uma das grandes notícias é dar possibilidade de inovação, ao alcance de todos, as fronteiras entre centro e franja, para qualquer ator criativo, sem necessariamente estar marginalizado”, analisou.

Para o apresentador do programa Navegador, da Globo News, a tendência é que a sociedade procure soluções coletivas inovadoras. Ele destacou três coisas: a semeadura – a ideia de que as pessoas estão ficando cada vez mais criativas e estão interessadas em criar soluções; faça você mesmo – propor saídas novas, seja para produzir espaços públicos e sociedades mais democráticas, além de construções mais amplas. O terceiro ponto é o negócio social, o próprio mercado servindo o bem público.

Quando questionada sobre as sugestões para o Brasil, ela afirmou que aqui está acontecendo a economia dos desajustados e isso está mais no mercado de trabalho. Compartilhou ainda que recentemente esteve na periferia de Paris (França) para se reunir com hackers que estavam pensando em saídas para as mudanças climáticas, montando protótipos para viverem em uma sociedade carbono zero e baseada na energia solar. “Como vamos pensar em makers, se ainda estamos trabalhando com essa disciplina de fábrica? Entre esses ecohackers, nos questionamos como levamos isso para as comunidades, que não sabem o que está acontecendo, vamos empoderar esses espaços e isso tem a ver com a educação para nos mostrar que podemos ser diferentes”.

A pesquisadora ainda questionou como seria o sistema financeiro se utilizasse mais criptomoedas – moedas digitais passíveis de criptografia, cada moeda utiliza um algoritmo próprio e geralmente embute criptografia – um sistema financeiro alternativo. “Gostaria da ideia de ter protótipos desses modelos funcionando”, afirmou. Levantou mais questões: “como transformar para o movimento de investimento dentro dos espaços de inovação? Como criamos espaços seguros dessa economia marginalizada? Cada vez mais estamos vendo os empreendedores se tornando parte e se reconhecendo como parte, isso exige que paguem impostos”. Clay ainda chamou atenção para a mão de obra informal e combater a violência, presente em uma parte desses negócios.


Confira aqui os conteúdos dos debates no blog do Seminário Social Good Brasil 2015: http://socialgoodbrasil.org.br/postagens/blog

Confira aqui a cobertura completa do evento.


Data original de publicação: 17/11/2015