Ailton Krenak critica sociedade do consumo em tempos de pandemia

Recentemente, o escritor lançou o livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, pela Cia das Letras, em que reflete os tempos atuais.

Foto de perfil da liderança indígena Ailton Krenak.
Ailton Krenak é da região do vale do rio Doce, um lugar onde a ecologia foi violada pela atividade de extração mineira. (crédito da foto: Helio Melo)

Ailton Krenak, escritor, liderança indígena, um dos principais ativistas do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas e autor do livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo, da Companhia das Letras, conversa com a equipe do Portal Setor3 sobre a pandemia, como está seu isolamento na reserva indígena no interior de Minas Gerais, a situação dos povos indígenas neste cenário e a repercussão do seu texto O Amanhã Não Está À Venda, disponível em PDF na internet e um dos mais comentados em debates e lives nos últimos meses. Esse texto é resultado de três entrevistas feitas em abril deste ano veiculadas no Estado de Minas, O Globo e Expresso.

Portal Setor3- Como está o isolamento?
Ailton Krenak – Eu estou assim como muitas pessoas com mais de 50 dias fazendo quarentena numa comunidade indígena do povo Krenak. Aqui é uma reserva indígena que existe há quase 100 anos para cultivar as famílias Krenak que sobreviveram nessa região do Médio do Rio Doce. Somos sobreviventes de uma colonização que na sua contagem de tempo íamos desaparecer e tivemos que nos engajar em muitos movimentos defesa e proteção desses direitos para que pudéssemos permanecer nesse território histórico do povo Krenak. E nossos antepassados, que viviam aqui na floresta do Rio Doce eram chamados de botocudos. Nós somos os descendentes desses povos que foram agrupados numa reserva indígena aqui nas cidades de Resplendor e Conselheiro Pena, no Médio Rio Doce, em Minas Gerais. Essa experiência dos últimos meses de risco de contágio fez com que nossas famílias tomassem um alerta e se protegessem contra o contágio. Felizmente passando o segundo mês de quarentena e não temos nenhum registro dentro desse conjunto de famílias Krenak, que vivem aqui na reserva. Nós sabemos que a 100 km, na cidade de Governador Valadares, houve óbito confirmado. Isso deixa alerta vermelho, porque a 100 km daqui tem gente morrendo de Covid-19. Nos municípios ao nosso redor, em um raio de 30 a 50 km, não há registro de ocorrência. Mas isso não deveria deixar ninguém relaxar com o cuidado. O vírus viaja de maneira invisível e não precisa exatamente ir na cidade para contraí-lo. A mercadoria que transita por aí em caminhões ou outros meios também pode ser como veículo de transmissão do contágio, como estamos aprendendo nesse verdadeiro intensivo de entrevistas e matérias com especialistas de saúde. Cria um estado quase de pânico nas pessoas com medo de serem contaminadas. Nós estamos procurando manter a calma.

Foto de Ailton sorrindo em natureza.
“Os povos indígenas se constituem em redes muito antes dessa ideia de rede existir”, esclarece Ailton sobre a troca constante de informações entre os indígenas de diferentes partes do país. (crédito da foto: Adriana Moura)

Portal Setor3 – Como estão os indígenas em relação a essa pandemia?
AK- Felizmente não temos fluxo que demanda pessoas toda hora irem ao mercado na cidade. Nós, pela experiência de vivermos há quatro anos impactados pela lama tóxica em Mariana com a queda da barragem no nosso rio, criamos uma série de medidas emergenciais muito antes da pandemia. Isso mudou a rotina das pessoas que vivem aqui dentro. Somos assistidos por caminhões pipas diariamente que traz água e em uma certa periodicidade entregam cestas básicas. Essas medidas fazem parte da ação do Ministério Público Federal, que obrigou a Vale do Rio Doce a promover saídas emergenciais de assistência a famílias Krenak. Isso, de certa maneira, já condicionou nossas famílias a aplicar agora esse conhecimento nessa grave situação de pandemia.

Portal Setor3- Poderia descrever o teu isolamento, o teu dia a dia?
AK- Há mais de 10 dias não saio do quintal da minha casa. Tenho um quintal privilegiado com abóbora, pé de bananeira, macaxeira, abacate, laranja e goiaba. Posso colher frutas e cuidar da horta. Posso acordar de manhã e aguar as plantas, trazer frutas e legumes para a cozinha. Acho que é um privilégio muito grande. Fico com sentimento de solidariedade grande com os que estão passando a quarentena na cidade, em ambientes fechados, aonde não podem sair no quintal, por exemplo. Se de manhã consigo colocar água nas plantas. À noite consigo colocar fogo no ritual que a gente acende no terreiro da aldeia. Não fazemos aglomerações. Nossas casas estão numa distância boa com as outras para não ter contágio comunitário. Dentro dessa reserva, tamanho de uma área de 4 mil hectares, mais ou menos de um bairro não muito grande aonde você vive. As casas não estão enfileiradas, elas estão distribuídas em um espaço considerável. Eu posso levantar de manhã cedo e caminhar uns seis quilômetros sem encontrar ninguém. Não é um problema aqui interno o contágio, não precisamos usar máscaras de forma tão rigorosa. Só temos que evitar o contato físico com outras pessoas. Por isso, não temos mais nenhuma atividade coletiva exatamente para evitar esse contágio. Porém estamos tomando muito cuidado: lavando as mãos, lavando tudo o que vem de fora e descartando todos as embalagens. Esses embrulhos, em geral, são queimados. Se nós não tivermos imprevistos nessa rotina, nós podemos atravessar essa pandemia sem nenhum caso aqui dentro. Entendo que as pessoas queiram saber qual a vacina, qual o remédio. O remédio é distanciamento social, isolamento. Se a gente tiver esse cuidado, pronto, o remédio é esse. Não precisamos ficar desesperado caçando a cloroquina por aí.

Banner foto de índia carregando bebê saindo da oca com bolsa. Texto lateral esquerda: COVID-19 ISA monitora avanço da pandemia entre povos indígenas - Clique Aqui e acesse a plataforma.
No site do ISA, é possível acompanhar a situação dos povos com o avanço do coronavírus. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3 – Qual a importância das organizações de defesa dos direitos indígenas mostrando os casos de contágios em diferentes regiões, como o Instituto Socioambiental mostra diariamente na plataforma de monitoramento a situação indígena na pandemia. Você poderia comentar os principais problemas que esses povos estão sofrendo mais nesse período?
AK- Os povos indígenas estão sofrendo antes da pandemia, com a invasão de seus territórios e negativa do Estado brasileiro. Estamos sob o governo, que nega os direitos dos índios, e está na Constituição. Isso põe a realidade dos povos indígenas numa tábula rasa. Todos no mundo estão ameaçados. Está ameaçado também todos os povos indígenas do Brasil: do Rio Grande do Sul ao Amapá, passando por Acre, Amazônia, regiões do Nordeste. A pandemia acrescentou uma situação de genocídio que Estado brasileiro aponta para os indígenas com risco imediato de mortandade, diferente do quadro de uma ameaça sob os territórios, de uma invasão garimpeira de contágios em diferentes epidemias e endemias. Antes do Covid, os garimpeiros já contagiavam as aldeias e levavam doenças para esses povos. Algumas das organizações que apoiam os indígenas já vêm denunciando, como o ISA, que atualiza dados sobre violência contra os povos indígenas. Nesse caso são assassinados. Como que aconteceram ano passado, mais de 200 pessoas indígenas foram assassinadas em conflitos de terra, invasão territorial e ação dos nossos territórios.
Eu mencionei para você a lama da mineração da empresa Samarco, de Mariana, que derramou material tóxico em cima dos nossos territórios e estamos lutando contra eles. Essa luta nunca pára. Não é uma coisa que estamos vivendo há 40 dias. O que nós observamos é que as pessoas não indígenas, que estão sofrendo com a pandemia agora finalmente despertaram para a realidade de ameaça que pode ser perda de seus familiares. Independente de ser criança ou velho, você está sujeito a perder um familiar seu. Isso está ressaltando na opinião pública geral o sentido que nós precisamos mudar a nossa responsabilidade social com todos. Supondo que o indígena não era nem percebido, invisível, agora ele e todo mundo estão sob a mesma ameaça. Nós precisamos ter consciência do que estamos vivendo, tanto do ponto de vista da pandemia, quanto da ausência da responsabilidade do Estado brasileiro em administrar os serviços necessários para a população sair dessa situação de pandemia sem tanto dano. Estamos vendo pessoas enterradas em vala comum. Significa que estamos em um acampamento desgovernado. É tanta tragédia que me deixa indignado e me feito falar tanto quanto eu não gostaria de estar falando.

Portal Setor3 – Como está a repercussão do O Amanhã Não Está À Venda?
AK – Para mim, foi uma surpresa desconcertante ter feito aquelas falas no O Amanhã Não Está À Venda, como se eu estivesse antecipando uma tragédia do tamanho dessa que estamos vivendo. Pessoas que não tinham uma atenção com a situação dos povos indígenas passaram a me procurar para saber como pretendíamos sair dessa situação extremamente grave. Muitas pessoas de centros urbanos entenderam que não é só uma relação com a natureza, no sentindo ambientalista. É uma mensagem também no sentido dos nossos valores, que nós estamos embaralhando eles a ponto de não vivermos com o tempo necessário de reconhecer uns aos outros. Estamos vivendo na qualidade das nossas vidas, ao mesmo tempo que todos anseiam alguma coisa amanhã. Esse amanhã é consumir algo, é ter alguma coisa, e um quase esquecimento de quem nós somos no sentindo ser. Essa angústia de sair buscando o trabalho, retomando a economia, alguma atividade aparente de produção, ela estava desprezando o quanto a gente pode simplesmente estar morrendo desempregada. Se por um lado, quando a pandemia ficou mais brutal e começou a matar mais pessoas, nos assustamos. Por outro, outras não puderam fazer esse recolhimento, sem quarentena alguma, porque eles tinham que sair para trabalhar. Ao mesmo tempo, eles ouviam uma voz que dizia: vai para a rua, vai trabalhar, a economia precisa de você. E os médicos diziam: fique em casa. Então, parecia uma coisa esquizofrênica. Foi nesse contexto que falei aquelas mensagens que estão no Amanhã não Está a Venda. Meu editor da Cia das Letras tomou aquelas falas do Amanhã Não Está a Venda como um texto que poderia ser publicado e divulgado no formato que está sendo veiculado hoje. Está acessível a todos. Não é um livro novo. Esse texto será incluído como parte da próxima reedição do livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo. O PDF o Amanhã Não Está À Venda é uma reação a esse momento dramático que todos estamos passando e teve uma aceitação e veiculação enorme. Irá aumentar muito o debate em torno da visão que os povos indígenas possuem da natureza, da terra como organismo vivo e da nossa responsabilidade com o que está acontecendo. Esse vírus está matando pessoas. Quando começamos a conversar, os pássaros estão em volta de mim, os animais estão vivos. O ser humano que está morrendo. O ser humano está acabando com o planeta e é uma resposta da terra com o desprezo pela nossa relação com a vida.

Ilustração com capa dos livros Ideias para Adiar o Fim do Mundo.
A publicação traz a crítica do líder indígena sobre a ideia de humanidade como algo separado da natureza. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3 – Você acha que nesse período de quarentena e isolamento social as pessoas vão estar abertas a refletirem e absorverem conhecimento dos povos indígenas, respeito de recursos naturais e outras mudanças?
AK- Esse estado de choque que estamos vivendo no mundo todo já fez holandeses aprofundarem debate sobre decrescimento. A Europa avançou em termos econômicos e novas tecnologias estimulando a ideia do desenvolvimento. Agora a Holanda decidiu pensar a sua atividade econômica como desacelerar o ritmo da produção de mercadorias desnecessárias. Começar a aplicar o critério do que nós precisamos para viver bem, o que é excesso. Tem muita coisa da indústria alimentícia que é puro lixo e continua sendo produzido e vendido nas lojas de shopping, nas janelas de ônibus de rodoviárias, nas ruas. Por que não retiramos todo esse lixo alimentar do mercado ao invés de circular somente alimentos de verdade? As crianças são induzidas a comer um monte de porcaria que o controle sanitário se fosse mais rigoroso estaria vendo que estão fazendo mal para elas, porque é cheio de corante artificiais, estabilizantes e outros venenos. Nós estamos com imensa faixa da população infanto-juvenil obesa, e não por se alimentarem muito, mas por escolhas ruins.

Portal Setor3 – Vamos conseguir parar de vender o amanhã?
AK- Você põe uma questão que não é uma pergunta e resposta, né? Não tem como responder sim ou não. Estamos falando de pluralidade de culturas, uma diversidade muito grande de pessoas, de contextos sociais distintos. Não existe um nós. Na verdade, nós estamos todos fraturados. Algumas pessoas vão aprender muito com esse sofrimento e outras simplesmente vão ganhar muito. Então, não podemos chamar de nós um extremo que vai lidar com desgraça alheia e outro que vai ficar à deriva, esperando que o vírus vá embora para eles voltarem a viver.