Adriana Barbosa fala como os empreendedores das periferias estão impactados na pandemia

Levantamento feito pela Coalização ÉDITODOS mostra que: 74% deles não tinham reserva financeira e 46% pretendem pedir empréstimos.

Foto de mulher negra sorrindo em centro de São Paulo
Adriana Barbosa é fundadora da Feira Preta e CEO da Pretahub, e uma das líderes a frente da coalizão ÉDITODOS. (crédito da foto: divulgação)

Os empreendedores das periferias brasileiras estão entre os mais impactados pela crise com a pandemia do coronavírus. Entre março e abril deste ano, a Coalização ÉDITODOS realizou um levantamento para entender a situação desse segmento e serviu para criar a metodologia de implementação do Fundo Emergências Econômicas, com objetivo de apoiar 520 empreendedores negros e periféricos em 10 Estados do país e Distrito Federal.

A situação financeira foi o que mais afetou esses negócios nessas regiões. Alguns dados alarmantes foram: 62% não possuem reservas financeiras ou acesso à financiamento, 29% precisam de ajuda para viabilizarem suas vendas e 7% melhorarem a comunicação com seus clientes. Já 33% precisam de financiamento de R$ 1.001 a R$ 2 mil para quitar despesas essenciais (água, energia e alimentação).

A moda e a economia criativa representam juntas 36% do volume de negócios destes empreendedores. Em seguida vem gastronomia com 11%, e negócios digitais com 4%. Os demais negócios são de diferentes áreas de atuação e representam 48%. 72% dos empreendedores se dizem pretos, 14% pardos, 11% brancos e 1% indígenas e amarelos.
A região Sudeste é a que mais abarca esses empreendedores, sendo que 43% deles estão localizados em São Paulo, 11% em Minas Gerais e 5% no Rio de Janeiro. A segunda região mais representada é o Nordeste, com 19% presentes na Bahia e 5% em Pernambuco. Nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sul, 7% estão no Distrito Federal e 1% no Maranhão e em Santa Catarina. Nos demais Estados, este volume não chega a 1%.

A coalizão ÉDITODOS é uma aliança que reúne vários atores do empreendedorismo negro no país. Reúne seis empresas e OSCs de impacto social: Agência Solano Trindade, Afrobusiness e Feira Preta (São Paulo), FA.Vela (Belo Horizonte), Instituto Afrolatinas (Distrito Federal) e Vale do Dendê (Salvador). O objetivo central é enfrentar o racismo estrutural e as disparidades de gênero para promover um empreendedorismo. Confira a entrevista com Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta e CEO da Pretahub, e uma das líderes a frente da coalizão ÉDITODOS.

Portal Setor3 – Qual a faixa etária e sexo predominante dos empreendedores periféricos desse levantamento?

Adriana Barbosa-
Ao menos metade dos empreendedores são mulheres, o que foi uma prioridade ao Fundo Emergências Econômicas. Já a faixa etária varia entre jovens e pessoas acima dos 50 até 100 anos. A Dona Cadu, uma ceramista de mão cheia, da região do Recôncavo da Bahia é uma das contempladas. Esse ano ela completou 100 anos de idade.

Portal Setor3 – Qual a importância desse estudo em um contexto de pandemia e como ele pode impactar nas políticas públicas?

AB– Diante das inúmeros dificuldades e desafios enfrentados pelos pequenos empreendedores antes mesmo da pandemia, vimos a necessidade de compreender quais as questões de maior relevância e o que deveria ser priorizado. Por isso foi tão importante colher as informações que constam no infográfico. Em relação às políticas públicas, O Estatuto da Igualdade Racial, que completa 10 anos este mês, abriu caminho para diversos avanços no combate ao racismo. Para seguir com políticas públicas que promovam a construção de uma sociedade com oportunidades equânimes, o projeto apresentado pelo senador Telmário Mota (Pros-RR) cria a Política Nacional de Apoio ao Afroempreendedorismo. Já o PL 2.538/2020 promove e fortalece iniciativas empreendedoras lideradas por pessoas negras. A política pública permite que a legislação brasileira prevê regimes jurídicos diferenciados para microempresários e empresários de pequeno porte, para incentivar o crescimento empresarial por meio da simplificação dos processos e da redução, ou até mesmo da exclusão, de obrigações tributárias, previdenciárias e creditícias. No entanto, o ponto de partida da população negra é de 400 anos de escravidão e 132 anos pós-período da abolição. Nesse sentido os empreendedores negros enfrentam obstáculos adicionais para se candidatar a esses benefícios.

Portal Setor3- De que forma o Fundo Emergências Econômicas contribui aos empreendedores? Desde quando está apoiando e tem prazo?

AB- O Fundo Emergências Econômicas contribui com até R$ 2 mil para cada empreendedor, além do programa de mentorias e acesso a acompanhamento com profissional de saúde mental, exclusivo para mulheres acima dos 50 anos. O programa tem o objetivo de ir além da contribuição financeira e orientar o empreendedor como fazer o melhor uso deste investimento para a potencialização do seu negócio e desenvolver a inclusão digital de seus produtos e/ou serviços. A contribuição financeira está sendo feita em ondas, a primeira mobilização ocorreu em maio, a segunda em julho e a terceira será em agosto. Já o programa de mentorias iniciou em julho e segue até novembro.

Banner com foto de mulher negra escrevendo em frente a notebook e texto no centro: Emergências Econômicas ÉDITODOS.
A meta é conseguir 50 mil reais ára apoiar entre 25 e 30 nano e microempreendedores de Belo Horizonte, Salvador, São Paulo, Recife, São Luís, Belém e Distrito Federal. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3 – Quais os critérios que foram usados para selecionar os 520 empreendimentos?

AB- As mulheres negras foram contempladas em no mínimo 50%, além desta priorização houve análise das condições socioeconômicas do indivíduo e grupo familiar. A condição básica é que já tenha participado de ações de capacitação empreendedora das organizações que formam a coalizão.

Portal Setor3 – Como vocês observam a quantidade menor de empreendimentos nas regiões Norte, Centro-Oeste e Sul?

AB- Porque há menos estímulos nestas regiões. O processo de afro-empreendedorismo vem acompanhado também com o fortalecimento identitário. Salvador, São Paulo, Minas Gerais, Maranhão, Pernambuco passam por vários movimentos a partir de instituições, coletivos, fundações privadas e até do Sebrae em relação ao tema. O Sebrae do Rio de Janeiro, por exemplo, desenvolveu uma pesquisa importante sobre empreendedores negros, moda e as Feiras. Maranhão já emplacou algumas iniciativas com recorte de raça. Uma junção de ações fortalece o campo do ecossistema afro-empreendedor, que começa pelo ativismo, pelo fortalecimento identitário e pela forma institucionalizada de algumas instituições públicas, privadas e da sociedade civil.

Portal Setor3- Quais são os próximos planos para oferecer mais suporte a este empreendedor, além do Fundo?

AB– A Coalizão Editodos, além do recurso financeiro, tem apoiado o empreendedor com ciclo de mentorias, acompanhamento com uma profissional da saúde mental, por meio de sessões individuais de terapia. Faremos ainda uma espécie de cesta básica do empreendedor com cartão de alimentação, crédito para compra de acesso à internet, crédito para impulsionamento entre outros acessos. Desde 2017 a Coalizão vem desenvolvendo um processo de advocacy no campo do ecossistema de impacto social, para inclusão do temas de raça, gênero e periferia tanto do ponto de vista de quem desenvolve as tecnologia sociais, combatendo a narrativa de público beneficiário, como também sobre a descentralização dos investimentos para os negócios liderados por negros e periféricos com a intersecção de gênero. A Coalizão também está desenvolvendo a sua teoria da mudança dessa aliança para apoiar o empreendedorismo negro no Brasil a longo prazo.

Acesse aqui o Fundo Emergências Econômicas Éditodos no site Benfeitoria: https://benfeitoria.com/fundocoalizaoeditodos