Abertura do 10º Congresso GIFE traz diferentes visões

Diferentes especialistas refletem atual momento do Brasil na abertura do congresso para inspirar os participantes a pensarem em novas atitudes em seus respectivos projetos.

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Filósofa defende gênero e racismo para pensar na criação de políticas públicas e ações de investimento social. (crédito da imagem: Gabriela Cais Burdmann/GIFE)

Como dialogar a diversidade nas iniciativas? De que forma as novas tecnologias conseguem atingir nosso papel? Neca Setubal lança as questões para abrir a 10º edição do Congresso GIFE com o tema Brasil, Democracia e Desenvolvimento Sustentável na Fecomércio, no centro de São Paulo. Trata-se de um dos principais eventos da área de investimento social privado do país. Os debates vão ocorrer até sexta-feira em diferentes formatos.

A socióloga e presidenta do GIFE ressaltou a importância de inserir o maior número de temas para impactar nas iniciativas que enfrentem as desigualdades, construam novos parâmetros para a construção de uma vida coletiva mais humana e sustentável. “O momento é de assumir mais posicionamento, fazer mais advocacy, reafirmar a democracia de forma forte e suficiente. Devemos manter nossas singularidades, romper os nós para uma agenda comum articulando diferentes vozes para potencializar ainda mais a pluralidade”. Neca recordou da morte de Marielle Severo e sugeriu que os participantes se perguntassem o seu papel como cidadãos, o papel no movimento do investimento social privado, como devem se posicionar e mover para a preservação da democracia mais justa e sustentável.

A socióloga explica que essa trajetória de 10 edições na busca pela discussão e troca de experiências nesse segmento. Para ela, é fundamental o processo de redescobrir o Brasil em toda sua pluralidade e criatividade e o grande desafio é fortalecer conquistas coletivas.
Antes de iniciar o debate da abertura do congresso, o público foi convidado a responder a pergunta central: na sua opinião, qual a principal contribuição que o ISP (investimento social privado) pode oferecer para a formação de novas agendas e convergência no país?
Com o título Qual Brasil? Olhares para além do agora, o debate contou com a mediação de Paula Miraglia, co-fundadora e diretora geral do Nexo Jornal e doutora em antropologia social, e os participantes foram: Djamila Ribeiro, mestre em filosofia política e colunista da revista Elle e Carta Capital; Eduardo Giannetti, economista, professor e autor dos livros Vícios Privados, benefícios públicos? e As partes & o todo; Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza; André Baniwa, liderança indígena da organização da Bacia do Içana; e Joaquim Falcão, advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas.

A mediadora perguntou como firmar um compromisso coletivo sem desprezar lugares diferentes e a diversidade que em muitas situações reforça determinadas desigualdades, que tipo de visão emerge. O primeiro a falar foi o economista Eduardo que já começou ressaltando importância do dia da abertura do congresso com a decisão do Supremo sobre o pedido de habeas corpus do ex-presidente da República Luís Inácio Lula da Silva. Listou os principais desafios do país: o central na década de 1980 foi sobre a redemocratização, com retrocessos e o grande desapontamento da campanha das Diretas Já. “Nós superamos e o país caminhou para uma nova Constituição. Na década de 1990, o Brasil viveu também uma saga na tentativa de construir uma moeda estável num ciclo de planos fracassados que causaram hiperinflação. A população mais impactada foi a da base da pirâmide. Muita gente achou que não seria possível superar e conseguimos sim. Esse foi um momento bem importante na década de 1990”.

O professor levantou que o principal acontecimento da vida pública brasileira foi a Operação Lava Jato. “O episódio escancarou a deformação patrimonialista brasileira. Prevaleceu a ainda o modelo de inversão”, afirmou e ainda indicou que há dois vetores: estado patrimonialista brasileiro e governantes que usam prerrogativas do poder não para atender a sociedade, mas para se perpetuarem ao poder. Ele ainda ressaltou que o segundo grupo não é de governantes nem de políticos, mas de segmentos relevantes da área privada empresarial, que encontram acesso privilegiado para fazer crescer seu negócio. “Eles buscam desesperadamente um atalho para que possam fazer seus negócios ao mercado”. E compartilhou alguns números ao público: o Estado brasileiro tributa 33% da renda nacional, a carga tributária da união é de 33% do Produto Interno Bruto (PIB), cada 100 reais de valor de 33 são arrecadados pelo governo. “O Estado brasileiro gasta mais do que arrecada. Déficit 7% do PIB. 40% da renda nacional transita pelo setor público”.

Para esclarecer a responsabilidade das empresas, Ana Luiza Trajano falou da sua paixão sobre o país. Ela afirmou que muitos empresários que não tiveram benefícios e venceram inúmeros desafios. Comentou ainda que ajudou na criação de uma empresa para ganhar dinheiro e contribuiu na formação de programas de bolsas de estudos para funcionários. “Só acredito que o Brasil vai para a frente quando pararmos de dividir”. Ainda compartilhou sobre o projeto Mulheres do Brasil, em que está viajando pelo país para conhecer diferentes ações lideradas por mulheres. “O que nós precisamos fazer é gerar oportunidades e dar dignidade a esse povo. Não podemos aceitar que 60 milhões de brasileiros vivem com menos de dois mil reais. Não podemos sair desse evento com futuro, mas com atitudes”, concluiu e ainda defendeu os programas de educação existentes e reuní-los numa plataforma e projeto único. Também ressaltou que a população precisa cobrar e parar de reclamar para se unir num propósito de 10 anos.

André Baniwa trouxe para o debate a pauta indígena e comentou que muitos ainda vêem a demarcação de terras como um impedimento e não como um assunto importante para o desenvolvimento sustentável. “Eles não conseguem olhar para essa diversidade cultural como riqueza. Isso ainda temos que superar”, alertou. A liderança ainda disse que nos últimos 30 anos os povos indígenas estão se organizando em diferentes níveis. “O atual modelo educacional não serve aos nossos povos, mas para empobrecer nossa cultura”, ressaltou e ainda compartilhou que em 1992 seu povo criou uma organização e possui uma escola própria indígena desde 2000, que teve ajuda de estudantes secundaristas noruegueses. Essa instituição tem recebido alguns prêmios como reconhecimento em inovação e criatividade. “Aprendi com muitos parceiros que para ser reconhecido é preciso sair do país e ir para a Europa e na volta você é valorizado. Nosso trabalho na organização é valorizar a cultura indígena”.

A filósofa Djamila focou sua fala sobre a importância de entender o passado para refletir o futuro. Iniciou sua pontuação lembrando os 130 anos da abolição da escravatura. “Isso diz muito como o Brasil se constituiu e do processo de industrialização e como aportou o acesso da população negra a serviços básicos. Isso tudo foi bem antes da Constituição Federal, de 1988. O Brasil foi o último país a abolir a escravatura na América Latina. E a população negra não assumiu postos de trabalho. As mulheres saíram da condição de escravas para domésticas”. Além dos negros, a palestrante ainda ressaltou que os povos indígenas também foram apartados do processo de desenvolvimento da sociedade brasileira. Dessa forma, ressaltou a importância de debater o racismo, gênero e pensar na exploração de determinados grupos que estão na base da pirâmide.

Djamila também disse sobre a lei de terras que privilegiou as classes dominantes. “É importante conhecer esses diversos Brasis e como esses povos foram apartados aos direitos básicos”. Ela ainda falou que a sociedade é dividida e ressalta a importância de falar sobre esse assunto. “Quando você melhora a vida de grupos vulneráveis, a gente melhora o nível de todo país. Por isso, é importante pensar a distribuição de recursos, quais recursos e quais projetos vocês vão apoiar. É essencial pensar na pauta de gênero e racial, mesmo sabendo que ela causa incômodo. A segregação se dá de variadas maneiras e pensar essas questões geográficas. O programa da sociedade brasileira precisa ser enfrentado por todas nós e entender nossa responsabilidade na contribuição de uma sociedade mais justa”, defendeu a importância das narrativas das pessoas. E ainda finalizou: “O incômodo pode refletir o tipo de sociedade que quer e ver a empatia não como sentimento. Ela é uma construção, leva tempo, pode ser doloroso. É uma postura intelectual e vou me responsabilidade pelo outro. Ele partilha da mesma humanidade que eu”.

Já o professor Joaquim refletiu da primeira presidência do GIFE com presença de uma mulher. O tema atual é justiça. Ele contou uma história da década de 1990, com vários severinos, que saíam de suas cidades do Nordeste e se direcionavam para a capital. Sem emprego, sem lar, sem dinheiro. Na época havia muitas ocupações de terra. “Eu jovem professor e fazia pesquisa sobre direito e propriedade. Nós trabalhávamos com Dom Hélder Câmara, na Comissão de Justiça e Paz e avisava quando teria ocupação de terra. Recife inchava naquela época e era uma patologia social”. Ele se recordou e ainda disse que os advogados acompanhavam a ocupação pela sobrevivência.

Essa história possibilitou o professor fazer uma reflexão sobre o direito de propriedade e do direito de moradia. Naquele momento, Joaquim contava que havia o direito de propriedade, mas não o direito de moradia: “Uma jovem pesquisadora encontrou uma senhora fazendo seu barraco e pergunta para ela academicamente: a senhora acha direito invadir a propriedade de alguém? Se eu fiz direito, se é direito ou não, não sei, eu fiz direito. Ela fez o direito. Ela fez o seu direito de moradia, na cabeça dela. Por trás disso, havia dois aspectos: direito da lei estatal, que não protegia o país por não ter direito de moradia, tinha a escritura, ela então fez o direito antropologicamente e significado grande. O tema é esse”.

O professor esclareceu que a sociedade brasileira atualmente vive o sentimento de justiça não concretizado nas instituições. “Nos últimos 10 anos, o Brasil está se apropriando do conceito e da produção de justiça. Não é só fazer lei, como a justiça circula e se distribui na sociedade. Quando for ver, vai ver que alguns estão mais obesos que outros. Alguns têm mais justiça que outros. Eu vejo esses últimos anos como tremendo projeto educacional público difuso sobre como reapropriamos a justiça que os escapou mesmo dentro da democracia. Quando tenho uma obra, numa licitação fraudada, eu não tenho problema econômico, eu tenho prática da justiça. Quando tenho privilégio a determinados de cargos, tenho problemas de justiça. Então, temos que passar ressonância magnética nas relações sociais para entender essa patologia. Esse processo avançou nos últimos anos. Depende do que nós vamos fazer com eles”, concluiu.

Acompanhe aqui programação do evento no site: https://congressogife.org.br/2018/