“A cada 10 habitantes da cidade de São Paulo, três são negros”, diz a coordenadora do CEERT, Cida Bento 09/12/2016 15h20min | G

15284043_10153909235156432_1506879187027108997_nNo último dia 7, quarta-feira, aconteceu o Diálogos Ethos – Desafios Contemporâneos: empresas, mobilidade urbana e direitos humanos. O evento, promovido pelo Instituto Ethos, trouxe à tona temas como mobilidade urbana e direitos humanos.

Para falar sobre Contribuição das Empresas para a Equidade de Gênero e Raça foram convidadas a diretora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade (CERT), Cida Bento, Silvia Pimentel, do Comitê sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher das Nações Unidas, Marcia Massotti, responsável de sustentabilidade Brasil da Enel e, por fim, para moderar o painel, Ana Lúcia Custódio, coordenadora de Gestão para o Desenvolvimento Sustentável do Instituto Ethos.

Ana Lúcia iniciou a mesa expondo o guia temático dos Indicadores Para a Promoção da Igualdade Racial, lançado pelo Instituto Ethos, e parte do projeto Empresas Pela Equidade – Engajamento e Capacitação, que conta com apoio do Fundo Newton do Conselho Britânico.

15289200_10153909732116432_8848886451763604009_oAna afirmou que o lançamento é um marco no movimento de responsabilidade social pela equidade racial.  “A ferramenta é fruto de um trabalho intenso. Ao longo desse ano discutimos e desenvolvemos essa referência. É inédito que um manual aborde a questão de raça. Demos um passo concreto e positivo na discussão junto as empresas”.

Seguiu relatando que essa é a primeira iniciativa do projeto Empresas pela Equidade. De acordo com ela, em março do próximo ano será lançado o Fórum Empresarial Nacional Sobre a Igualdade de Gênero e Raça, em parceria com o Movimento Mulheres 360°, responsável pela produção do informe sobre igualdade de gênero. “A nossa proposta é que esses sejam instrumentos para acompanhar as medidas adotadas pelas empresas. As duas agendas se interseccionam, se complementam. Uma prática leva a outra”.

Ela expôs, também, a atual situação do mercado de trabalho no Brasil. Pontuou que a sociedade brasileira é majoritariamente negra e isso não é representado nas empresas. Lembrou, também, que esse é um problema antigo e que apesar da mudança na postura das pessoas, principalmente de gestores públicos, é algo que está longe de acabar. “Até hoje não conseguimos progredir suficientemente, principalmente na iniciativa privada”. Hoje as mulheres representam 13% do mercado de trabalho e os negros, 4%. “O guia é um instrumento de aprofundamento que mostra como os indicadores apontam para o perfil demográfico interno da organização”. A palestrante concluiu dizendo que é alarmante a situação da mulher negra no mercado de trabalho no Brasil.

Cida Bento foi a próxima a fazer considerações. Ressalvou, primeiramente, que a parceria envolve três grandes iniciativas. A primeira, o guia, seguida pela coleta, delimitação e síntese de cases de igualdade racial, e o Fórum. Cida diz que é difícil avançar nesse tema. “Nós devemos nos questionar o motivo do tema ser tão pouco discutido. Iniciativas como essa, que atingem toda a sociedade, merecem destaque”. Contou, também, que ao longo de sua carreira, conviveu com poucos profissionais negros.

Aponta ainda que a política de cotas raciais é uma tentativa importante no processo de diminuir a desigualdade. “Apesar do avanço, as estatísticas não têm mudado no mercado de trabalho. Programas que trouxeram mudanças significativas estão suspensos no ar e precisam ser revistos”. Como exemplo, citou as cartilhas sobre gênero que era para ser distribuída nas escolas. “Se nós pensarmos que agora é a vez de dialogar com as empresas, e que o Estado adotou métodos eficazes nas últimas décadas, talvez o que possamos fazer é refletir sobre como ampliar a presença desse tema. O guia e fórum são espaço para isso, eles ajudam a quebrar o silencio e ter um diagnóstico dos funcionários de uma corporação”, pontuou. Para Cida, é papel de áreas como comunicação e marketing apoiar e debater o assunto.

“Nunca foi educado perguntar sobre cor no Brasil. A cada 10 habitantes da cidade de São Paulo, três são negros. Por que eles não estão no mesmo ambiente de trabalho que eu? Há algo de errado e cabe a nós encontrar uma solução”.

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Por fim, destacou que para implantar políticas de equidade racial, é necessário envolvimento não só de negros e negras, mas sim, da população como um todo.

Silvia Pimentel, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, falou sobre como as empresas podem atuar na questão de gênero e políticas para as mulheres. Silvia, que se intitula feminista e militante desde 1970, chama atenção para o preconceito enraizado na sociedade no que se diz respeito a gênero e raça, fatores esses que, de acordo com a estudiosa, não devem ser tratados separadamente, mas sim, como aspectos que se complementam. Enquanto professora da PUC, há 43 anos, tem levado para as salas de aula conversas sobre diversas formas de descriminação.  “A segregação está em todos os lugares, inclusive na faculdade”, afirma.

“É comum ver movimentos sociais sendo intitulados como irritadiços à toa”. A solução, na perspectiva da profissional, é dialogar com estudiosos da área e passar a refletir criticamente sobre preconceitos e discriminações das quais não se tem consciência. “Vamos trabalhar com atenção na cultura. É inaceitável que em pleno século XXI ainda haja discriminação”, finalizou.

A última a expor foi Marcia Massotti, da Enel. Com tempo reduzido, ela iniciou a apresentação expondo como a instituição procurou práticas inclusivas para pessoas com deficiência. “Eu acreditava que na maioria das vezes, os candidatos não atendiam ao que nós procurávamos. Passamos, então, a capacitar internamente”.

O foco de raça e sexualidade, hoje, não é trabalhado efetivamente na empresa. As políticas presentes, de acordo com Marcia, são consistentes, como por exemplo, promover e destacar o trabalho de profissionais do sexo feminino. “No comitê executivo nós temos 40% de mulheres e no sucessório, há uma cota que precisamos atender. Nas áreas de staff, exercendo áreas gerenciais, temos 54% de mulheres. Isso é muito relevante”, explica, ao finalizar o painel.

O guia feito pelo Instituto Ethos está disponível no site da organização e pode ser encontrado em https://goo.gl/FayH7c


Crédito do texto: Gabriela Lira Bertolo
Data de publicação: 09/12/2016