4ª Semana Senac de Leitura: Mulheres na Literatura

Escritoras, contadoras de histórias e mediadoras de leitura compartilham suas experiências com a literatura.

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Bate-papo com mulheres escritoras, ativistas culturais, meadiadoras de leitura e contadoras de histórias falam sobre a importância de estimular o hábito da leitura. (crédito da imagem: Sinéia Esteves de Souza)

Quatro mulheres compartilharam como a literatura transformou e ainda impacta suas vidas. Esse foi o tema central da 4ª Semana Senac de Leitura, organizado pelo Senac São Paulo: Mulheres na Literatura – leitura e escrita que transformam vidas. O bate-papo marcou o início do evento que percorrerá em mais de 50 unidades.

De acordo com a pesquisa A Personagem do Romance Brasileiro Contemporâneo, organizada pelo Grupo em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UNB), 70% da produção literária é escrita por homens brancos, de classe média, nascidos no eixo Rio-São Paulo. Ainda constataram que publicações de três grandes editoras brasileiras entre 1965-1979, 1990-2004 e 2005-2014 tem pouca representatividade sobre a condição feminina na autoria dessas obras e em suas narrativas produzidas. Dessa forma, o evento pretende mostrar as produções literárias de mulheres. As unidades do Senac São Paulo vão promover atividades relacionadas com os textos das autoras, oficinas de escrita, rodas de conversa, troca de livros, entre outros.

O bate-papo contou com a participação das escritoras: Maria Vilani, filósofa, professora e ativista cultural na periferia de São Paulo; Goimar Dantas, escritora e jornalista, roteirista, autora e mestra em Comunicação e Letras e mediação de Bel Santos Mayer, coordenadora de projetos de fomento à leitura.

“Sou uma das pessoas transformadas pela literatura”, inicia Bel Santos. Graduada em Matemática, educadora social, bacharel em turismo, especialista em Pedagogia Social e coordenadora de projetos de direitos humanos do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac) e uma das gestoras da Rede LiteraSampa e membro da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias, Bel Santos iniciou com a pergunta: como a literatura transforma e movimenta?

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A contadora de histórias Elaine abriu o debate com apresentação de Fátima Fiandeira. (crédito da imagem: Samuel Pontes/Senac São Paulo)

Goimar se recordou que participa do evento desde quando era Semana de Troca de Livros e sempre conversou com alunos e docentes e profissionais com suas vidas voltadas para as palavras. De família humilde do Rio Grande do Norte, ela compartilhou que foi uma das primeiras pessoas da família a ter graduação. Sua mãe era conhecida por contar histórias para as crianças na cidade de Jari (RN). Sua família foi para Santos (SP) e lá estudou, sempre contando com apoio de professores e bibliotecários que apontaram caminhos e contaram histórias. Uma dessas pessoas foi um bibliotecário numa escola em Cubatão (SP) que contava histórias 15 minutos durante o intervalo. Todo esse caminho contribuiu para tomar ainda mais gosto pela leitura e estudos. “Em meu mestrado, estudei o sagrado e o profano nas obras de Adélia Prado e Hilda Hilst”, afirmou a editora de livros que se tornou a escritora de suas próprias obras.

Maria Vilani, conhecida na zona sul de São Paulo por suas atividades culturais com diferentes grupos, enfatizou que seu envolvimento com a literatura começou em 1950. Ela se lembra da letra bonita de seu pai, que sempre a incentivou à leitura. “Eu achava tão mágico aquelas letras e ele me ajudava a decifrá-las nas histórias infantis. Meu irmão ia para escola e eu não precisava, por ser menina, tinha que fazer as funções domésticas. Cuidava da faxina. Reunia retalhos de jornais e juntava com o meu nome. Dessa forma me alfabetizei. Apareciam poesias no jornal e separava elas, uma delas me marcou muito e resume o que vivia na infância: Barcos de Papel, de Guilherme de Almeida. “Eu me alfabetizei em poesia, me fisgou desde muito cedo”, resumiu.

O segundo momento marcante para Maria foi quando ela começou a compor junto com os filhos dela. Estudou em casa por meio de um sistema conhecido na época como ginásio. Passou por dificuldades por ter uma formação defasada. Ela chegou a estudar três anos do Ensino Médio com um dos filhos. “A literatura transformou nossas vidas. Sempre quando passo com eles na frente da escola pública que estudamos, um dos meus filhos fala: mãe, foi aí que tudo começou né?!”

Elaine Gomes, formada em Artes Visuais e mestre em Literatura, fala que atua como narradora de histórias há 20 anos. Cresceu na região de Engenheiro Marsilac, no extremo zona sul de São Paulo. Ela cresceu com seus avós contando histórias. Sua mãe foi coordenadora da Pastoral da Criança e esse contato com a comunidade a ajudou em sua visão de mundo. Desde a época da graduação, ela viu que poderia trabalhar com a tradição oral no processo de contação de histórias. “Muitas coisas estão na nossa experiência. Se meu olho não brilhar, não encanta ninguém”.

A segunda questão é como contagiar mais pessoas e de que forma levar mais literatura para as pessoas. Para Goimar Dantas, é necessário falar muito sobre literatura como uma construção social. “Pode primeiro falar em casa com os filhos. Todos podem ser mediadores com interação feita por histórias e sentir quais eles gostam. Mostrar a origem delas e por meio da hipertextualidade, você pode buscar o interesse deles”, sugeriu a escritora.

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Maria Vilani observa as mulheres mais participativas nos saraus hoje em dia. (crédito da imagem: Samuel Pontes/Senac São Paulo)

Já Maria explicou como são feitas as rodas de diálogos no CAPs. Ninguém é colocado como professor, mas mediador. Todos participam da atividade. Além das rodas, tem ateliês de escrita e até bate-papo sobre temas ambientais. “Vamos ter oficina de poesia e pássaros para as pessoas de todas as idades lá na comunidade. Também temos rodas de preparação para saraus para ler poemas autorais feito por nós e as rodas de psicologia, em que vamos conhecer as diferentes modalidades dessa área. E, por fim, última roda do mês será sobre mulheres”.

Já a professora Elaine conta histórias desde 1998 e em 2004 contribuiu na elaboração do curso Arte de contar histórias. “Nas formações, ensino como que as pessoas podem despertar o encantamento em outras pessoas, como aproximá-las nas histórias. Meu objetivo central é contação de histórias. Quando estiverem olhando, elas vão sentir vontade de ler”. A formadora ainda ressalta a importância de professores contarem histórias como uma forma de convidar o aluno para conteúdo de sua disciplina.

A terceira questão foi sobre a importância da abordagem sobre gênero na literatura. Goimar chamou atenção para o número de mulheres com prêmios na produção editorial. Já Maria mostrou o livro com as poesias feitas apenas por mulheres da comunidade e outro chamado Filosofia Escrita ao Extremo – Nexo, Léxico e Reflexivo. A contadora de histórias Elaine reforça a importância da narrativa e o trabalho feito de mulheres para mulheres. “Diante de uma dificuldade, elas têm uma ação”.

Acesse aqui toda a programação da semana até dia 27 de abril: www.sp.senac.br/semanasenacleitura